Protestos em Minnesota
Radicalização do povo negro nos EUA leva a burguesia a ressuscitar a tese do pacifismo do negro brasileiro
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Manifestantes ateiam fogo na cidade de Minnesota. | Foto: Kerem Yucel/AFP

No dia 29 de maio, o jornalista negro Luiz Fernando Azevedo, mais conhecido como Dodô Azevedo, teve um texto seu publicado no jornal golpista Folha de S.Paulo com seguinte título: “Por que os negros brasileiros não se revoltam como os americanos?”. Conforme descrito no próprio título, o texto procura trazer novamente à tona a tese reacionária de que, por algum motivo, o povo brasileiro — ou, neste caso, o negro brasileiro — seria inferior ao de outro país.

Para travarmos um debate sobre o tema, primeiro precisamos alertar que a comparação que Dodô Azevedo pretende fazer não se resume ao Brasil e aos Estados Unidos, mas fundamentalmente todo o mundo:

Mas acontece que negros de outros países também têm reagido às violências impostas a seu povo. Dos subúrbios de Paris ao bairro de Soweto, do hemisfério norte ao hemisfério sul, negros têm reagido.

A partir deste ponto, o texto já chama bastante atenção pela sua presunção. Para Azevedo, o negro brasileiro seria, portanto, um povo diferente de todo o resto do mundo, um povo que seria incapaz de se manifestar das barbaridades que é obrigado a enfrentar. Essa constatação, no entanto, levanta duas questões, as quais Azevedo não consegue responder: (a) por que motivo o negro brasileiro seria incapaz de reagir aos acontecimentos?; (b) quais são as provas de que o negro brasileiro não reage?

Para tentar explicar a distinção entre o negro brasileiro e o negro dos demais países, Dodô Azevedo recorre a uma ideia mirabolante:

O negro brasileiro é um negro único no mundo porque não se vê como povo. Não foi educado para se ver como um povo. Não é educado para se ver como um povo.

O que o jornalista realmente quis dizer com “se ver como um povo” é realmente difícil de dizer. Contudo, o fato é que o povo negro, em qualquer lugar do mundo, não se manifesta porque “é educado a se ver como um povo”, mas sim porque as classes dominantes obrigaram o negro a cumprir um papel social rebaixado no interior da sociedade. Dito de outro modo, se os negros protestam em todo o mundo, é porque sentem a necessidade de fazê-lo — e essa necessidade parte justamente da compreensão de que são explorados.

Um exemplo citado pelo próprio jornalista ajuda a compreender esse problema:

Em 1835, na Bahia, os negros escravos islamitas planejaram um levante, a “Revolta dos Malês”. Tomar a capital Salvador matando quem estivesse pela frente.

Educação. Como o judaísmo, o islamismo é uma fonte de educação fundamental (civilizou a Europa) e, principalmente, ensina um povo a viver como um povo.

Ora, mas o exemplo dado justamente serve para colocar Dodô Azevedo em contradição! Se a Revolta dos Malês apenas se deu porque os negros islamita teriam uma compreensão distinta dos demais, essa teria sido a única revolta do povo negro durante o período. No entanto, a história registra exatamente o contrário. Nas décadas seguintes, uma mobilização gigantesca tomou conta do país e inviabilizou completamente a escravidão, que acabou sendo abolida formalmente para evitar que os negros tomassem o poder, como foi feito no Haiti em 1804. Um elemento importante dessas mobilizações eram os caifazes, que iam de engenho a engenho libertar os escravos pela força. Não foi a “cultura islamita” que provocou a Revolução dos Malês, mas sim as condições materiais, que levaram a uma explosão social de grandes consequências para a história.

Chegamos à conclusão, portanto, que Dodô Azevedo não consegue explicar a inferioridade do negro brasileiro com uma teoria minimamente sólida. Vamos, portanto, demonstrar agora como também é falsa a tese de que não há uma reação por parte do negro brasileiro.

Segundo Dodô Azevedo, valeria como prova da incapacidade de reação do negro a seguinte comparação:

Se em Londres a polícia assassinar uma menina Síria, a comunidade Síria, que se vê como povo, irá botar pra quebrar. Se uma menina rohingyas é estuprada num beco de Cox’s Bazar, na fronteira de Mianmar com Bangladesh, o povo rohingyas irá botar pra quebrar.

No Brasil, se uma menina da etnia negra é baleada nas costas o que vemos são dois meses de noticiários e hashtags.

Em primeiro lugar, a comparação entre Inglaterra e Brasil é extremamente desonesta neste sentido. Para que se tenha uma ideia, a polícia brasileira matou 5,8 mil pessoas em 2019 (segundo dados oficiais). Entre 1990 e 2009, a polícia inglesa só teria matado 74 pessoas. Nessas condições, é óbvio que qualquer morte no país europeu chame mais a atenção que no Brasil.

É preciso, contudo, entender porque a ação da polícia brasileira é muito mais agressiva que a a da polícia inglesa. Fundamentalmente, o Brasil é um país muito mais pobre — e, portanto, a burguesia precisa agir com muito mais brutalidade para que a situação não saia de controle. Outra prova disso é que, enquanto o Brasil conta com cerca de 800 mil presos, a Inglaterra tem por volta de 70 mil detentos. E se a repressão é tão brutal, é óbvio, portanto, que o negro brasileiro não é tão pacífico e ordeiro como alega Dodô Azevedo!

O negro brasileiro vive em condições de vida muito inferiores às de vários povos no mundo. Não possuem saneamento básico e beiram a fome. Assim, a sua própria sobrevivência está condicionada à luta contra o domínio da burguesia. Não é possível viver ordeiramente sem qualquer perspectiva de vida digna. E são essas condições que tendem a levar inevitavelmente o povo negro à explosão. Não é preciso qualquer “educação” para entender que entre morrer de fome ou sair às ruas, é melhor se manifestar. Se essa explosão ainda não aconteceu de maneira generalizada, isso se dá porque a repressão conseguiu, até o momento, assumir o controle da situação. Contudo, na medida em que a crise econômica se aprofunda, as pequenas revoltas darão lugar a uma revolta generalizada do povo negro contra a direita golpista.

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