Um campanha reacionária
Os editoriais dos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e a coluna de Merval Pereira, do O Globo, exaltaram os manifestos de “unidade suprapartidária”
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imprensa burguesa | Foto: Arquivo/DCO

No dia 2 de junho de 2020, aconteceu uma “coincidência” formidável de opinião entre os três principais jornais do país. Os editoriais dos jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e a coluna de Merval Pereira, no O Globo ressaltaram e exaltaram os manifestos e campanhas de “unidade suprapartidária” entre a esquerda e a direita.

O posicionamento dos jornais indica evidentemente não uma mera coincidência, mas uma recomendação dos porta vozes autorizados da burguesia para uma determinada política.

 

O Estadão:  “superar as diferenças” contra as “trevas”

 

No editorial intitulado Algo se move, o Estadão adverte que o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez participou e liderou “Uma manifestação golpista em Brasília”, pregando o fechamento das instituições democráticas dos outros dois poderes, o Congresso Nacional e o STF.

O presidente Jair Bolsonaro voltou a participar de uma manifestação golpista em Brasília. Como um general diante de sua tropa, chegou a montar em um cavalo para saudar os camisas pardas travestidos de patriotas que o festejavam e, como sempre, empunhavam faixas em que defendiam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Na noite anterior, o punhado de golpistas armados que acampam na capital federal em apoio ao presidente fez um protesto diante do Supremo, com direito a tochas que remetiam à estética nazi-fascista.”(O Estado de S. Paulo,2/6/20)

Até Aí nenhuma novidade, as manifestações domingueiras de Bolsonaro e seus seguidores já se transformaram em rotina nos últimos meses. O que seria novidade no último fim de semana, foi a manifestação pela democracia organizada pelas torcidas organizadas e sobretudo na opinião do Estadão “os diversos manifestos em defesa dos valores democráticos e republicanos”, o que indica a saída da “inercia”, e, portanto, “algo aparentemente se moveu na sociedade”

alguns grupos foram para as ruas protestar contra o presidente e foram publicados diversos manifestos em defesa dos valores democráticos e republicanos. O mais notável, em todos os casos, foi o caráter suprapartidário de várias dessas manifestações.”( idem)

Dessa forma, o Estadão procura de maneira indevida igualar os protestos de rua com os manifestos insonsos da frente ampla, uma clara tentativa de subordinar as ruas às lideranças burguesas organizadoras dos manifestos. No restante do editorial e em outras matérias no jornal é realizada uma ostensiva campanha pelo conteúdo dos manifestos. Na conclusão do editorial “Algo se move” é enfatizado que é preciso “superar momentaneamente as diferenças políticas” e é citado o manifesto Estamos juntos como orientação fundamental para evitar as “trevas”.

Outro passo fundamental é superar momentaneamente as diferenças políticas em favor da preservação da democracia ante a ameaça real representada pelo bolsonarismo. A luta pelo poder deve agora ficar reservada para o período eleitoral. Ante o múltiplo desastre que o Brasil enfrenta – a pandemia de covid-19 e um presidente incapaz de governar e tomado de devaneios liberticidas –, é preciso, como diz o manifesto Estamos Juntos, que os líderes políticos “deixem de lado projetos individuais de poder em favor de um projeto comum de País”. Que assim seja – do contrário, será a treva.” (idem)

 

Folha de S. Paulo: A “onda” dos manifestos pró-democracia

 

Para o jornal Folha de S. Paulo a proliferação de manifestos “pró-democracia” revela que cresce no país o desejo para um movimento unitário entre a esquerda e a direita republicanas em oposição ao autoritarismo bolsonarista. No editorial “Com novas adesões, manifestos pró-democracia puxam ‘onda’ e veem espaço para crescer” (2/6), a Folha também faz uma enfática propaganda dos manifestos que segundo o jornal representam a “onda democrática” que tende a ocupar o espaço político  na esteira do crescimento da rejeição ao governo Bolsonaro.

Os expoentes da nova leva são o Movimento Estamos Juntos —que foi lançado no sábado (30) e alcançou nesta segunda a marca de 224 mil assinaturas—, a campanha Somos 70% —criada a partir da iniciativa anterior e viralizada nas redes sociais— e o Basta! —que agrega advogados e juristas.” (Folha de S. Paulo,2/6/20)

Enquanto o governo desenvolve uma acentuada tendência ao extremismo, a Folha afirma que a  “ sociedade” constrói um movimento mais “ plural”, unificando políticos e personalidades de diferentes “matrizes políticas”. Um  movimento “amplo” que tende a se expandir na mesma velocidade que Bolsonaro aumenta o seu isolamento, inclusive com defecções dentro do governo, como foram as saídas dos ministros Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro.

Assim, a “conclamação” da seção paulista da OAB para que a sociedade diga “um veemente não às ameaças de quebra da ordem democrática” seria uma indicação que a frente ampla contra as ameaças de Bolsonaro, expressa também nos manifestos e campanhas nas redes sociais, pode ser comparado ao movimento das Diretas Já.

Do mesmo modo que o “radical” Boulos, a Folha procura construir uma analogia histórica para estimular a subordinação das organizações dos trabalhadores e os partidos da esquerda a burguesia. Como afirmou Marx no 18 de Brumário de Luis Bonaparte, primeiro como tragédia e depois como farsa.

A comparação ao movimento das Diretas Já não visa impulsionar um movimento democrático, mas tão somente reabilitar setores burgueses que deram o golpe contra a democracia. Por sinal, o pacto semidemocrático da constituição de 1988, foi resultante da apropriação das manifestações populares contra a ditadura militar pela oposição burguesa que estabeleceu a Nova República. Sendo que o mínimo democrático estabelecido no regime da Nova República, ou seja o respeito ao resultado eleitoral, foi quebrado pelos golpistas em 2016, que hoje se apresentam como “ democratas” nos manifestos.

Com uma clara aprovação, a folha cita a lista dos assinaturas dos manifestos “ pró-democracia”. Revelando que a união entre os bolsonaristas arrependidos como Lobão e “ críticos” de Bolsonaro como Caetano Veloso é o caminho para a concórdia na frente ampla.

A lista inicial de apoios tinha, por exemplo, os músicos Lobão (um bolsonarista arrependido) e Caetano Veloso (que sempre criticou o presidente e declarou voto no petista Fernando Haddad no segundo turno de 2018). De nomes conhecidos, foi registrada a adesão do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que saiu do cargo após ser fritado por Bolsonaro já em meio à pandemia do novo coronavírus. Os ex-presidentes do Banco Central Arminio Fraga e Pérsio Arida foram outros que aderiram.“ (Folha de S. Paulo, 2/5)

Demostrando contrariedade a Folha critica a crítica do ex-presidente Lula aos manifestos em questão.

Também nesta segunda, o ex-presidente Lula fez críticas às iniciativas durante reunião do PT. Ele afirmou que leu os textos do Estamos Juntos e do Basta! e encontrou “pouca coisa de interesse da classe trabalhadora. O petista recomendou aos pares que tenham cautela ao aderir aos manifestos para evitar, na ótica dele, reforçar iniciativas originadas na elite que têm como objetivo anular o papel do PT.Lula se disse incomodado com a presença, nas listas, de nomes de pessoas que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e que, na visão dele, abriram caminho para a eleição de Bolsonaro.”

Não há dúvida que as críticas de Lula não somente são pertinentes como serviram para desmascarar que os manifestos que trazem assinaturas de políticos que apoiaram o golpe de Estado de 2006, alguns deles defenderam a prisão do ex-presidente Lula, e não trazem uma única reivindicação dos trabalhadores não devem ser apoiados por quem é de esquerda.

 

O Globo: todos “juntos” pela “ democracia” e  cuidado com as torcidas “violentas”

 

A coluna do jornalista Merval Pereira no jornal O Globo, do dia 2 de junho, intitulada “A sociedade se movimenta” traz também uma defesa da frente ampla entre “esquerda” e “ direita”, e com título muito parecido com o editorial do Estadão salienta os sinais que a situação política está evoluindo e que a “ sociedade” está se movimentando.

Surgiram neste final de semana os primeiros sinais de que a sociedade civil, mesmo que ainda desorganizada devido à pandemia, se movimenta para tentar barrar as investidas autoritárias do presidente Bolsonaro e seus seguidores. Provavelmente, a persistência dos bolsonaristas nos ataques às instituições que são a base da democracia, Legislativo, Judiciário e imprensa profissional, levou a esse levante quase simultâneo que produziu manifestos de juristas, intelectuais, personalidades de diversos setores, juízes, promotores, procuradores, todos preocupados em defender a democracia.” (Merval Pereira, O Globo, 2/6)

No texto de Merval Pereira a tônica é ocultar que o “levante quase simultâneo que produziu manifestos” tem os políticos burgueses tradicionais como principais articuladores. A enumeração dos assinantes “juristas, intelectuais, personalidades de diversos setores, juízes, promotores, procuradores” procura fomentar a ideia de que é a “sociedade em movimento”.

Bem, assim como o Estadão, Merval está atento as alterações na conjuntura. A  proliferação de manifestos, abaixo-assinados nas redes sociais não é em si uma novidade.  O  que representa uma mudança é a realização de atos de rua populares como o promovido na avenida Paulista no último domingo(31/5).

Uma novidade dessa movimentação é que torcidas organizadas de times de futebol, como Corinthians, Palmeiras, Flamengo, e outros apareceram no Rio e São Paulo como forças políticas contrárias ao governo Bolsonaro, o que parece ser uma tendência, já cristalizada na Argentina, por exemplo, onde os “barra bravas” são uma forca de apoio ao peronismo de esquerda, alimentados sobretudo nos últimos anos do kirchnerismo.

Entretanto, ao contrário do editorial do Estadão, Merval não procura apresentar os manifestos da frente ampla e as manifestações de rua como sendo a expressão do mesmo movimento pela “ democracia”.

Essa mistura de torcidas organizadas com política é preocupante, diante da violência que caracteriza esse tipo de manifestação, especialmente na cultura da América Latina. Outra consequência é que vai ficar mais difícil para o presidente Bolsonaro frequentar estádios de futebol, como gosta de fazer.” ( Merval Pereira, idem)

Notem que o colunista do O Globo não é qualquer colunista do jornal, mas é o porta-voz oficial das organizações Globo, e portanto, de um setor importante da burguesia. A movimentação das torcidas contra Bolsonaro é assinalada como decorrência do fracasso do governo, mas deve ser visto com cuidado e mesmo com apreensão “Essa mistura de torcidas organizadas com política é preocupante, diante da violência que caracteriza esse tipo de manifestação”.

No restante do texto, Merval Pereira repete a exaltação dos manifestos como os outros editoriais

O manifesto do “Estamos Juntos”, que já tem mais de 200 mil assinaturas, é amplo, pretende unir “Esquerda, centro e direita” para defender “a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia”. O movimento “Basta!”, de juristas e advogados, coloca-se contra os ataques de Bolsonaro às instituições democráticas e acusa o presidente de já ter cometido crimes de responsabilidade (..) Mesmo que ainda representasse a maioria que o elegeu presidente da República, não tem o direito de não respeitar as minorias e negar-se ao diálogo, necessário na democracia. “#Somos 70 PorCento” é o nome de um desses movimentos, que define os que, na mais recente pesquisa DataFolha, consideram o governo Bolsonaro ruim, péssimo ou regular.”(idem)

 

Por que a imprensa golpista apoia a frente ampla?

 

Em tempos pregressos a hoje “democrática” imprensa capitalista apoiou entusiasticamente golpes de Estado no Brasil. Da mesma forma que conjuntamente o Estadão, a Folha e O Globo estão a exaltar os manifestos da frente ampla contra Bolsonaro em nome da “democracia”. Nunca é demais lembrar, que apoiaram não somente o golpe de Estado contra Dilma em 2016, pois seria dentro da “legalidade” e portanto “institucional”, como apoiaram o golpe de 1964 “ não legal” dos militares.

A propósito, a denominação Partido da Imprensa Golpista não é um simples insulto, mas uma caracterização reveladora do que são os grupos empresárias que monopolizam os meios de comunicação no Brasil. Tanto em 1964 quanto 2016, o PIG não apenas apoio o golpe, como teve papel ativo no golpe, sendo uma parte necessária na engrenagem golpista.

Pois bem, agora o PIG procura se desvencilhar do apoio dado ao golpe que derrubou Dilma, da campanha para a prisão de Lula e outros dirigentes do PT e do papel jogado para eleger Bolsonaro. Por isso a frente ampla é ao mesmo tempo uma operação de encobrimento, mas sobretudo de reciclagem dos políticos, personalidades, partidos e da própria imprensa que apoiou o desmonte da democracia.

Não se trata de “divulgação” ou “apoio discreto” aos manifestos da frente ampla, a política de frente ampla é impulsionada pela própria imprensa burguesa. Essas empresas de comunicação representam de diferentes maneiras, o conjunto de setores da política burguesa falidos, que entregaram o poder para a extrema direita, de característica fascista, que elegeram Bolsonaro.

Agora, os golpistas perceberam que a situação está cada vez mais complexa. Por isso, é preciso evitar a polarização a todo custo. Os manifestos pela frente ampla unindo “todos” é essa política. A tendência é que a situação fique cada vez mais explosiva. Assim como as assinaturas nos manifestos pela frente ampla revelam uma política de contenção da burguesia, os setores populares que estava na Avenida Paulista, evidencia o ingresso do Fora Bolsonaro na periferia.

A posição da burguesia sobre a frente ampla, e o apoio da imprensa capitalista aos manifestos indicam o medo pela perda do controle. A esquerda e as organizações dos trabalhadores devem tomar os editoriais dos jornais capitalistas como a comprovação de que a frente ampla é uma política contraria aos interesses populares. Um verdadeiro Cavalo de Troia da direita “civilizada”, a mesma direita  que derrubou Dilma, prendeu Lula e elegeu Bolsonaro.

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