“Parem de falar de futebol!”: o mantra da esquerda despolitizada

O caso Neymar tomou conta do noticiário e, com ele, muitas polêmicas. Uma dessas polêmicas costuma vir à tona durante a Copa do Mundo ou sempre que uma notícia relacionada ao futebol toma as capas dos jornais: “o futebol não é de interesse dos trabalhadores” ou “o futebol é o ópio do povo”.

No momento político que estamos vivendo, de golpe e governo dominado pela extrema-direita, tal ideia se apresenta também da seguinte maneira: “vamos esquecer o Neymar e falar da greve geral”, ou ainda “o caso Neymar está sendo usado para tirar as atenções da luta contra o governo”. Sobre isto, vamos apenas dizer que uma imprensa operária deve falar de todos os assuntos, pressupondo, é lógico, que não se deve substituir um pelo outro, que se deve estabelecer o que é prioritário e mais importante, procurar as relações existentes entre os diferentes assuntos. Ou seja, ao mesmo tempo que se faz agitação política pela greve geral, contra Bolsonaro e o golpe, também se deve abordar questões relativas a outros temas pois eles também dizem respeito aos trabalhadores.

Todas essas ideias, além de revelar uma incrível confusão política por parte de setores da esquerda, mostram também o completo descolamento desta esquerda em relação ao povo. Segundo seus defensores, deveríamos simplesmente ignorar o que o povo está debatendo e falar apenas sobre aquilo que seria determinado por não se sabe quem como sendo de interesse político do trabalhador.

Em primeiro lugar, para um partido verdadeiramente operário, todas as questões relativas ao povo são de seu interesse. Se a classe operária discute futebol, é preciso procurar intervir com uma política independente sobre o futebol. E isso vale para todos os outros assuntos da vida política, social e cultural.

Mas o futebol está muito longe de ser um tema supérfluo. Não só por movimentar grandes massas de trabalhadores, mas também por ser parte integrante da própria cultura do País.

Uma posição abstencionista no futebol não seria nada mais do que deixar que a burguesia dominasse, sem oposição, todos os aspectos do problema. Para a burguesia, que tem altos interesses econômicos, o futebol não apenas é uma fonte de lucros mas é também um instrumento político. E é assim justamente pelo que ele representa para as massas, caso contrário, sua importância política seria reduzida. Para entender melhor essa ideia, basta comparar o futebol com um esporte menos popular e veremos que a luta política que se dá ali é de muito menor intensidade, pelo menos em sua relação com a política geral.

Portanto, é obrigação de uma esquerda verdadeiramente operária intervir nas discussões relativas ao futebol. Opondo a ideologia burguesa, que procura orientar o esporte de acordo com seus interesses, a uma concepção realmente operária, independente, que defenda no futebol os interesses da maioria do povo. Apenas para dar um exemplo, é preciso contrapor ao controle dos cartolas e empresários sobre os clubes e a CBF uma política que defenda que os torcedores organizados controlem os clubes. Ou seja, que o futebol seja controlado pelo povo. Nas arquibancadas de todo o País tem surgido o fenômeno das torcidas antifascistas e de esquerda, mostrando a necessidade de se travar uma luta política entre as massas de torcedores.

Mas não é apenas desse ponto de vista que o futebol tem importância. Discutir o futebol é tão importante quanto debater um tema de cultura, por exemplo. Debater um determinado movimento artístico pode não ter relevância direta com a situação política mas é de suma importância. Todos os temas que dizem respeito à humanidade são importantes e todos eles dizem respeito ao desenvolvimento cultural e político da classe operária. Por isso, os marxistas nunca deixaram de discutir as artes, a cultura, a religião e os esportes.

A ideia de que o futebol não é de interesse para os trabalhadores só pode vir de uma classe média que tem certo desprezo pela classe operária e assim se acha superior a ela. A pequena-burguesia de direita, se achando superior ao povo, saiu à rua servindo como massa de manobra para o golpe de Estado. A classe média coxinha, então, provou sua imensa despolitização diante do povo. Ao defender que o futebol não seria uma discussão de interesse político geral, a classe média de esquerda, se achando superior ao povo, acaba revelando também sua imensa despolitização diante da maioria da população.

Por fim, justamente pelos seus interesses econômicos, o futebol é palco de uma verdadeira guerra entre classes sociais e entre o imperialismo e os países atrasados. Os europeus imperialistas, donos dos maiores monopólios do esporte junto com os norte-americanos, têm no futebol sul-americano – o brasileiro em primeiríssimo lugar – como uma fonte de lucros exorbitantes. Esses monopólios, através dos grandes clubes europeus, invadem o País atrás de jovens craques. Pagam muito barato por esses jovens para que joguem na Europa e depois se transformem em jogadores que valem milhões.

Para que essa operação, que na realidade é um roubo do País assim como é o roubo do nosso petróleo, seja bem sucedida, os Europeus precisam boicotar o futebol brasileiro – e sul-americano – de maneira a desvalorizar cada vez mais o produto que querem levar: os jogadores. Fazem isso através de uma poderosa propaganda de que o futebol brasileiro não é “assim tão bom quanto dizem”, que os craques brasileiros – como é o caso de Neymar e como ja foi feito com craques anteriores incluindo Pelé – não são tão bons assim, ou seja, uma propaganda ideológica que tem como objetivo convencer o brasileiro a entregar seu patrimônio. Este é outro aspecto político, talvez o mais importante no momento, que está relacionado ao futebol: a luta dos monopólios imperialistas pelo domínio do esporte, domínio cultural e econômico.

Os despolitizados, cegos ou cínicos dizem que tudo isso não passa de “teoria da conspiração”, como se nada no mundo fosse tramado pelos poderosos entre quatro paredes. Mas deixemos essa discussão sobre o imperialismo e o futebol brasileiro como assunto para outra coluna.