Ocupação de São Bernardo: Uma resistência que não coube no discurso

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Carta do Leitor

Por Vitor Teixeira

Toda vez que eu chegava em São Bernardo do Campo, nos três dias da resistência à prisão de Lula em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, algo sempre me incomodava. Eu subia e descia as ruas do bairro do sindicato tentando entender o que estava acontecendo e pensava: “caramba, como é que querem proteger Lula com essa quantidade de pessoas?”. Independente de desconfianças, o pau comia no carro de som. Dirigentes disputavam espaço e sobrecarregavam o peso limite do palanque para reafirmar que Lula não se entregaria. Alguns discursos impressionavam pela radicalidade. Mas novamente eu olhava ao redor e a conta não fechava. Não havia gente o suficiente pra cercar o sindicato e garantir a segurança do presidente. Ah se aquele palanque cedesse…

Na rua, diferentes grupos interagiam numa interminável análise de conjuntura. Metalúrgicos, estudantes, sem-teto, petroleiros, professores, sindicalistas, jornalistas, todos ensaiavam análises para se antecipar aos acontecimentos. Em cima do carro de som o falatório seguia intenso e combativo. Na sexta-feira, segundo dia de ocupação do sindicato, o prazo para Lula se entregar se esgotou. Houve uma contagem regressiva para as 17h, horário que a Polícia Federal estipulou para o velho se entregar. Todos comemoraram.

Estava me preparando para sair para São Bernardo novamente no sábado, meio ressabiado com uma informação que havia circulado. Falava-se que estava sendo organizada uma missa em frente ao sindicato. Missa? Não é preciso um gênio da política para perceber que uma missa nesse cenário seria uma ducha de pacifismo cristão na fervura despertada na pequena multidão que ali estava. Não deu outra. O padre pregou a paz e Lula finalizou seu discurso dizendo que se entregaria ao martírio. Eu e meus camaradas pensamos: bem, então foda-se né, vamos ali comer uma feijoada, tomar uma gelada e lamber as feridas assistindo a prisão do velho no bar. Lá pela oitava cerveja, já com o bucho cheio, começamos a receber informações via zap. Um grupo de militantes começava a se organizar para tentar barrar a saída de Lula. Pagamos a conta, chamamos um carro e partimos.

Chegando lá, novamente aquela sensação de mobilização pequena, mas dessa vez com algo de novo. Tudo estava meio confuso, havia um corre-corre, e os militantes debatiam de maneira mais intensa. Vi alguns bate-bocas e até princípios de brigas que eram separadas. Os que queriam barrar a saída do presidente eram chamados de “irresponsáveis”. No portão do sindicato, pedaços de pau impediam a saída do carro. A militância estava dividida enquanto os dirigentes discursavam no carro de som. O tom das falas era outro, completamente diferente dos dias anteriores.
“Brigaremos na justiça para soltar Lula”, argumentava um burocrata engomado qualquer, enquanto parte da militância respondia de forma nada polida. Em alguns momentos mal se dava pra ouvir o que o infeliz tinha a dizer de tantos berros e xingamentos. A tomada de consciência de quem acampou os três dias ali foi fulminante. “Eu fiquei esses três dias dormindo no chão pra esse filho da puta vir dizer que temos que entregar o Lula agora? E o que foi dito antes?”, escutei de uma jovem militante.
Lá pelo terceiro discurso, vi um grupo dos sem-teto se mandando dali em fila indiana, atendendo ao ponderado apelo dos dirigentes. Minutos depois, outro grupo sai no pinote. Vendo os jornais e conversando com outros companheiros no dia seguinte, entendi que esse segundo grupo partiu para tentar barrar a saída de Lula a pé, por um outro portão do sindicato.
Neste momento, com a assembléia já esvaziada, sem os sem-teto e sem o grupo que foi fazer a última tentativa, um experiente dirigente pede a palavra e propõe uma votação para decidir se devíamos deixar o entorno do sindicato ou não. Uma manobra rocambolesca, que sendo contada parece meio besta, mas que na hora foi genial. A maioria vota por entregar Lula à polícia. Ao ver as pessoas indo embora, a única coisa que consigo pensar é “meu deus, que arrombado”. Caminho com meus camaradas até o terminal Ferrazópolis para tomar o ônibus de volta a São Paulo com um misto de sensações indescritível.

Finalmente, a sensação que tenho é que a resistência de São Bernardo foi uma resistência pensada para ser um discurso, para ficar apenas na disputa da narrativa, mas que virou uma coisa real, prática, fora do planejado pela direção. A verdade é que um determinado grupo, a despeito da decisão de entregar Lula (a verdadeira decisão desde o primeiro momento), se insurgiu contra essa orientação numa fagulha de notável lucidez. No fim das contas, a minha desconfiança com a quantidade de pessoas toda vez que eu chegava no sindicato fazia sentido. Com uma mobilização de verdade, com dezenas de ônibus chegando do Brasil inteiro, com vontade política para transformar aquele bairro todo num caldeirão vermelho, a fagulha dos militantes que trancaram os portões gritando “Não vai prender!” colocaria fogo em São Bernardo, e o sindicato ficaria cercado até algum juiz cagar nas calças e entregar o habeas corpus a Lula. Estes militantes fizeram juz à história de luta da terra dos metalúrgicos, defenderam Lula e a constituição, e desafiaram a hesitante orientação do movimento, neste que pode ser o primeiro de muitos enfrentamentos internos entre base e direção. Já os dirigentes, seguirão enxugando gelo em um aspiral de vacilação e ilusões, acreditando nas instituições de um país que sofreu um golpe de Estado, um país que vive uma ditadura embrionária, um país onde juízes são ameaçados por militares em redes sociais.