Para “não prejudicar homens”, universidade do Japão dificultava ingresso de mulheres na faculdade

Tetsuo Yukioka, Managing Director of Tokyo Medical University and Keisuke Miyazawa, Vice-President of Tokyo Medical University, bow as they attend a news conference in Tokyo

A partir de reportagens publicadas pela imprensa japonesa em 2018, foi descoberto um esquema montado em universidades do Japão para prejudicar o ingresso de mulheres nos cursos de medicina. Seria uma espécie de “cota ao contrário” para as mulheres. As mulheres candidatas teriam tido uma redução de cerca de 10% em sua nota para manter o ingresso majoritário de homens nos cursos de medicina.

A descoberta ocorrera em meio a investigações sobre a admissão irregular do filho de um burocrata do Ministério da Educação, em troca de financiamento para pesquisa. Em agosto de 2018, uma reportagem a partir de fontes não reveladas revelou que a Universidade Médica de Tóquio vinha manipulando os resultados dos exames de admissão desde 2011, como forma de manter a população feminina menor. Depois se descobriu que havia manipulação nos resultados desde 2006.

Uma agência internacional de notícias teve acesso aos registros de admissão da faculdade. Ela reportou que o percentual de mulheres que passavam no exame tinha aumentado de 24% em 2009 para 38% em 2010. A partir de 2011, a proporção de admissões caíra, atingindo 18% em 2018.

Na época, Yoshiko Maeda, chefe da Associação das Mulheres Médicas do Japão afirmou que “ao invés de se preocupar com pessoas deixando seus empregos, eles deveriam fazer mais no sentido de criar um ambiente no qual mulheres possam continuar trabalhando (…) E nós precisamos de uma reforma no esquema de trabalho, que não é só para evitar mortes por excesso de trabalho, mas para criar um local de trabalho em que todos possam ter performances de acordo com o máximo de suas habilidades, independentemente de gênero”.

Já em meados de dezembro, outras duas instituições de Tóquio, a Universidade de Juntendo e a Universidade de Kitasato, admitiram que aplicavam notas de corte menores para homens do que para mulheres.

O reitor da universidade de Juntendo, Hiroyuki Daida, teve a “cara de pau” de defender a medida afirmando que mulheres têm vantagens biológicas e de comunicação em relação aos homens. “Mulheres amadurecem mentalmente mais rápido do que homens, e sua habilidade de comunicação no momento em que realizam o exame para ingresso na universidade também é maior. De algumas maneiras, essa foi uma medida para ajudar os candidatos masculinos”. Além dessa desculpa, alegou que a moradia estudantil feminina estaria lotada.

Além das universidades citadas, foi descoberto recentemente que outras universidades haviam praticado irregularidades no processo de admissão, como a Universidade Showa de Tóquio, a Universidade de Fukuoka e a Universidade de Kobe, mas ainda não está claro se as medidas prejudicavam especificamente mulheres. Outra universidade exposta na investigação, a Universidade de Nihon, admitiu irregularidades, mas negou que elas buscassem especificamente prejudicar mulheres.

O esquema existente nas universidades japonesas para prejudicar o ingresso de mulheres nos cursos de medicina, um curso valorizado no mercado de trabalho, mostra mais uma vez como a desigualdade de gênero é algo alimentado pela sociedade capitalista. A opressão da mulher serve como um mecanismo de controle da própria mulher em primeiro lugar, depois da família e da classe trabalhadora como um todo.