Frente ampla
A operação reacionária da da frente ampla, de opor Doria à Bolsonaro, como se fosse uma oposição entre democracia e fascismo, torna-se uma de suas principais estratégias
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João Doria, o Bolso-Doria que se passar por democrata | Fonte: Brasdangola
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João Doria, o Bolso-Doria que se passar por democrata | Fonte: Brasdangola

No Brasil, a operação política da direita tradicional, dos principais setores da burguesia, denominada aqui de frente ampla, que segue os moldes da que levou Joe Biden, legítimo representante do principal e mais nocivo setor do imperialismo estadunidense, à presidência daquele país, está ganhando contornos mais definidos. A burguesia frenteamplista utiliza a crise sanitária e a vacinação como meio de manipulação da opinião pública, em particular da esquerda, em favor da direita golpista. João Doria aparece na imprensa capitalista como grande estadista ou ao menos mais equilibrado; candidato natural a líder da união nacional contra Bolsonaro.

Após a aprovação da CoronaVac, vacina da farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da vacinação imediata da primeira pessoa no país no último domingo (17), obras de propaganda do governador do Estado de São Paulo, João Doria (PSDB) a burguesia frenteamplista aumentou a propaganda em torno deste, mostrando uma clara tendência de a manobra política ter Doria como principal protagonista.

Doria derrota Bolsonaro. Com aprovação de vacina, Bolsonaro cai e Doria cresce em popularidade digital. Eis algumas matérias difundidas pelo jornal golpista e frenteamplista Folha de S. Paulo, por exemplo, que denunciam o sentido da operação posta em marcha. Para tornar João Doria, um dos políticos da burguesia mais odiados pelos paulistanos e paulistas, mais aceitável, a burguesia realiza uma operação ideológica. Apresentam-no como um contraponto democrático ao fascismo da extrema-direita bolsonarista; um contraponto científico ao obscurantismo bolsonarista.

A esquerda pequeno-burguesa, sobretudo, as direções pequeno-burguesas, desesperados, histéricos devido a crise econômica, que solapam as bases econômicas de sua classe ou fração de classe, e política, cujo, resultado é o desmoronamento de seu mundo, ou seja, o parlamentarismo burguês, internalizou, como sua tábua de salvação, a ideologia produzida sob medida pela imprensa capitalista e seguindo sua filosofia do “mal menor”, apoiaram Doria contra Bolsonaro, supostamente em nome da ciência e da democracia. Assim como apoiam medida autoritárias e fascista do Estado, em nome da luta contra o fascismo.

A operação Doria, assim como nos EUA, que lhe serve de modelo, visa, não a promover uma luta dos democratas contra o fascismo, que não está colocada no presente momento, mas a subordinar a esquerda à direita tradicional, neoliberal e mais ligada ao imperialismo, permitindo um ambiente minimamente sustentável para que essa direita possa ela mesma retomar o controle político e econômico do país, sem ter de partilhá-lo com a esquerda burguesa e pequeno-burguesa ou com a extrema-direita, que ela mobilizou e organizou na sua luta contra a esquerda do regime. Criando assim um cenário mais propício para a implementação ainda mais radical da agenda neoliberal.

A esquerda que se coloca a reboque desse bloco político em nome de uma imaginária luta contra o fascismo, cedo se dará conta, uma vez alçado este bloco político ao poder, que são até mais autoritários e fascistas que os fascismo que dizem combater. Biden, cujo compromisso declarado é aprovar a lei antiterror doméstico, eliminando inúmeros direitos democráticos do cidadão norte-americano, é um exemplo claro. O caso específico de Doria, do Bolso-Doria, talvez seja ainda mais evidente.

Sob a administração de João Doria, a Polícia Militar do Estado de São Paulo, alcançou recordes de assassinatos. Em 2020, durante a quarentena, a PM assassinou 442 pessoas entre os meses de janeiro a maio. O mesmo Doria que é apresentado como antifascista é o mesmo que aplaudiu o massacre de Paraisópolis. Um defensor ferrenho das privatizações, do ataque aos direitos trabalhistas, que proponha dar ração para crianças nas creches, que enjaulou moradores de rua, dentre inúmeras outras maldades desse facínora. Sob nenhum ponto de vista esse pode ser considerado um democrata, nem mesmo na concepção mais pálida de democracia.

Doria é tão obscurantista quanto Bolsonaro, embora faça demagogia, como vacinar uma mulher negra ou acusar Bolsonaro de negacionista. Assim como o governo federal negacionista, Doria, o científico, não se valeu da ciência, nada fez para conter a pandemia. O resultado de sua inércia foi a morte de 50 mil pessoas. Uma catástrofe que lhe deveria levar à prisão por negligência criminosa.

Os governadores, Doria, a burguesia tradicional frenteamplista são tão responsáveis, ou até mais que Bolsonaro no que se refere a destruição econômica do país, dos direitos individuais e democráticos, e da catástrofe da sem precedentes que todos tratam como se fosse mera obra do destino. As centenas de milhares de concidadãos mortos na pandemia são de inteira responsabilidade dos governos, da direita tradicional e da extrema-direita que se recusaram e, se recusam ainda hoje, a colocar os recursos do Estado a serviço do bem estar do povo.

A operação Doria, assim como a operação Biden, não tem absolutamente nada de progressista, ao contrário é completamente reacionária e só terá como resultado a derrota da esquerda. É preciso romper com a política ilusória de unidade nacional contra o fascismo, que nada mais é, nesse caso, que a política da direita de sujeitar a esquerda a si própria. Constituir uma frente dos trabalhadores e do conjunto dos oprimidos, de suas organizações e partidos, independente da burguesia golpista num grande movimento verdadeiramente democrático, que agrupe massas de milhões de pessoas. Temos como proposta de mobilização, que esse movimento se forme em torno da campanha pela restituição dos direitos políticos e da candidatura do ex-presidente Lula; da palavra de ordem de Fora Bolsonaro e eleições gerais já. Eis aí uma proposta de luta real e com uma perspectiva de vitória.

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