Dinamarca
Em mais uma demonstração de total desorientação política, dano a monumento histórico é confundido com luta antirracista
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Monumento em homenagem à Pequena Sereia pichado | Foto: Niels Christian Vilmann

Na manhã desta sexta-feira (3), os dinamarqueses se depararam com uma pichação feita à estátua da “Pequena Sereia”, o monumento mais famoso de seu país. Na pichação, lia-se “racist fish”, que, em português, pode ser traduzido como “peixe fascista”.

Não há dúvidas de que o dano causado à estátua está diretamente relacionado com a discussão  feita nos últimos meses pela esquerda pequeno-burguesa e por setores anarquistas sobre a derrubada de monumentos públicos. Desde que uma estátua foi derrubada na Inglaterra, no mesmo momento em que atos radicais aconteciam nos Estados Unidos e na Europa, um setor da esquerda internacional tem tentado apresentar a derrubada de estátuas como um símbolo de combatividade.

Ao longo dos acontecimentos, debatemos extensivamente o problema da derrubada das estátuas. Explicamos, em diversas oportunidades, que essa seria uma política diversionista: afinal, o que tem levado o povo às ruas não é seu ódio contra uma personagem histórica que supostamente teria sido um senhor de escravos, mas sim o ódio contra os que querem, hoje, escravizar todos os povos. Isto é, a propaganda de que o povo deveria se concentrar em derrubar estátuas acabaria, por fim, levando à dispersão das mobilizações, uma vez que estaria confundindo o povo sobre os reais motivos que levaram os trabalhadores à revolta.

Na medida em que a luta política foi se desenvolvendo, a campanha em defesa da derrubada de estátuas foi ficando cada vez mais bizarra. A bizarrice, na verdade, é o destino de todas as políticas erradas: na medida em que se insiste em uma política sem fundamento, os fatos vão empurrando seus defensores para posições cada vez mais irreais e, portanto, ridículas.

O motivo que serviu para engatilhar as manifestações nos Estados Unidos foi o assassinato de George Floyd por um policial. Embora a explosão tenha se dado pela crise social no coração do imperialismo, é fato que o racismo tenha contribuído de maneira significativa para que acontecessem os protestos. Os protestos que levaram à derrubada da estátua de Edward Colston, na Inglaterra, também se baseavam, em grande medida, na desigualdade racial. E, como Colston seria um traficante de escravos, seria aceitável que houvesse uma confusão entre a derrubada de monumentos e o caráter combativo das manifestações.

Passado esse momento, o vínculo entre a mobilização revolucionária do povo e as estátuas foi ficando cada vez mais distante. No Brasil, alguns setores da esquerda começaram a defender que a estátua de Pedro Álvares Cabral fosse derrubada! O motivo seria uma suposta contribuição de Cabral para o genocídio dos povos indígenas… Já não havia, portanto, nenhuma relação com o povo negro em si, e a própria relação com o genocídio dos índios era absurda, uma vez que o conquistador não teve nada a ver com o massacre dos índios em si. Ele entrou para a história porque conquistou o território que hoje é o Brasil, quem fez sua estátua não estava pensando em homenagear um assassino de índios.

Seguindo uma linha bastante semelhante, o Partido Socialista da Islândia (Sósíalistaflokk Íslands) lançou uma campanha pela derrubada do monumento em homenagem a Ingólfr Arnarson, fundador do país nórdico. Embora a campanha tenha sido apoiada pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), o fato é que o país nunca teve escravidão negra.

Ao que parece, chegamos agora, com o caso dinamarquês, ao ápice da bizarrice no que diz respeito à campanha contra os monumentos. A estátua, afinal de contas, retrata apenas uma personagem fictícia da obra de Hans Christian Andersen. Trata-se tão somente de uma homenagem à produção cultural do País, e não um monumento em defesa da escravidão. Assim como a Islândia, a Dinamarca não foi erguida por escravos negros.

A versão extremamente bizarra da política de destruição de monumentos revela, no fim das contas, a total inocuidade dese tipo de política. Uma política que, além de inócua, começa a apresentar uma face bastante perigosa. Caso essa política seja impulsionada pela burguesia, poderá se voltar fatalmente contra os negros e contra toda a esquerda.

A única coisa em comum entre as estátuas da Pequena Sereia, de Pedro Álvares Cabral e de Ingólfr Arnarson é o interesse de um setor minoritário da esquerda em destruir a cultura nacional. Tal política em nada contribui para que um povo se liberta de seus opressores — pelo contrário, dificulta qualquer tipo de identidade nacional e facilita que um inimigo externo lhe domine.

O caso da Pequena Sereia chama particularmente a atenção porque, ao longo de sua história, já foi alvo de vários atentados, nenhum dos quais suficientemente justificados. Em um deles, um grupo feminista arrancou-lhe a cabeça, alegando que queria que o símbolo da mulher idealizada dinamarquesa fosse uma mulher sem cabeça. Em outro, grupos danificaram a estátua em protesto contra os caçadores de baleias. Como se vê, uma política bárbara e irracional, que não pode guiar os trabalhadores a sua libertação.

Se os que são contra os caçadores de baleia podem danificar uma estátua que acham que está relacionada com a caça de baleias, se um grupo feminista pode danificar um monumento porque não representa a imagem de uma mulher ideal, então um grupo de “veganos” poderia invadir e tocar fogo em uma churrascaria porque acredita que os seres que não consomem carne são superiores. Trata-se, portanto, de uma cópia aberrante do que fez a Igreja católica na Idade Média e o nazismo na Alemanha.

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