Peça “Retratos de Chumbo” desmascara o “patriotismo” da direita
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Peça “Retratos de Chumbo” desmascara o “patriotismo” da direita
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A peça de teatro “Retratos de Chumbo”, dirigida pelo pernambucano Oséas Borba Neto, acaba de fazer seu primeiro ciclo de apresentações. A peça estreou no dia 9 de agosto, no Teatro Hermilo Borba Filho, e esteve em cartaz nos dias 10, 16 e 17. Produzido pelo Grupo de Teatro João Teimoso, o espetáculo conta com as atrizes Chell Morim, Ysa Muniz e Laís Alves, a iluminadora Karine Lima e o sonoplasta Fagner Valença.

O tema central da peça são as atrocidades da ditadura militar de 1964-1985, particularmente as que foram cometidas contra as mulheres. Estreada alguns dias depois do ataque de Jair Bolsonaro à memória do militante pernambucano Fernando Santa Cruz, torturado e assassinado pela ditadura, “Retratos de Chumbo” mostra o terror que a extrema-direita pretende implementar caso não encontre uma reação popular à altura.

Ao iniciar a peça, a plateia se depara com um telão exibindo imagens de Jair Bolsonaro em seus discursos mais escandalosos contra a esquerda e a população em geral. Bolsonaro fala que “voto não muda nada” – sugerindo um golpe militar -, que é necessário “matar 30 mil” e dedica seu voto de impeachment ao torturador Carlos Brilhante Ustra. A mensagem dada por Oséas Borba Neto é clara: a peça não trata apenas do passado, mas sim do presente, de um regime que não foi completamente destruído e cujos pilares permanecem de pé.

Tão logo acabam as falas de Bolsonaro, entram em cena as três atrizes da peça. Não há, no espetáculo, personagens definidos: cena após cena, as atrizes representam mulheres, cujos nomes não nos são revelados, sendo atormentadas das maneiras mais cruéis possíveis. Falando uma após a outra, as atrizes disparam frases marcantes que resumem a farsa que foi a ditadura: “angústia e incerteza”, “uma mentira cuspida como verdades verde e amarelas”, “sons dos cascos dos cavalos”…

Os momentos de maior destaque da peça ocorrem no fundo do palco, do lado esquerdo. Repetidamente, entre uma cena e outra, a iluminação de Karine Lima leva os olhos do público para uma cadeira de madeira vestida com uma bandeira do Brasil. Ao redor dela, em diversas posições que retratam formas de tortura, as três atrizes, nuas, uma por cena, agonizam como se estivessem em um interrogatório da ditadura.

No texto da peça, Oséas Borba Neto não se exime de denunciar que a ditadura militar era uma ditadura dos patrões. Durante a peça, uma personagem interpretada pela atriz Laís Alves desabafa: “pobres cristãos, liderados pelo capital externo”. Em outro momento, Ysa Muniz, ao interpretar uma personagem cujos pais eram perseguidos por causa da atividade política, diz: “lutar pelo bem dos outros irritava os patrões”.

Choques, queimaduras, fuzilamentos, “ciranda”, pau de arara e tantos outros métodos de tortura são citados pelas atrizes. A peça lembra ainda que nenhum torturador foi punido – muitos foram, na verdade, condecorados. Em um de seus melhores momentos durante o espetáculo, Chell Moriim dá voz a uma personagem que diz que não consegue mais se relacionar com homens que a tratam como uma “coitadinha”:

Meus relacionamentos são novas torturas – e o pior: eu os escolho! É como se eu tivesse me punido por ter sobrevivido…

Embora denuncie as atrocidades da ditadura, Oséas Borba Neto insere em seu texto, por diversas vezes, uma lema: “se fosse necessário, faria tudo novamente”. As personagens, embora abatidas diante da tortura, não entregam seus companheiros: se mostram dispostas a continuar a luta contra seus algozes, descritos como pessoas que tinham “orgasmos múltiplos de crueldade”.

A peça encerra com a cadeira envolta pela bandeira do Brasil sendo trazida para frente do palco, escancarando que o “patriotismo” é uma farsa da extrema-direita. A direita odeia futebol, carnaval, o povo brasileiro e suas riquezas: são capachos do imperialismo norte-americano.

É necessário utilizar as denúncias feitas pela peça como um instrumento para a mobilização contra a direita. A ditadura não foi derrotada por uma posição passiva dos trabalhadores ou por acordos com a burguesia, mas sim pela crescente mobilização da classe operária. Por isso, é preciso, neste momento em que a burguesia procura organizar uma ofensiva contra os trabalhadores, com características muito semelhantes à ditadura militar, travar uma luta implacável contra toda a escória que quer saquear o país. Fora Bolsonaro e todos os golpistas! Liberdade para Lula!

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Fotos: Pedro Portugal