Organizado pelos patrões: 1º de maio da Força é herdeiro do 1º de maio da ditadura

Durante a ditadura militar, os sindicatos tornaram-se em grande medida organizações a serviço da burguesia, com dirigentes indicados pelos patrões e avalizados pelo regime. Tal refluxo foi o resultado da dura política de repressão e de criminalização das lideranças e organizações de esquerda a partir do golpe de 1964. A situação só viria a mudar com o chamado novo sindicalismo surgido sobretudo no ABC Paulista, do qual surgiram o Partido dos Trabalhadores e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Este movimento foi um dos principais elementos de pressão que levaria à queda do regime militar na década de 1980.

Na ditadura, os sindicatos promoviam eventos comemorativos do dia do trabalhador que funcionavam como festivais despolitizados em que pouco se falava de política. Em 1979, a data teve especial significado. Enquanto o Governo do Estado de São Paulo chamara uma partida de futebol comemorativa entre a Seleção da Capital e a Seleção do Interior no Pacaembu, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC confrontou o regime e chamou um ato no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Lula diria que “pra cada jogador de futebol famoso que estivesse servindo de palhaço no Pacaembu, nós teríamos um dirigente sindical aqui. Para cada um inconsciente que fosse no Pacaembu, nós traríamos dez trabalhadores conscientes aqui”.

De certo modo, foi o que ocorreu em São Paulo no último 1º de maio. Enquanto centrais, sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais chamaram um ato nacional unificado contra o golpe de estado e pela libertação de Lula em Curitiba, a Força Sindical – fundada sob os auspícios da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) – chamou um ato com shows e sorteio de automóveis no Campo de Bagatelle, na Zona Norte de São Paulo. A pauta política, como não poderia deixar de ser, era de apoio às políticas golpistas, com palavras de ordem ambíguas como “uma Previdência sem privilégios” (na verdade um apoio à reforma da previdência de Temer).

A Força Sindical e o partido Solidariedade foram um dos esteios políticos do golpe de estado que retirou ilegalmente Dilma Rousseff do poder e que hoje resulta num ataque sem precedentes à classe trabalhadora, incluindo a prisão de Lula. Como todo movimento político tem suas contradições, a central golpista apoiou o ato de Curitiba – sem mobilizar qualquer trabalhador para a capital paranaense – enviando algumas de suas lideranças. Quando o pré-candidato à presidência da república, Aldo Rebelo (ex-presidente do PCdoB, ex-PSB e hoje Solidariedade), tentou discursar no ato, sua voz foi abafada por um grito uníssono de Golpista e uma sonora vaia da multidão. Aldo Rebelo também estivera no ato da Força em São Paulo pela manhã.

Curiosamente, outra pré-candidata à presidência da república também estivera no Campo de Bagatelle pela manhã, mas não foi vaiada em Curitiba: Manuela d’Ávila do PCdoB. Tal contradição se deva talvez à presença constante de Manuela e do também pré-candidato Guilherme Boulos (PSOL) ao lado de Lula em atos recentes.

Os trabalhadores não devem se confundir: Rebelo, Manuela, Boulos, assim como Ciro Gomes (PDT) não buscam mais que manter sua candidatura de modo a legitimar as eleições promovidas pelos golpistas, relegando a segundo plano a luta contra o golpe e pela liberdade de Lula. São candidaturas abutres que visam à fragmentação da luta e à dispersão do apoio a Lula, ao mesmo tempo em que se colocam como parte de um processo eleitoral fraudulento, em que Lula não será candidato e em que qualquer outro candidato não tem a menor chance de vencer. São candidaturas a serviço dos golpistas, organizadas pelos patrões – assim como o ato de 1º de maio da “Farsa Sindical”.