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A reboque da direita
Orlando Silva faz malabarismos para justificar a capitulação do PCdoB
O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), em entrevista à Revista Fórum, lançou mão de vários pretextos para tentar explicar a adaptação de seu partido às exigências da direita.
ORLANDO SILVA Foto Luís Macedo. Câmara dos Deputados
A reboque da direita
Orlando Silva faz malabarismos para justificar a capitulação do PCdoB
O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), em entrevista à Revista Fórum, lançou mão de vários pretextos para tentar explicar a adaptação de seu partido às exigências da direita.
Deputado Federal Orlando Silva (PCdoB-SP). Foto: Luís Macedo/ Câmara dos Deputados
ORLANDO SILVA Foto Luís Macedo. Câmara dos Deputados
Deputado Federal Orlando Silva (PCdoB-SP). Foto: Luís Macedo/ Câmara dos Deputados

No dia 28 de dezembro de 2019, a Revista Fórum publicou uma entrevista concedida pelo deputado federal Orlando Silva, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Ao longo da conversa, Silva procura apresentar seus argumentos diante das mudanças que estão sendo discutidas no interior do PCdoB. que revelam uma adaptação à ofensiva da direita.

Comunismo do século XXI

Em alguns momentos, Orlando Silva defende, na entrevista, que o PCdoB deveria apresentar um comunismo adaptado – isto é, um comunismo que não seguisse a doutrina marxista, mas sim parâmetros arbitrários elaborados pelos seus próprios correligionários. Tal tese já foi apresentada por vários outros dirigentes do PCdoB, como Manuela D’Ávila (RS) e Flávio Dino (MA).

A defesa de uma adaptação para o comunismo fica expressa nos seguintes trechos:

O que simbolizava a união dos trabalhadores do campo e da cidade, a foice e o martelo, são símbolos datados. Hoje um partido comunista poderia ter um chip como símbolo. Porque a expressão da mais-valia se dá com muita intensidade nos trabalhadores ligados à tecnologia.

(…)

Mas, a meu ver, você tem nas ideias comunistas essenciais as ideias mais generosas de promover igualdade de oportunidades, combater exploração.

O que Orlando Silva apresenta, no entanto, nada tem a ver com o comunismo – são apenas ideias bastante abstratas, que podem servir a quaisquer interesses nas mãos de um político de carreira. Em primeiro lugar, é preciso perguntar: por que abrir mão da foice e do martelo, que são símbolos reconhecidos em todo o mundo como pertencentes aos trabalhadores? A proposta de incluir um chip nos símbolos dos comunistas, além de não distinguir as organizações operárias das organizações da burguesia, acaba por ser uma proposta que visa erradicar o mais conhecido símbolo do comunismo em todo o mundo. Queira Orlando Silva ou não, cada organização que abandona a foice e o martelo, está contribuindo para que a direita se propagandeie como única alternativa para a situação política.

Em segundo lugar, é preciso destacar que o comunismo não é um conjunto de ideias acerca da promoção da igualdade e do combate à exploração. O comunismo, conforme definido por Friedrich Engels, é a doutrina das condições de libertação do proletariado – não é uma bandeira para ser utilizada por quem proponha minimizar as mazelas do capitalismo. A luta pelo comunismo é a luta pela derrubada do capitalismo, e qualquer coisa que fuja disso leva, inevitavelmente, a uma política oportunista, que distrai os trabalhadores de sua tarefa histórica.

Seguindo a direita

As falas do deputado não revelam apenas uma incompreensão da doutrina marxista, mas sim um movimento muito claro por parte de todo um setor da esquerda nacional. Na atual etapa, em que a direita parte para uma duríssima ofensiva contra todos os explorados, a esquerda pequeno-burguesa, que não tem princípios bem estabelecidos, mostra uma tendência a se adaptar as exigências da burguesia, ao invés de combatê-la.

Deste modo, Orlando Silva e outros, na medida em que assistem a direita avançado sobre o regime, estão levando adiante uma política de concessão e, até mesmo, de adaptação, abrindo mão dos princípios que deveria defender a todo custo. É por isso que, neste momento, surgem tais discussões, de que o comunismo deveria se abandonado, alterado ou reinventado – discussões que tem, como fim, eliminar o comunismo como alternativa dos trabalhadores para a atual crise do capitalismo.

O povo está com a direita?

A adaptação à ofensiva da direita também revela que a esquerda pequeno-burguesa, da qual Orlando Silva é representante, não compreende o papel fundamental da mobilização das massas como elemento de intervenção política. Se a única maneira de sobreviver no regime político seria se adaptando às exigências da direita, então tais setores estão admitindo que o povo, em geral, apoia as pautas da direita. Afinal, se a população é contra a direita e a única maneira de o PCdoB seguir lutando pelo comunismo é seguindo as pautas da direita, Orlando Silva estaria propondo que o comunismo seria lutar contra as demandas da população – o que seria absurdo. Com isso, chegamos à conclusão absurda de que, para Silva, a direita – que não usa foice e martelo – estaria mais próxima do comunismo do que a esquerda.

Não se trata de nada disso, no entanto. Nem o caminho para o comunismo é o da adaptação à direita, tampouco o povo brasileiro vive hoje uma onda conservadora. A esmagadora maioria da população se encontra revoltada com a política neoliberal e quer pôr o regime político abaixo – no entanto, Orlando Silva se deixa impressionar pela chamada opinião pública, que colocaria o povo a favor da burguesia. A opinião pública, no entanto, é uma farsa, uma jogo de manipulações da burguesia para garantir que seu programa impopular seja propagandeado como algo aceitável pela população.

Qual as consequências dessa política?

A política de adaptação da esquerda ao programa da burguesia só pode levar a um desastre. O resultado, como a própria história mostra, é sempre o mesmo: a mobilização dos trabalhadores tende a se arrefecer, uma vez que não encontram, em suas direções, uma perspectiva de luta real, e a esquerda acaba por ter um resultado eleitoral pouco expressivo, uma vez que o próprio eleitorado da direita, que sempre votou na direita, não teria motivo algum para votar na esquerda, mesmo que seus candidatos defendam uma ou outra pauta reacionária. É preciso, portanto, romper com esse tipo de política e organizar um movimento independente, que coloque de maneira clara as reivindicações dos trabalhadores.