Um crime contra a história
Capitão do mato do governo Bolsonaro quer apagar o histórico de luta do povo negro
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Princesa Isabel do Brasil. Foto: Acervo FBN |

Se cumprir as promessas feitas em suas páginas nas redes sociais, o atual presidente da Fundação Palmares, o fascista Sérgio Camargo, irá realizar hoje (13) o maior atentado do governo Bolsonaro contra a memória do povo negro. Como é sabido, o dia 13 de maio consta nos anais da história como a data em que a escravidão foi legalmente abolida no Brasil, marcando o desfecho de séculos de uma das mais duras lutas que o continente americano já testemunhou.

O ato oficial que pôs fim à escravidão foi a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel do Brasil, que se tornara regente diante da ausência de seu pai. Naquela época, o então imperador Dom Pedro II, pai da princesa, estava em viagem pela Europa, sob recomendação médica. Isabel, no entanto, nunca chegou a ser rainha do Brasil de fato, pois a monarquia acabou sendo derrubada no ano seguinte. Em 15 de novembro de 1889, sob a liderança do Marechal Deodoro da Fonseca, o Exército brasileiro proclamou a República brasileira, jogando na lata do lixo da história a Dinastia de Orleans-Bragança.

A lata do lixo da história, contudo, está prestes a ser esvaziada e jogada na cabeça da sociedade. De acordo com mensagens publicadas no dia 12 de maio em seu perfil no Twitter, Sérgio Camargo irá homenagear a princesa Isabel no dia da abolição da escravidão. A Fundação Palmares, no entanto, não foi criada para que capitães do mato como Sérgio Camargo, contratados pela burguesia para perseguir o próprio povo do qual faz parte, reviva uma princesa branca, símbolo de uma monarquia decadente que tratava os negros como animais. Segundo a Lei Federal nº 7.668, de 22 de agosto de 1988, que instituiu o órgão, o objetivo da fundação seria o de “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”.

Promover a imagem da princesa Isabel não tem nada a ver com promover os valores da influência negra — trata-se, na verdade, de um esforço histórico das classes dominantes de apagar o histórico de luta do povo negro. Em um primeiro momento, a própria monarquia fez uso dessa campanha, segundo a qual a princesa Isabel seria “a redentora”, uma heroína que teria libertado os escravos. Mais tarde, a própria burguesia iria adotar essa versão para falsificar a história.

Em 1804, o povo negro do Haiti havia conquistado sua independência após uma luta duríssima contra os franceses — uma verdadeira revolução, que obteve uma vitória definitiva. Não haveria motivo para que o povo negro, no Brasil, não apresentasse a mesma tendência de luta. Obviamente, houve luta. E muita. O século XIX inteiro foi marcado por inúmeras revoltas violentas dos escravos pela sua liberdade. Foi esse cenário que obrigou a monarquia a abrir mão da escravidão.

Nesse sentido, fica claro que a abolição não foi o resultado da bondade da princesa Isabel, nem mesmo de qualquer consideração em relação às condições desumanas às quais os negros eram submetidos, mas sim de muita luta do povo negro. Essa situação fez com que, de um lado extremo, em reação à tentativa da burguesia de endeusar a monarquia, a esquerda pequeno-burguesa desenvolveu a tese de que a abolição não deveria ser comemorada. Em sua edição de número 589, o jornal Opinião Socialista, editado pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e publicado no dia 6 de março do ano corrente, é dito que essa “abolição não nos representa”. Essa tese seria ridícula, pois levaria à conclusão de que entre hoje, em que a escravidão não é permitida, e há 140 anos, quando a escravidão era legal, não há qualquer mudança.

A abolição é uma conquista do povo negro, sim. Não é uma concessão da princesa Isabel, tampouco um direito artificial. Deve ser entendida, portanto, como uma revolução frustrada. Isto é, como uma primeira experiência do povo negro em sua tentativa de tomar o poder. Uma história que deve servir de exemplo para que os negros, hoje, se insurjam contra a dominação da burguesia para acabar de vez com a exploração que teve início com seus antepassados.

O problema é que o registro desse histórico de lutas do povo negro foi, quase todo ele, queimado pelo próprio regime político. O esforço para negar a tradição combativa dos negros, a sua capacidade inesgotável de se rebelar para alcançar a sua liberdade, vem sendo sistematicamente alimentado pelas classes dominantes. E é justamente aí que reside o grande crime do presidente da Fundação Palmares. A tentativa de apagar a luta do povo negro da história e de desencavar a monarquia é uma iniciativa que só serve à burguesia, sobretudo seus setores mais abertamente racistas.

Essa não é a única tentativa de Sérgio Camargo de destruir a memória do povo negro. Segundo publicado em seu perfil no Twitter, o bolsonarista estaria tentando mudar o nome da própria fundação para André Rebouças. Com isso, Camargo procura tornar a fundação ainda mais despolitizada, amenizando a polarização política e o ódio à burguesia racista, uma vez que Palmares, que remete ao Quilombo dos Palmares, é um nome intimamente ligado à luta violenta e decidida do povo negro.

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