Maradona
Morenistas tentam substituir os sacerdotes medievais em uma nova cruzada em defesa da moralidade
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Diego Maradona | Foto: Reprodução
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Diego Maradona | Foto: Reprodução

Em artigo publicado no dia 28 de novembro, intitulado “O lado execrável de Maradona para o qual não se deve passar pano”, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) escancarou a confusão política do movimento identitário. O texto, assinado por Erika Andreassy, expõe uma longa ficha de supostos vícios de Diego Maradona, falecido na última semana, destacando que “o ex-jogador argentino tinha um histórico de machismo e violência contra mulheres que não pode ser minimizado”.

Partindo dessas considerações acerca da vida pessoal do ídolo argentino, o PSTU chega à seguinte conclusão:

“Ídolos como Maradona e tantos outros, tem responsabilidade muito maior por sua conduta, pois elas reverberam em toda a sociedade, para o bem e para o mal. Quando um artista famoso ou um astro do esporte se posiciona publicamente sobre determinada questão, sua voz serve de amplificador, o mesmo ocorre com o silêncio cúmplice que muitas vezes fala por si só. Mas seus atos não são menos importantes, assim como um punho cerrado num podium olímpico tem um simbolismo e significado que palavra nenhuma pode descrever, uma atitude machista ou um comportamento racista e/ou homofóbico também tem a mesma relevância”.

Segundo o PSTU, portanto, a esquerda deveria julgar a obra pela moralidade de seu autor. Ou seja, jogadores de futebol, artistas, escritores, poetas: todos aqueles que se dedicaram à produção cultural da humanidade deveriam ser julgados não do ponto de vista de sua contribuição, mas sim de um tribunal moral. Não importaria, neste sentido, a qualidade da obra de William Shakespeare ou de Machado de Assis, mas sim o que ambos fizeram em sua vida privada.

Esse tipo de concepção, por um lado, é absolutamente bárbara. Levaria a esquerda a descartar praticamente toda a cultura humana, a troco de tão somente “limpar” o mundo daquilo que consideraria moralmente aceitável. Sob esse critério, monumentos inteiros, composições e obras primas da literatura teriam de ser destruídas, de modo a “limpar” o mundo do legado de assassinos, adúlteros e ladrões. Por outro lado, essa concepção mostra que o movimento identitário, na medida em que procura subjugar a luta de classes às questões de raça e gênero, se transforma em um movimento de tipo religioso, reproduzindo a tradição medieval de atirar à fogueira tudo aquilo que não convinha à ordem vigente. A única diferença é que os “sacerdotes” da esquerda contam apenas com suas “fogueiras” na internet, e não fogueiras de verdade.

Esse tipo de política, além de remeter à Idade Média, também permite o desenvolvimento de uma ideologia de tipo fascista. Afinal, quem prega que obras devam ser banidas por considerações morais, prega também que a censura e a perseguição política é aceitável desde que baseadas na defesa da moralidade. E como a moralidade é uma convenção, pode-se justificar qualquer perseguição ou censura.

Se a política identitária de criticar um artista por sua vida privada já é, em si, extremamente reacionária, chamam ainda mais atenção os argumentos utilizados pelo PSTU. Em determinado momento do artigo, Erika Andreassy afirma que Diego Maradona não poderia cometer a “falha” de ser um “humano”:

“O machismo contra suas companheiras ou irresponsabilidade frente aos filhos por parte de um homem público como Diego Maradona não são apenas erros e práticas de um ser humano, elas têm consequências que extrapolam sua vontade. Minimizar esses comportamentos ou justificá-los sob a alegação de que não são tão importantes diante de tudo o que ele representou para o povo, é naturalizar a opressão e a violência contra as mulheres contra o qual tanto lutamos”.

Nem na seleção argentina, nem nos clubes em que jogou, Diego Maradona teve de assinar algum contrato em que se comprometia a extrapolar a sua humanidade. A crítica a Maradona, neste sentido, é completamente descabida: o papel de um jogador de futebol é jogar futebol. E, no caso de um jogador latino-americano como Maradona, defender o seu País através do seu futebol.

Ao mesmo tempo em que o PSTU critica Maradona por não ter um comportamento moral exemplar, também fecha os olhos para a podridão da política de Juan Guaidó, na Venezuela. A diferença, no entanto, é que Guaidó é um profissional da política, e Maradona não.

Por fim, chama ainda a atenção que, apesar de o PSTU, em seu esforço máximo para defender até as últimas consequências a política identitária, a agremiação morenista não consegue se desprender da propaganda imperialista em torno de Maradona. Há algumas semanas, o PSTU havia publicado um artigo sobre os 80 anos de nascimento de Pelé, em que dizia que o jogador brasileiro “deve ser contestado e criticado por suas incoerências, contradições, por sua posição de classe e por suas posições políticas. O ‘reinado’ de Pelé é marcado por manchas e falhas irreparáveis. É um rei sem legado fora do campo de futebol”.

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