Pandemia
Grupo ignora papel do governador de São Paulo e da direita golpista na crise sanitária e joga toda a culpa para o governo federal

Por: Redação do Diário Causa Operária

Em seu portal Esquerda Online, o grupo Resistência/PSOL, autodeclarado trotskista e dirigido por Valério Arcary, fundador do PSTU, publicou uma matéria intitulada “Mais de 260 mil mortos. De quem é a culpa?”, com o claro objetivo de responsabilizar o governo Bolsonaro pela crise sanitária no Brasil. Segundo seu autor, Marcelo Badaró Mattos, “é sobre Bolsonaro que recai o maior peso da responsabilidade pela tragédia, assim como a seu ministério” e seria necessário “avançar a mobilização das forças vivas e pulsantes da classe trabalhadora para derrotar Bolsonaro a partir da pressão popular”. Como podemos traduzir o discurso aparentemente antibolsonarista do Resistência/PSOL?

Em primeiro lugar, é preciso destacar que colocar Bolsonaro como o grande responsável pela pandemia não é uma exclusividade do Resistência/PSOL. Pelo contrário: faz parte de uma espécie de senso comum da esquerda pequeno-burguesa brasileira. No entanto, isso pouco tem a ver com a realidade. Embora Bolsonaro tenha contribuído, sim, para o genocídio durante a pandemia, estimulando a abertura do comércio, cortando investimentos na saúde e apoiando todo tipo de ideologia que procurava minimizar o problema da pandemia, o fato é que todos os governantes — em especial os governadores estaduais — estiveram diretamente envolvidos com a matança durante a pandemia.

O único momento em que aparece, no texto do Resistência/PSOL, alguma referência a esses governantes é no trecho abaixo:

“Com raríssimas exceções, governadores e prefeitos cederam às mais variadas pressões para adiar o inadiável e ainda agora se veem constrangidos pelo colapso generalizado dos sistemas de saúde a avançar medidas de contenção da circulação do vírus, mas vacilam e apresentam propostas tímidas, quando não falsas soluções, como os ‘toques de recolher’, que restringem a circulação nos horários em que ela já é naturalmente menor”.

Aos olhos de quem lê, haveria, portanto, uma diferença grande entre Bolsonaro e o conjunto da direita nacional. Enquanto Bolsonaro, sabe-se lá porque, seria um genocida que está obstinado em matar o próprio povo, os governadores seriam vítimas de suas fraquezas individuais e estariam cedendo à pressão dos capitalistas, mesmo que eles não quisessem aplicar essas medidas. Poder-se-ia até pensar, sob esse ponto de vista, que o verdadeiro culpado é o próprio povo, que não teria apoiado os governadores “científicos” na sua “luta” pela vida. Obviamente, é um absurdo sem tamanhos…

O que está por trás dessa política de dizer que Bolsonaro é o único responsável pela pandemia é, tanto no caso do Resistência/PSOL, como no conjunto da esquerda pequeno-burguesa, o apoio velado à direita golpista. Ora, se a esquerda se dedica a denunciar Bolsonaro como grande “mal” da pandemia, seria válido, então, apoiar a política da direita golpista.

E, de fato, é isso o que o Resistência/PSOL está fazendo. Em São Paulo, o grupo está apoiando abertamente a volta às aulas. Isto é, apoiando a política genocida do PSDB. Não só seus militantes estão atuando contra a greve na categoria dos professores, como um artigo recente de seu portal falava em “enfrentar o negacionismo na volta às aulas”. Ou seja, não seria necessário impedir a volta às aulas, mas sim fazê-la de maneira “não negacionista”.

Ao mesmo tempo em que apoia a volta às aulas, o Resistência/PSOL, que fala que Bolsonaro é o único grande responsável pela crise sanitária, não denuncia que os governadores — e, em especial, João Doria, que governa o maior estado do País — estão permitindo os transportes lotados e estão se recusando a vacinar o povo.

Essa omissão da responsabilidade da direita na pandemia não é por acaso. É a expressão de uma política mais ampla, que já existia antes da pandemia, mas que tomou maior proporção neste momento: a frente ampla. Isto é, o apoio explícito de um setor da esquerda nacional à direita golpista.

Neste sentido, a “mobilização” que o Resistência/PSOL fala, somos obrigados a dizer, é uma farsa. Para denunciar Bolsonaro e colocá-lo como único responsável, o grupo é bastante claro. Já para responsabilizar os governadores, o Resistência/PSOL omite os nomes. No caso da “mobilização”, é a mesma coisa. O grupo não explica que mobilização seria essa, qual o seu programa e contra quem. É porque, no final das contas, sua política não está centrada em uma mobilização, mas sim na política eleitoral de aliança com a direita golpista.

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