Monopólios da internet
Parlamento australiano vem discutindo lei que contraria os interesses econômicos do Google, talvez o maior monopólio da internet. Plataforma retaliou e fez ameaças ao governo.
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Logo do Google e, ao fundo, um dos cartões postais de Sidney, na Austrália | Foto: Reprodução
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Logo do Google e, ao fundo, um dos cartões postais de Sidney, na Austrália | Foto: Reprodução

O banimento do agora ex-presidente dos EUA, Donald Trump, do Facebook, Twitter e outras redes sociais, assim como o esmagamento de plataformas alternativas às gigantes que dominam o segmento, a exemplo da Parler, rede social bastante usada pela extrema-direita, colocou no centro do debate político o papel e o poder dos monopólios que controlam o universo da internet.

Na Austrália, esse tema também vem adquirindo importância nas últimas semanas. Isso porque o Google, talvez o maior monopólio de tecnologia do mundo, resolveu comprar uma briga com o Parlamento australiano, que discute a aprovação de uma lei que prevê que plataformas de buscas na internet, como o Google, paguem alguma remuneração para os produtores de conteúdo e notícias.

O monopólio norte-americano não gostou da ideia e retaliou. No último dia 13, reportagem do Australian Financial Review divulgou os primeiras indícios de que o Google estava “experimentando com seu algoritmo para remover matérias de veículos noticiosos australianos de seus resultados”. Ao se fazer uma busca por conteúdos do próprio Financial Review ou do Sidney Morning Herald, tudo o que se encontrava no site de busca da plataforma eram links antigos ou de outras fontes.

Instada a se manifestar sobre o caso, o Google não fez nenhuma questão de esconder a ação: “Estamos fazendo alguns experimentos que vão alcançar cerca de 1% dos usuários na Austrália, para medir o impacto das empresas noticiosas e do Google Search, um sobre o outro”.

O episódio teve grande repercussão e gerou protestos por parte de outros órgãos da imprensa capitalista australiana. O próprio governo do país, dirigido pela direita conservadora e neoliberal,  se viu forçado a criticar, ainda que de forma tímida, o gigante da internet.

Pouco mais de uma semana depois,  o Google voltou a marcar posição. Desta vez, porém, com uma ameaça. Por meio de sua diretora para a Austrália e Nova Zelândia, o Google afirmou que, caso essa versão do projeto se tornasse lei, “ela não nos deixaria nenhuma opção a não ser parar de disponibilizar o Google Search na Austrália.” Aqui vale destacar um importante detalhe: na Austrália, o Google controla 95% das buscas na internet.

O episódio deixa claro o poder que os grandes monopólios capitalistas da internet concentram na atual etapa histórica. A internet, que é hoje um dos pilares fundamentais da comunicação social em praticamente todos os países do globo, é um território dominado pelos monopólios. Assim como acontece na imprensa burguesa convencional (TV e rádio), as principais ferramentas de comunicação pela internet se tornaram um instrumento de dominação completo por estes monopólios (Google, Facebook, Microsoft, etc) que passaram a utilizar cada vez mais a força para impor seus interesses.

Isso é feito basicamente controlando e manipulando a informação. As armas são variadas e vão desde mecanismos de buscas que favorecem determinadas correntes em detrimento de outras até a mais pura e simples censura, como é o caso recente envolvendo Donald Trump.

A censura, aliás, vem sendo cada vez mais utilizada e vai se tornando a arma principal desses monopólios.  Controle ideológico nas redes sociais vem aumentando sistematicamente. Só no último ano, tivemos centenas de milhares de posts  deletados das redes e uma infinidade de perfis excluídos.  O argumento das Fake News se tornou a verdadeira pedra de toque  para o aumento da repressão nas redes sociais no último período. Através desse expediente, os monopólios podem agora definir o que é verdadeiro e o que é falso e, a partir disso, estabelecer quais notícias, ideias ou opiniões podem circular ou não pela internet. Trata-se de um poder extraordinário, de claras características ditatoriais, que é atribuído a esses monopólios.

É importantíssimo destacar que, mesmo quando o alvo das ações de censura dos monopólios são elementos da direita e até da extrema-direita, isso não altera em nada a essência da questão. A censura contra elementos fascistas não deixa de ser censura. Seja contra Trump, seja contra o governo e a imprensa burgueses australianos, cada passo dos monopólios no caminho do controle cada vez mais poderoso sobre a internet é uma ameaça para a luta política dos explorados, os quais não podem abrir mão, se querem ser vitoriosos, da defesa das liberdades democráticas em geral e da liberdade de expressão em particular. Não é possível lutar contra o imperialismo sem lutar pelas liberdades democráticas.

Nessa questão, tampouco é válido o argumento de que não se trata de censura pois tais plataformas seriam meras entidades privadas. Nada poderia estar mais longe da realidade! Essas grandes empresas monopolistas de tecnologia guardam estreitas relações com o Estado. De fato, não fariam tudo o que fazem sem o consentimento, o apoio e o estímulo do Estado. É de conhecimento amplo e geral, ainda mais depois das revelações do ex-agente da NSA, Edward Snowden, que tais empresas possuem fortíssimos laços com os serviços de inteligência norte-americanos e são, antes de tudo, instrumentos políticos de valiosa serventia na dominação imperialista. Se quiséssemos ser rigorosos, melhor seria definir as chamadas “Big Techs” como entidades semiestatizadas.

A situação toda mostra que os monopólios das redes sociais são uma grave ameaça à liberdade de expressão e tendem a transformar a internet, que tinha o potencial de ser um dos meios de comunicação mais democráticos e acessíveis à população, em um ambiente onde o único discurso presente é o que esteja de acordo com o que o imperialismo permite. A denúncia contra as práticas antidemocráticas dos monopólios da internet é um ponto dos importantes da luta política atual, mesmo quando elas ocorrem com elementos secundários da burguesia, que estão sendo oprimidos por seu setor fundamental. Consiste numa luta baseada em princípios, isto é, que não está subordinada a considerações de ocasião ou conveniências de oportunidade, uma luta que, em última instância, visa a salvaguardar os interesses fundamentais da classe operária e das massas em geral contra o seu inimigo fundamental, o imperialismo.

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