Política de censura do PSOL não combate a extrema-direita, apenas a favorece

CENSURA (2)

Na última quinta (18), o Psol solicitou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão do aplicativo de mensagens Whatsapp em todo o território nacional por 10 dias, até o segundo turno das eleições. O pedido de liminar (decisão provisória de efeitos imediatos) deveu-se às denúncias de contratação de empresas especializadas em disparos em massa de publicidade para disseminação de notícias falsas contra a campanha eleitoral de Fernando Haddad (PT). Esse serviço teria sido contratado ao custo de milhões por empresários apoiadores da campanha do neonazista Jair Bolsonaro (PSL). A prática representaria três crimes eleitorais: o financiamento empresarial, o financiamento não declarado na prestação de contas (caixa 2) e o uso de base de dados externa para propaganda – configurando abuso de poder econômico. O pedido do Psol de suspensão do aplicativo mostra o desequilíbrio e o viés de censura típicos do moralismo da esquerda pequeno-burguesa e se inscreve no contexto de um verdadeiro festival de inconsistências políticas da esquerda na condução da campanha à Presidência da República.

A primeira inconsistência foram as “candidaturas-abutre” de Guilherme Boulos (Psol), Vera (PSTU) e Ciro Gomes (PDT). Destinadas a dividir os votos do PT no primeiro turno e a enfraquecer a unidade da esquerda como um todo, essas postulações à presidência representaram nada mais que uma bovina aceitação do processo eleitoral fraudulento conduzido pelos golpistas, legitimando o pleito como alavanca de aprofundamento do golpe. Esses partidos, e os movimentos que eles conduzem, nunca mobilizaram sua militância nos atos pela liberdade de Lula, mas sempre plantaram seus líderes nos palanques do próprio PT para fazer demagogia barata.

O segundo erro veio da própria coligação PT-PCdoB-Pros, ao retirar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva do páreo antes de se exaurir a via dos recursos judiciais: o “plano B” representado pela fraca chapa Haddad e Manuela D’Ávila (PCdoB). Tal manobra foi uma grande derrota da esquerda. Se a luta pela candidatura de Lula – preso em Curitiba desde março – continha em si o germe de uma verdadeira mobilização popular capaz de mudar a relação de forças políticas reais em jogo, a campanha de Haddad se tornou um mero investimento publicitário, cada vez mais capitulador.

A ala direita do PT serviu como correia de transmissão da burguesia golpista dentro do Partido dos Trabalhadores. Primeiro Haddad declarou um possível apoio ao PSDB num segundo turno, depois revelou que não pretendia libertar Lula caso vencesse a eleição. Após o primeiro turno, a campanha foi ladeira abaixo rumo à direita. Haddad se declarou contra a legalização do aborto, comungou na CNBB, retirou a proposta de Assembleia Nacional Constituinte de seu programa – o que inviabiliza a revogação das reformas golpistas de Temer –, mudou sua campanha para verde-e-amarelo, passou a se mostrar como um defensor da família brasileira, e segue acenando para uma aliança com o PSDB nessa reta final.

Espelhando-se no Partido Democrata norte-americano, a esquerda brasileira criou verdadeira paranóia sobre as empresas como a Cambridge Analytica, capazes de traçar perfis psicológicos de usuários a partir de dados recolhidos no Facebook e usá-los em campanhas publicitárias. Com tais recursos, a direita teria “poderes mágicos” capazes de transformar os eleitores em zumbis por meio de mensagens em redes sociais. Criou-se um clima de pânico na militância esquerdista, que passou a compartilhar mensagens, memes, vídeos e links de modo febril, buscando combater o exército de perfis falsos contratados pelos gigantes imperialistas.

Esse tour de force virtual teve pouco ou nenhum efeito prático. Ao contrário, reforçou na classe média de esquerda a ilusão de que basta curtir e compartilhar mensagens em redes sociais para constituir uma resistência ao fascismo – algo ainda mais inócuo que o voto em eleições fraudadas. Nada de organizar comitês de luta contra o golpe, nada de constituir grupos de autodefesa, nada de mobilizar a classe trabalhadora.

É evidente que a classe dominante tem primazia em todos os meios de comunicação. Sucessivamente, a burguesia sempre teve controle dos jornais, revistas, rádios, televisão e internet. Não há como lutar contra essa hegemonia sem envolver na comunicação também a mobilização real da população. Somente com ações reais de luta, e não com campanhas publicitárias eleitorais, pode-se efetivamente elevar a consciência da classe trabalhadora com vistas à derrota do golpe de Estado em curso.

Talvez se apercebendo do ridículo de sua proposta ao TSE, no mesmo dia o Psol mudou o teor de seu pedido de liminar para apenas uma limitação da capacidade de compartilhamento, encaminhamento e transmissão de mensagens, bem como o número de membros em novos grupos da rede. Em qualquer caso, trata-se de mais uma trapalhada suicida – como de resto o é toda a política moralista e encarceradora de grande parte da esquerda.

Na terça (22), o ministro Edson Fachin negou o pedido de liminar do Psol. Se a côrte tivesse aceito a demanda, teria criado o precedente para mais um mecanismo de censura no cenário ditatorial brasileiro que a cada dia se torna mais sombrio. No longo prazo, as principais vítimas desse tipo de política restritiva seriam justamente as organizações populares, os militantes reais que difundem informação.

Tal tipo de censura já pôde ser visto recentemente. Setores da esquerda comemoraram o “combate às fake news” promovido pelo Facebook, quando da suspensão os perfis e páginas do MBL. Em seguida, e num momento decisivo, revelou-se que, como sempre, o alvo preferencial de qualquer campanha censora ou restritiva é a esquerda em seu conjunto. A multinacional suspendeu centenas de perfis de ativistas do PCO, do PT e de outras organizações populares às vésperas da votação do primeiro turno.

Mas o Psol parece não aprender com a experiência, sempre recorrendo à polícia, ao exército, ao Judiciário golpista para levar a cabo suas demandas. O Psol deu vivas à lava-jato, celebrou a exclusão de perfis no Facebook e pediu a suspensão do Whatsapp. Com uma esquerda assim, a extrema-direita está à vontade.