Bahia
Jovem foi morto em 2018, executado por policiais militares
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Pedro Henrique era ativista dos direitos humanos e lutava contra a violência policial. Foto: Arquivo |

Por Ana Maria Cruz*

Há quem diga que a história de Pedro é a crônica de uma morte anunciada. Desde que foi espancado por PMs durante uma abordagem policial, fato ocorrido em 31 de outubro de 2012, Pedro começou a sua militância contra a violência do Estado na cidade de Tucano, sertão baiano. Os policiais agressores foram processados por lesão corporal e abuso de autoridade e desde então iniciaram uma perseguição à vítima que culminaria com o seu assassinato em dezembro de 2018.

Em 2013, Pedro realizou na cidade a I Caminhada da Paz, era um evento de grande participação popular, onde protestava-se contra todos os tipos de violência, com ênfase para a violência policial, ele trocava camisas por alimentos não perecíveis que eram revertidos em cestas básicas distribuídas para as famílias carentes. De 2013 a 2018 Pedro realizou seis edições da Caminhada e durante este período de seis anos Pedro colecionou denúncias formalizadas no Ministério Público da cidade devido a inúmeras abordagens violentas que sofria por parte da polícia militar da cidade, sempre com agressões físicas, xingamentos e ameaças de morte.

Pedro nunca desanimou de lutar, as ameaças não surtiam efeito e ele seguia denunciando abusos praticados por policiais não somente contra ele, mas contra outras vítimas também. Em 2018, depois da VI Caminhada da Paz, as coisas pioraram para Pedro, as investidas dos PMs se intensificaram, inclusive com a participação da GCM da cidade que aderiu às perseguições, abordando-o de forma violenta.

Na noite do dia 26 de outubro de 2018, minutos depois de denunciar em sua rede social a invasão de residências por PMs no bairro Nova Esperança, onde ele morava, Pedro teve sua casa invadida por uma guarnição da CIPE e outra da GCM, tendo os agentes encontrado cinco pés de maconha em seu quintal e o levado preso, (Pedro era usuário de erva e plantava para seu uso para não alimentar o tráfico comprando) porém, em menos de 24 horas de sua detenção, o juiz declarou ilegal a prisão, determinando que o mesmo fosse imediatamente posto em liberdade, descaracterizando o crime de tráfico para uso. Tal fato desagradou imensamente os policiais envolvidos na ação, inclusive aqueles que o abordavam costumeiramente que sequer participaram diretamente da sua prisão, chegaram inclusive a lhe dirigir ofensas através de redes sociais.

As coisas pareciam ter se acalmado, Pedro evitava sair às ruas para não ser importunado pelos PMS e por outro lado não mais sofreu abordagem alguma entre outubro e dezembro de 2018. Mas no dia 25 de dezembro, Pedro sentiu-se incomodado com a presença ostensiva dos policiais dentro do mercadinho onde ele fazia compras com a namorada, ao ponto dele deixar a fila do caixa e sair do estabelecimento, onde aguardou pela namorada do lado de fora, enquanto era observado atentamente por três policiais militares, porém não lhe dirigiram a palavra.

Segundo relato da namorada, ela nunca tinha visto Pedro ficar tão nervoso na presença daqueles PMs, muito pelo contrário, sempre em que era abordado, Pedro se portava calmamente, sem alteração de humor ou mesmo demonstrar medo ou nervosismo, para ela, parecia que ele estava pressentindo o pior. Pedro seguiu com as compras para sua casa e de lá não mais saiu para lugar algum, passou todo o dia 26 tatuando alguns clientes, indo dormir por volta da meia noite, às 03:00 da madrugada, sua namorada acordou com um forte barulho na porta principal, ela o chamou, Pedro vestiu a bermuda apressadamente, quando seu quarto foi invadido por três homens encapuzados, trajando coletes à prova de balas, luvas, coturnos e armados, um deles lhe deu voz de prisão: “Rasta, cê tá preso!”, nesse momento, ao reconhecer a voz do policial, Pedro levou as duas mãos à cabeça, achando que não passaria de mais uma ação abusiva dos PMs contumazes a agredi-lo, mas nesse momento, ele foi atingido por dois tiros e ao cair sobre o colchão passou a ser alvejado várias vezes pelos três homens.

Embora os atiradores estivessem com os rostos parcialmente cobertos por capuzes, a namorada de Pedro os reconheceu prontamente, mas sabia informar o nome de dois apenas, o terceiro ela conhecia de vista. Pedro havia se mudado recentemente e os homens, antes de chegar à sua casa, arrombaram a residência do pai dele, obrigando-o, sob a mira de armas de fogo, indicar a casa onde Pedro estaria dormindo.

As testemunhas foram ouvidas no início de janeiro, na Corregedoria Geral, em Salvador e posteriormente, na delegacia de Tucano. O delegado concluiu o inquérito indiciando os PMs Bruno de Cerqueira Montino e Sidnei Santana Costa por homicídio qualificado, encaminhando ao Ministério Público que está na dependência do Promotor oferecer ou não a denúncia.

Quando procuramos saber o andamento, nos informam que outras investigações estão sendo realizadas em sigilo. O que temos de concreto no momento é que Pedro está morto, estes mesmos PMs que tanto o perseguiram e acabaram matando-o estão livres, impunes, intimidando familiares e testemunhas, inclusive um deles, mesmo depois do crime, passou a trabalhar em uma escola municipal recentemente militarizada, ficou ameaçando estudantes da escola que participaram da VII Caminhada da Paz que familiares e amigos realizaram em abril deste ano, em sua memória, já que ele havia planejado tudo, mas não teve tempo de por em prática.

Pedro foi um revolucionário sonhador, ele acreditou no seu sonho de uma sociedade mais justa, humana e igualitária e o pôs este sonho em prática. No fundo ele sabia que o pior poderia acontecer, mas esta certeza não o fez retroceder e não tenho nenhuma dúvida que se ele tivesse outra chance, faria tudo de novo. No dia 29 de dezembro, estaremos realizando um tributo em sua homenagem com a participação de algumas bandas de reggae de Salvador. Pedro gostava deste estilo musical, aliás, ele era movido a música, desenhava e pintava muito bem, um verdadeiro guerreiro, amante das artes. “Justiça para Pedro Henrique” é o nome da campanha que criamos e encontra-se disponível no YouTube. Assim como ele lutou por justiça para tantas pessoas, hoje lutamos também por ele.

* Mãe de Pedro Henrique

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