Negação da realidade: para Pochmann, classe operária não existe mais
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Negação da realidade: para Pochmann, classe operária não existe mais
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Em um evento organizado pelo PT em Porto Alegre nesta segunda-feira, intitulado “Os desafios de uma gestão de esquerda em meio à crise democrática”, Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, fez uma intervenção no mínimo delirante. De acordo com ele, a “sociedade que deu origem ao PT não existe mais. Estamos com uma retórica envelhecida”. A conclusão, basicamente, seria que no Brasil não existiria mais uma classe operária de fato, trabalhando em fábricas, mas que o grosso da mão de obra estaria trabalhando na “área de serviços”.

Trata-se de uma ideia completamente falsa, e que é repetida sistematicamente pela burguesia como forma de enfraquecer a luta da classe operária. Pochmann utiliza vários dados para insinuar que o chamado “setor de serviços” estaria acabando com a classe operária brasileira, como se o Brasil tivesse passado a ser um país composto por uma vasta camada de classe média, um país desenvolvido. Na realidade, é o oposto. O elemento mais presente no assim chamado “setor de serviços” é a terceirização, isto é, o trabalhador não tem mais um vínculo direto com a empresa em que trabalha, e passa a ser ainda mais explorado. O setor inclui categorias como correios, transporte e limpeza pública, que são atividades braçais, feitas por operários que tem sido ainda mais explorados. O que na verdade é uma super exploração da classe operária brasileira, para Pochmann seria uma “evolução”, e mais, algo com relação ao qual nada podemos fazer.

E mais. Pochman mistura em um só balaio uma faixa enorme de pessoas, os chamados “empreendedores individuais”, os chamados MEIs. Conforme destacado nesta outra matéria deste Diário, o estrato inferior, correspondente a 40% destes “microempreendedores” recebe até R$ 300,00 por mês. É possível imaginar que quem ganha esta “fortuna” faz parte da classe média e teria um pensamento pró direitista?

A análise também inclui a influência das igrejas evangélicas e do dito “crime organizado” no interior da classe operária brasileira. Ele avalia, corretamente, que no caso das igrejas, há um fator de socialização que colabora para o envolvimento do indivíduo no ambiente religioso. No entanto, estranhamente, ele não tira a conclusão de que a esquerda, no caso o PT, deveria fazer este mesmo movimento, quer dizer, de criar pequenos núcleos, ou células, em bairros, escolas, universidades e locais de trabalho para socializar, discutir e agir politicamente. Para ele, a retórica dos partidos está “envelhecida”, em uma sociedade com cada vez “menos diálogo e individualismo”, e que portanto terão que se reinventar. Ora, se já não há mais uma classe operária no Brasil, subitamente esta nação esmagada por mais de 500 transformou-se em um país de classe média, a solução seria abandonar essa história de luta de classes e irmos todos pro lado da burguesia golpista.

Finalmente, em meio à uma salada de dados que Pochman seleciona para montar a sua análise, a conclusão é a de que agora, a direita teria mais facilidade para dialogar com o povo do que a esquerda. Não se sabe exatamente de onde ele tirou esta ideia, por que os atos convocados por Bolsonaro e pela extrema-direita, além de terem sido um fracasso total de público, não tinham ali nada de povo: só se viu ali a burguesia e um pequeno setor da pequena-burguesia. Já os atos espontâneos contra Bolsonaro e em defesa de Lula ocorrem em todo o Brasil e são protagonizados por elementos de todas as classes sociais, destacadamente entre os mais pobres, como nós do PCO podemos constatar pessoalmente todos os domingos e quartas, em nossos mutirões.

Embora a tese de que não existe mais classe operária no Brasil seja falsa, ela não é nada nova, é uma campanha de décadas, que volta e meia é requentada pela grande imprensa capitalista. Na realidade, para acabar com esta tese, nem precisaríamos ter gastado tanto verbo e elaborado esta longa matéria. Bastaria levar o cidadão incrédulo para uma obra e apresentar para ele, em primeira mão, a classe operária. A classe operária brasileira é a maioria esmagadora da população, e quando entra em movimento, deixa a burguesia de joelhos.