Crise no bloco golpista
Ao defender os interesses de sua reeleição, Bolsonaro acabou se chocando com os interesses mais diretos da burguesia e da direita, o que abre uma crise dentro do bloco golpista
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Castello Branco, à esq., tirado por Bolsonaro (centro) para dar lugar ao gal. Silva e Luna (à dir.) | Fernando Brazão/Agencia Brasil - Anderson Riedel/PR - Antonio Cruz/Agência Brasil
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Castello Branco, à esq., tirado por Bolsonaro (centro) para dar lugar ao gal. Silva e Luna (à dir.) | Fernando Brazão/Agencia Brasil - Anderson Riedel/PR - Antonio Cruz/Agência Brasil

O anúncio da troca da presidência da Petrobras, de Castello Branco para o general Silva e Luna, feito pelo presidente golpista Jair Bolsonaro na última sexta-feira (19), provocou pânico no mercado financeiro, com as ações da empresa tendo queda de 8% e perda de R$ 28,2 bilhões em valor de mercado. Na imprensa burguesa, uma grande polêmica tomou forma na crítica a Bolsonaro, acusado de intervir na política de preços da empresa contra os interesses dos capitalistas. O fato é que o quarto aumento dos preços dos combustíveis em 2021 fez com que Bolsonaro, para evitar a greve dos caminhoneiros, que são parte de sua base social, entrasse em contradição com a política de preços da Petrobras inaugurada em 2016 com o governo golpista de Temer e seguida até então por seu governo.

A burguesia gostaria que Bolsonaro fizesse uma política de devastação total da economia e da maior estatal brasileira (a Petrobras), como ele fez até aqui. No entanto, a destruição das condições de vida da população, somada à continuidade dos aumentos dos combustíveis (o quarto apenas neste ano!) criou uma situação explosiva, em que a preparação da greve dos caminhoneiros voltou à ordem do dia. Temendo uma greve tal como a de 2018, onde os caminhoneiros pararam o País e quase derrubaram o governo Temer, Bolsonaro procurou um acordo com a categoria, prometendo que não haveriam novos aumentos.

Por isso, diante de um novo aumento anunciado, o presidente ilegítimo se viu na necessidade de intervir, sob o risco de perder ainda mais apoio de um setor importante. Bolsonaro está em plena corrida eleitoral para sua reeleição em 2022. Neste momento, brigar com os poucos setores populares que foram importantes na sua eleição em 2018, como os caminhoneiros, seria um suicídio político. Por isso, ele preferiu comprar briga com a direita tradicional, que representa os setores capitalistas estrangeiros, como os acionistas privados da Petrobras.

Desta forma, o programa neoliberal do golpe de Estado de 2016, que tem como objetivo destruir a economia nacional, vender todas as estatais, como a Petrobras etc, tornou-se contraditório com o interesse de Bolsonaro em ser candidato e se reeleger. Ou seja, o objetivo de se reeleger coloca o entreguista Bolsonaro em contradição com o entreguismo. Mas não é que Bolsonaro não seja entreguista.

Até o momento ele já privatizou sete subsidiárias de estatais, manobra que foi permitida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), dado que a Constituição obriga os governos a terem autorização do Congresso para privatizar as estatais inteiras. É daí que Bolsonaro tem levado adiante a política de fatiar para privatizar, vendendo subsidiárias da Caixa Econômica Federal, dos Correios, da Eletrobras etc. No caso da Petrobras, ele entregou a BR Distribuidora, a parte da Petrobras no Gasbol (Gasoduto Brasil Bolívia) e está vendendo as refinarias (como a RLAM na Bahia) a preço de banana.

A presidência de Roberto Castello Branco à frente da Petrobras, que fora indicado pelo ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, beneficiava os acionistas privados da Petrobras, foi desastrosa para a companhia em médio e longo prazos, como denuncia a Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Castello Branco foi responsável por vender ativos importantes para o negócio da Petrobras, como a BR Distribuidora, a Liquigás, campos de petróleo e gás natural, transportadoras de gás natural, como a TAG, termelétricas e usinas eólicas. O objetivo dessa gestão de Castello Branco era transformar a maior empresa do Brasil numa mera produtora e exportadora de petróleo, destruindo seu grande potencial, seu valor no longo prazo e seu papel como motor da economia nacional.

O mais recente desastre provocado pela política entreguista do governo Bolsonaro e da gestão Castello Branco foi a venda da Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na Bahia, a Segunda\ maior do País, para o Fundo Mubadala, de Abu Dhabi, anunciada no início do mês. A venda faz parte do programa de “desinvestimento” da empresa, um eufemismo para privatização ou entrega total, que faz com que a Petrobras abra mão da sua liderança no refino brasileiro sob o argumento de criação de uma concorrência, quando na verdade o que ocorrerá é a criação de um monopólio privado.

Outro detalhe é que essa operação renderá à Petrobras US$ 1,65 bilhão de dólares. No entanto, segundo cálculos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) a planta vale entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões de dólares! O dado foi confirmado pelo banco BTG, que também afirmou que a RLAM foi vendida por um preço pelo menos 35% menor do que valeria.

Neste sentido, o que está em jogo é que ao defender os interesses de sua reeleição, Bolsonaro acabou se chocando com os interesses mais diretos da burguesia e da direita tradicional, o que abre uma crise dentro do bloco golpista, e a oportunidade dos trabalhadores intervirem para barrar a ofensiva da burguesia contra as estatais, como a Petrobras.

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