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Uma rede de mentiras
ONG de direita dos EUA financia centros antiaborto na América Latina
A investigação revelou que os centros ao invés de darem suporte às grávidas, se encarregavam de disseminar falsas informações tentando dissuadi-las de interromper a gravidez.
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Uma rede de mentiras
ONG de direita dos EUA financia centros antiaborto na América Latina
A investigação revelou que os centros ao invés de darem suporte às grávidas, se encarregavam de disseminar falsas informações tentando dissuadi-las de interromper a gravidez.
Um “centro de gravidez de crise” em Nova York, Foto: Richard B. L
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Um “centro de gravidez de crise” em Nova York, Foto: Richard B. L

Grave denúncia de uma campanha mundial de manipulação de informação contra as mulheres, foi divulgada pela OpenDemocracy após investigação realizada em 18 países da Europa e América Latina. A investigação teve como alvo centros afiliados à Heartbeat International, sediada em Ohio e que divulgavam apoio à mulheres grávidas. As repórteres se faziam passar por mulheres em situação de vulnerabilidade em busca de ajuda em decorrência de uma gravidez indesejada.

A investigação revelou que os centros, ao invés de darem suporte às grávidas, se encarregavam de disseminar falsas informações tentando dissuadir as mulheres da intenção de interromperem a gravidez. Segundo a OpenDemocracy , após a acolhida, as mulheres eram expostas as mais diversas formas de abordagem , desde termos de responsabilidade, conversas e vídeos expondo os riscos e consequências do aborto.

O relato de uma das investigadoras é esclarecedor:

“Na manhã de um dia de semana, fui a um centro no subúrbio da Cidade do México divulgado pelo site interrumpir-embarazo.com. Na divulgação online, não havia menção de posição contra o aborto. Sentada em uma sala sem janelas com uma pequena cama improvisada e uma almofada, ouvi funcionários do centro garantirem, incorretamente, que três em cada dez mulheres sofrem de complicações graves do aborto, como perfuração do útero ou do intestino, e mortes dolorosas (complicações graves de abortos seguros são, na verdade, extremamente raras).A mulher que me atendeu disse, também incorretamente: “Você sabia que não te aceitariam em um hospital se você chegasse com uma hemorragia como consequência do procedimento?”. (Por lei, os hospitais públicos no México devem atender qualquer pessoa que chegue em uma sala de emergência.) .Durante 50 minutos, ela mencionou meu companheiro e seu “direito de escolher” mais de 20 vezes, e inclusive me disse que precisaria do consentimento escrito dele ou de um familiar para conseguir um aborto legal (ao contrário, abortos por vontade da mulher são legais na Cidade do México durante as 12 primeiras semanas de gravidez).A mesma mulher colocou cópias de supostos formulários de consentimento sobre a escrivaninha que nos separava. No papel, havia espaços para duas assinaturas. “Meu parceiro teria que assinar?”, perguntei. “Sim, precisa de um familiar ou alguém responsável”, ela me respondeu. “Se seu intestino for perfurado ou se tiver dano no útero, se você tiver uma hemorragia que não se estanca, você estaria autorizando, junto com seu parceiro, se necessário, a retirada do seu útero”.

Mais da metade dos centros investigados pela Opendemocracy , fazem parte de redes locais que recebem financiamento da Heartbeat e da Human Life International, ambos grupos de extrema-direita que se opõem declaradamente contra o aborto e a própria contracepção, mantendo também estreitas relações  com a Casa Branca.

Segundo ainda a OpenDemocracy, a Heartbeat International é uma das pioneiras na criação de centros de apoio à mulheres em situação de gravidez indesejada. Os chamados de “ Centros de crise para a gravidez” começaram a ser abertos nos EUA no início da década de 1970, antes da decisão da Corte Suprema Corte legalizar o aborto  em todo o país. A ONG também gastou quase US $ 1 milhão em todo o mundo desde 2007, incluindo doações para inúmeras redes e grupos de ativistas contra o aborto, revela também a investigação.

A denúncia da OpenDemocracy, porém, revela  uma clara violação do direito das mulheres, uma vez que a prática é legal nos países investigados e descortina o “modus operandi” da extrema direita baseado na manipulação e desinformação das pessoas com finalidade de controle social.

Todo e qualquer pessoa ou grupo , tem o direito de manifestar-se em apoio ou contrário a uma prática ou a uma opinião. A liberdade de expressão é um direito legítimo a qualquer um e deve ser defendido independentemente da nossa concordância ou não.

A cultura do anti-aborto, ou pró-vida na verdade é um meio de controle e opressão especialmente nos países pobres , e é esta a intenção deste grupos, pois os ricos o praticam de forma segura mesmo que velada. A retirada do direito da mulher sobre sua capacidade reprodutiva, traz como consequência a limitação da emancipação feminina, reproduzindo indefinidamente a organização social que aprisiona a mulher ao lar para garantir os cuidados com a prole e a perpetuação da pobreza e da miséria, campos férteis para a dominação capitalista. O estado ao não suprir nem minimamente a necessidade de locais para o cuidado de crianças, e também por não garantir à mulher o tempo necessário de afastamento do trabalho para o cuidado do recém- nascido, a condena assim como aos trabalhadores sem direitos, a uma situação de pária social cujo destino é seguir involuntariamente os dogmas religiosos do “crescei-vos e multiplicai-vos “ e a cultura de que “ Deus quis assim”.