Explosão social
Moradores dos bairros populares da França sofrem com o confinamento e começam a se rebelar
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Protesters wearing yellow vests, a symbol of a French drivers' protest against higher diesel taxes, stand near a burning car during clashes near the Place de l'Etoile in Paris, France, December 1, 2018. REUTERS/Stephane Mahe
Coletes amarelos em Janeiro de 2019. Foto: Patrice Calatayu. |

Neste século, as desigualdades sociais, decorrentes do aprofundamento da crise capitalista, atingiram níveis altíssimos. A burguesia, que não suporta mais manter o estado de bem-estar social do pós-guerra, já que sua margem de manobra hoje é baixíssima, desfere ataques cada vez mais destrutivos contra as condições de vida dos trabalhadores no mundo todo, e nos países imperialistas inclusive. Um dos países ricos que mais tem chamado a atenção é a França, já que os protestos dos trabalhadores e demais setores oprimidos assumem muitas vezes proporção de rebelião na segunda economia européia.

Foi assim em 2005, quando o subúrbio de Saint-Denis foi o estopim dos protestos violentos que acabaram se espalhando pela França. A insatisfação era com o alto desemprego e a brutalidade policial.

Desde outubro de 2018, e por vários meses, o chamado movimento dos “coletes amarelos” tomou conta das ruas francesas. Começou como um movimento contrário à deterioração das condições de vida da população francesa e foi gradativamente se tornando um movimento que colocou em xeque o governo do presidente Macron, que teve que recuar em algumas medidas impopulares.

Agora, no meio da maior crise da história do capitalismo – a queda do PIB francês nestes primeiros três meses de 2020 foi de 6%, o pior desempenho trimestral desde 1945 – os subúrbios parisienses começam novamente a ser palco de protestos. Os motivos continuam sendo o desemprego, a brutalidade policial, assim como a miséria crescente, agravada pelo confinamento decretado pelo governo Macron para tentar conter a pandemia da Covid-19 em solo francês.

A prisão de um motociclista, que foi ferido na ação policial no último sábado (18/04), provocou confrontos entre jovens e policiais. Imagens de vídeo divulgadas na internet mostram o motoqueiro de 30 anos no chão, gravemente ferido, após um acidente. Ainda não foram divulgadas oficialmente as circunstâncias do que ocorreu, mas a população dos subúrbios de Paris, acostumada a sofrer constantemente com a violência policial, já tirou suas próprias conclusões.

A tensão se espalhou por várias cidades do noroeste de Paris, e na noite dessa segunda-feira (20/04) várias lixeiras foram incendiadas. Os jovens lançaram objetos e rojões contra os policiais. Não foi relatado se houve feridos, mas 10 pessoas foram detidas.

A situação está ficando cada vez mais tensa, a ponto de nesta terça-feira (21/04) o prefeito de Clichy-sous-Bois, Olivier Klein, ter dito que a quarentena transformou a cidade em um barril de pólvora e que uma única faísca poderia fazer tudo explodir. Ele disse que a crise sanitária do coronavírus ampliou as desigualdades sociais e as dificuldades das famílias carentes.

Outro alerta veio da deputada de esquerda Clémentine Autain, assinalando que muitos moradores dessas áreas não possuem reservas financeiras para enfrentar essa crise. “As filas para procurar comida estão ficando mais longas”, disse ela.

“É mais difícil viver em quarentena em bairros populares e áreas rurais isoladas devido à falta de serviços públicos”, observa Madjid Messaoudène, vereadora de esquerda de Saint-Denis.

“As pessoas que moram em um apartamento pequeno, sem varanda ou terraço, não têm escolha a não ser sair. É impossível suportar essas condições por várias semanas. É por isso que vemos meninos que ficam do lado de fora de seus prédios”, afirma Messaoudène em entrevista à Rádio França Internacional (RFI).

Essa quarentena ainda prevê multas e chegou a ter toque de recolher em Nice, no sul da França.

“Desde o início da quarentena, houve pelo menos sete queixas de casos de violência policial na França. Em Saint-Denis, tivemos casos de migrantes dormindo em tendas e que foram multados. Não é normal”, denunciou a vereadora.

Agentes do estado multando moradores de rua que vivem em tendas! No capitalismo isso é normal sim.

Nas últimas semanas, vários vídeos denunciando a violência policial para impor o confinamento se espalharam pelas redes sociais. Imagens filmadas em 18 de março mostram um policial chutando violentamente um homem na rua durante um controle em Asnières-sur-Seine (norte de Paris). Em outro vídeo que causou indignação, dois policiais humilham e derrubam dois jovens. E em Les Ulis, um jovem entregador da Amazon, Sofiane, foi preso por agentes que o acusaram de violar a quarentena. O jovem entrou com uma ação contra a polícia.

Em entrevista concedida à BBC News Mundo e publicada em 13/04, o sociólogo e professor da Universidade Paris 8, Hamza Esmili, ressalta que o confinamento é um luxo que não chega às classes mais pobres.

“Acredito que obviamente o confinamento é necessário para frear a pandemia atual. Mas, como sociólogo, vejo que a ideia de confinamento tem um certo número de pressupostos e não corresponde à realidade. Especialmente, não corresponde à realidade da população nos bairros mais pobres. O confinamento é um conceito burguês. A ideia é que todos tenhamos uma casa separada, um pouco burguesa, na qual possamos nos refugiar quando há uma pandemia ou um desastre natural. Mas nos bairros pobres não vejo nada disso. Existe uma realidade rodeada de condições insalubres, mas não é só isso. Nesse tipo de bairro, há casas em que vivem quatro, cinco pessoas por cômodo, por exemplo. Há também moradias que não são habitáveis, onde não é possível ficar ali o dia inteiro porque o espaço não serve para isso. O problema do confinamento é que ele se baseia numa espécie de mentira, de que estamos todos confinados. Mas em bairros mais pobres, como Saint-Denis, muita gente continua trabalhando, já que algumas fábricas continuam abertas, alguns mercados continuam abertos. “, diz Esmili.

A situação dramática que vemos nos bairros populares e subúrbios da França é brincadeira se compararmos com o que já está ocorrendo nas periferias e favelas brasileiras. Aqui temos também o alto índice de trabalhadores informais, o que faz com que a miséria decorrente de um confinamento que não considera as condições de vida da população seja instantânea. Da noite pro dia pessoas sem reserva alguma perdem toda a renda.

A explosão social é um risco crescente, tanto nos países pobres como nos mais ricos. Se governos de países com muito mais recursos, que é o caso da França, não conseguem – e não querem – manter um mínimo de condições de sobrevivência para a população de forma que as pessoas não caiam no desespero, o que pensar de países como o Brasil, que tradicionalmente mantém a maioria da população vivendo na pobreza e na miséria?

 

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