Os indígenas integram exposição do Museu Nacional da República

Exposição Yawalapiti

O francês Olivier Boëls realiza exposição fotográfica do grupo Yawalapiti , uma das 16 etnias que vivem no Parque do Xingu, Mato Grosso. A exposição recebe o nome de “Yawalapiti – Entre tempos”, e ocorre no Museu Nacional da República, entre os dias 19 de abril a 20 de maio deste ano.

Segundo o fotografo, “É uma exposição com eles, não sobre eles”, referindo-se aos Yawalapiti que, na concepção da amostra, com suas 150 imagens, dá voz aos membros da comunidade para falar sobre a cultura, retratada pela lente de Boëls. Cerca de 100 membros da própria comunidade vão se revezar para explicar aos visitantes o sentido das imagens e na demonstração de rituais.

De certo, é importante que ocorram exposições desse tipo, que deem voz aos próprios indígenas, para que falem sobre sua cultura, sua vida, seu modo de ver o mundo e nele viver, mesmo que num refugio como o Parque do Xingu. No entanto, é fundamental que, entendendo o principio dessa exposição sobre os Yawalapiti, fujamos definitivamente da caricaturização dos indígenas, a quem raramente chamamos pelo nome ou pelo de sua etnia.

A conquista das Américas traz a marca da violência, do genocídio contra as populações originárias, e os que sobreviveram são invisibilizados, emudecidos, romantizados por alguns e transformados em vagabundos por outros. É nossa obrigação dar voz aos indígenas, de todas as etnias, denunciar os ataques a que são submetidos diariamente, especialmente pelo latifúndio, denunciar o massacre que dizima grupos inteiros nos conflitos por terra, pela mineração, exploração de madeira, por preconceito, racismo.

Neste mês de abril, vale lembrar que o movimento indígena foi importante para a denuncia da ditadura militar no Brasil. Os militares haviam implementado o Plano de Integração Nacional (PIN), que visava expandir as fronteiras internas do Brasil, criar cidades, ampliar os negócios, de forma que se investiu muito nas rodovias, para melhorar o escoamento de matérias-primas. No entanto, os indígenas, diante da ameaça que essa expansão representava, lutaram por seus territórios, e isso bastou para que fossem perseguidos, criminalizados, motivando a prisão e a tortura de lideranças indígenas – às vezes pelo simples fato de seu comportamento ser considerado inadequado frente à política de desenvolvimento do governo. Claro, a violência chegou ao ponto de promover assassinatos, individuais e coletivos.

Mas as lideranças indígenas se organizaram, realizando uma dezena de assembleias, a partir de 1974 e criando a União das Nações Indígenas (UNI), em 1980. A importância da UNI é clara, pois foi a primeira organização indígena de caráter nacional no País. Teve papel relevante na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-88, levando para o debate, e fazendo a pressão necessária, os temas do direitos à terra e à reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições, o que foi garantido parcialmente na Constituição de 1988. Entre outros temas importantes que foram incorporados à Lei, está o disposto no artigo 231 da Constituição: a obrigatória demarcação dos territórios indígenas.

Houve grande resistência dos indígenas, agora organizados, pedindo o controle da Funai e que os militares retornassem aos quartéis. Essa resistência teve um preço, a morte de mais lideranças indígenas. No entanto, isso também foi importante para que as denuncias que vinham sendo feitas desde o inicio dos anos 1970 repercutisse no mundo todo. Não há dúvida de que o movimento colaborou muito para a desmoralização do regime militar e na decisão de fazer a propalada abertura política no país.

Por isso, os indígenas, de todas as etnias, merecem mais que uma exposição, mais do que um dia para que se lembre de sua existência, uma existência que incomoda nossas elites, que incomoda os latifundiários, merecem o reconhecimento do exemplo de resistência, diante de toda adversidade, toda violência que sofrem faz séculos, sem capitular. Viva as nações indígenas, viva a resistência indígena, viva a coragem dos bravos, que não recuaram diante da violência do dinheiro, dos latifúndios e seus capangas, do Estado e seu braço armado. Celebremos sua luta.