Antifascismo?
Sob o pretexto de aguardar a vacina, direções se recusam a sair às ruas
panelaço
Panelaço | Foto: Reprodução/YouTube
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Panelaço | Foto: Reprodução/YouTube

Durante a campanha imunda da burguesia imperialista contra o governo Dilma Rousseff, que chegou a mobilizar setores da extrema-direita saudosos da ditadura militar, a imprensa golpista passou a dar grande destaque aos protestos da classe média na sacada de suas varandas — os chamados panelaços. Os panelaços eram a prova, em si, de que o impeachment contra o PT era impopular: nenhum grande sindicato, nem qualquer grande organização popular saiu às ruas pela derrubada do governo. Pelo contrário: as manifestações golpistas se deram ou em atos de rua em momentos muito específicos, com um altíssimo financiamento capitalista e com muita manipulação da imprensa, ou por meio de protestos inúteis e individuais, como os panelaços.

Hoje, parte significativa dos setores que deram o golpe em 2016 estão interessados em aparecer como oposição ao impopular governo Bolsonaro. No entanto, como são, eles próprios, ainda mais impopulares que Bolsonaro, os golpistas não irão se contrapor a Bolsonaro por meio de grandes manifestações de rua. Afinal, como o governo é odiado pela população, qualquer manifestação contra Bolsonaro pode levar a uma intervenção da classe operária e da população em geral, cuja tendência seria se revoltar contra os golpistas por tabela.

E é justamente por isso que a direita nacional — golpistas como Luciano Huck, João Doria e a Rede Globo —, embora esteja interessada em se opor a Bolsonaro para recuperar o espaço perdido pela extrema-direita, está tão interessada em, hoje, realizar novos panelaços. Para a direita, criar um desgaste de baixa intensidade do governo Bolsonaro, que possa levar a uma derrota eleitoral em 2022, é seu cenário ideal. Com isso, eleger-se-ia algum candidato de maior confiança do imperialismo, como o próprio João Doria, e o golpe teria mais facilidade de seguir adiante.

O que chama a atenção, contudo, é que a esquerda nacional resolveu ingressar de cabeça na campanha dos panelaços. E o problema é muito pior do que apoiar uma manifestação de características direitistas: a esquerda pequeno-burguesa, durante toda a pandemia, se negou a sair às ruas. Há praticamente um ano, não há um único ato organizado nacionalmente pelas direções da CUT, do PT, do MST e das grandes organizações da esquerda nacional. Ou seja, na prática, a esquerda nacional decidiu substituir os seus métodos de luta — a greve geral, os piquetes, as manifestações, o enfrentamento — pelos métodos oportunistas e eleitorais da burguesia: panelaços, barulhaços, buzinaços, manifestos, entrevistas para a imprensa burguesa, processos etc (todos eles em conjunto com a direita, na chamada frente ampla).

O caso mais recente do panelaço deixa esse problema anda mais claro: a esquerda assinou um manifesto divulgando, nas redes sociais, um panelaço após o direitista Luciano Huck ter chamado um panelaço contra Bolsonaro. Trata-se, visivelmente, de um movimento da esquerda se colocando a reboque da política da direita nacional, representante dos bancos e que tirou sua carapuça durante o golpe de 2016. Tal manifesto tem como signatárias, dentre outras organizações, PT, PSOL, PCdoB, PCB, UP e PSTU.

A substituição dos métodos da esquerda pelos métodos da burguesia vem, por sua vez, acompanhada por uma sucessão de eventos que demonstram que a esquerda pequeno-burguesa está em um processo de anulação política. Desde o golpe, quando a luta de classes se tornou explícita, opondo a esmagadora maioria da população à burguesia, a esquerda pequeno-burguesa, por estar integrada ao regime, vem se mostrando incapaz de romper com a direita e defender um programa próprio.

É por isso, por exemplo, que a esquerda pequeno-burguesa não fez uma campanha pela anulação do impeachment — a anulação do golpe. Fazê-lo significaria travar um enfrentamento com a direita de conjunto, coisa que a pequena burguesia não quer. Nas eleições de 2020, anulou-se completamente apoiando as candidaturas da direita, como no caso do Rio de Janeiro, apoiando Eduardo Paes (DEM). E agora, na Câmara dos Deputados, defende a candidatura de Baleia Rossi (MDB). E os argumentos são os mesmos: em vez de combater a direita, é necessário escolher o “mal menor” para conseguir alguma migalha do regime.

Se a esquerda permanecer a reboque da burguesia, dará, de presente à direita, a liderança pelo impeachment de Bolsonaro que, se ocorrer, levará Mourão ao poder e manterá o controle da burguesia ainda maior. Isso se a burguesia quiser, na verdade podendo fazer o impeachment na véspera das eleições para influenciar o resultado delas contra Bolsonaro a favor da direita.

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