Polêmica com Boulos: reconhecer governo Bolsonaro é se curvar diante dele

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Nessa terça-feira (30),  Boulos se pronunciou em ato na Avenida Paulista, em São Paulo, chamando de “fake news” a denúncia da fraude eleitoral, orientando as pessoas a uma “resistência democrática e pacífica” e cortando a “coragem” de seu próprio movimento, quando os manifestantes gritavam “O bolsonaro, presta a atenção, a sua casa vai virar ocupação!”.  

O ato da Paulista foi uma das seis manifestações em escala nacional chamadas pela Frente Brasil Popular e pela Frente Povo Sem Medo, movimento liderado pelo ex-candidato à presidência da República pelo PSOL. Segunda a nota oficial dos movimentos, a finalidade deles é “defender a Constituição, a tolerância, um Brasil de todos e a combater o perigo da ditadura, a eliminação das conquistas sociais, a venda do patrimônio público, a entrega das riquezas nacionais, o racismo e a misoginia, a homofobia e a ameaça da violência institucionalizada”.

Apesar da pauta de luta, o discurso proferido pelo líder da Frente Povo Sem Medo e do MTST, Boulos, foi de profunda capitulação diante do governo golpista, ratificando a fraude das eleições, chamando suas bases a uma “resistência democrática e pacífica” contra o que ele diz serem “nuvens da intolerância”, “nuvens da violência” e  “nuvens de ódio”.

Para “solucionar as pautas de moradia e terra”, proferiu o discurso aparentemente radical, “pedindo a reforma agrária e seis milhões de casas para o MTST e para o MST”, contudo, chamou de “fake news” a afirmação de que a manifestação teria sido chamada para denunciar a ilegitimidade das eleições. Ele disse claramente que “nós reconhecemos o resultado das eleições” e completa, quase que de forma infantil, que “um presidente tem que respeitar as liberdades democráticas” e que “não aceitamos a criminalização dos movimentos sociais”. Por fim, disse que “viemos as ruas em paz, porque a violência, a guerra, o resolver tudo em bala, não faz parte da nossa cultura, faz da deles”. Ou seja, o método de luta pelo poder defendido por Boulos é esperar que os golpistas que já negaram na prática a validade da Constituição inúmeras vezes, tenham a bondade de manter os movimentos sociais pela terra e pela moradia na legalidade pelo simples fato de haver uma resistência “pacífica”.

Esse discurso de “resistência democrática e pacífica” corrobora com a posição apresentada pelo editorial do Estado de S. Paulo de ontem(31) que chama cinicamente à “Oposição Leal”, condenando a luta pelas “palavras de ordem”, afirmando que a “uma possível oposição ao governo eleito deve se dar pelo que chama de “lealdade e cooperação”. Com isso, o diário da burguesia paulista quer que a esquerda abandone a mobilização popular para entregar-se a uma oposição meramente nominal, parlamentar.

Boulos, acatando a fraude eleitoral, legitima o aprofundamento do golpe e ignora toda a luta contra o golpe arduamente construída pela esquerda brasileira até o dia de hoje. Boulos ignora a prisão e a perseguição política do maior líder popular brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Ignora a situação que anulou mais de 54 milhões de votos dados pelo povo à ex-presidenta Dilma Rousseff. E, para piorar, Boulos minora o risco que toda a esquerda, em particular os movimentos de luta pela moradia e pela terra, sofre com a ascensão de Jair Bolsonaro, chamando todo o avanço da política de extermínio aos movimentos de luta como “nuvens” de “intolerância”, “violência” e de “ódio”. Muito mais que “nuvens”, o risco do avanço do fascismo é real, material. Bolsonaro, fascista que já prometeu perseguir esses movimentos, taxando-os de terrorismo e considerando o ato de matar sem-terra como “legítima defesa dos latifundiários” tem poderes reais de levar a politica de seu discurso muito além de meras “nuvens de violência”. A morte do mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, o “Moa do Katendê”, de 63 anos, em Salvador, por exemplo, é algo bem material. A suástica cravada na barriga da jovem de 19 anos em Porto Alegre também é bem material. A invasão de universidades e sindicatos para a apreensão de materiais de campanha não são apenas “nuvens”. Da mesma forma que a ameaça de prisão ao diretor do curso de direito da UFF caso a faixa antifascismo não fosse retirada do campus também não é apenas uma “nuvem de ódio destilado”.

Nesse sentido, é importante dizer que “resistir” não é apenas uma ideia abstrata que não indica método. Resistência à opressão não é só um conceito, algo “bonito” para se dizer em discurso inflamado. A resistência real é algo bastante material e implica discurso, organização e método de luta e ação, um método histórico: na luta de classes, ao povo oprimido, ao operário, só lhe cabe a organização em movimentos, sindicatos e partidos de luta, e a ação prática nas ruas, que é seu terreno de ação por excelência.

As instituições burguesas são o ambiente de dominação da própria burguesia, são o centro do engodo de “representatividade” com o qual manipulam a cúpula dos movimentos sociais para que acalmem suas bases que querem lutar até o fim e nas ruas. Aos lutadores da classe operária, é fundamental a organização de autodefesa contra as diversas formas de repressão e violência da burguesia. O discurso de paz e de amor de Boulos é, pois, uma armadilha que pode levar toda a sua base e a si mesmo aos campos de concentração do fascismo que cresce sem parada nos espaços negligenciados pela esquerda confusa. É preciso travar uma luta real contra o avanço do fascismo no Brasil. Isso significa formar Comitês de Luta contra o Golpe e Contra o Fascismo em todo o Brasil. Formar Comitês de Autodefesa. E participar da 2ª Conferência Nacional Aberta de luta contra o golpe e contra o Fascismo nos dias 8 e 9 de dezembro em São Paulo.