Eleição na Câmara
Enquanto a disputa pelo controle dos principais cargos do Congresso se intensifica, setores da esquerda adotam a política de aceitar as regras e legitimar o jogo da burguesia
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Rodrigo Maia (DEM), a principal peça da burguesia no controle da Câmara | Reprodução

A disputa pela presidência da Câmara se tornou um dos principais assuntos deste fim de 2020. O ano da pandemia foi totalmente atípico, um horror completo de mais de 180 mil mortos causados pela política genocida dos golpistas. No entanto, alheia a todas estas mudanças bruscas, setores da esquerda parlamentar adotam uma política arcaica no tabuleiro da luta de classes ao discutirem qual dos candidatos da direita golpista irão apoiar: Arthur Lira (PP), candidato de Bolsonaro ou o candidato de Rodrigo Maia (do bloco DEM, PSDB e MDB)?

É o que pôde ser constatado nesta semana diretamente pelo ex-dirigente do PT, José Dirceu e em falas mais veladas de outros elemento do PT, como deputados federais que disseram não ser possível apoiar o candidato de Bolsonaro, mas deixaram em aberto um possível apoio ao candidato de Rodrigo Maia.

Em entrevista à TV 247 Dirceu foi enfático:

“Não concordo com candidatura própria… O PT precisa tomar posição e não pode ficar fora da mesa [da Câmara]… a opção na eleição da presidência da Câmara será o candidato que atenda mais os partidos de esquerda”.

O dirigente petista está defendendo a política “do mal menor”, do “voto útil”, como ele mesmo detalha:

“Se é o candidato apresentado pela centro-direita, indicado por Rodrigo Maia, tudo bem, se for o Arthur Lira, tudo bem. O que eu não concordo é que o PT lance candidatura própria.”

A declaração soa absurda, ainda mais vinda de um dos primeiros dirigentes petistas a terem a cabeça cortada no “pré-golpe” de Estado de 2016, durante a caça à bruxas que foi o julgamento do Mensalão. Porém, Dirceu não é louco. Ele está falando com a mesma convicção política que, bem ou mal, o levou à vitória eleitoral em 2002 e a Casa Civil.

Mas é preciso esclarecer, Dirceu está errado. O golpe de Estado está ai há 4 anos, a grande máquina eleitoral que o PT criou, com seus nobres e combativos vereadores, prefeitos, deputados, presidentes e dirigentes de autarquias, fundações, empresas públicas, cargos em comissão e em função gratificada, governadores, secretários de estado, senadores e ministros, não serviram nem para defender seu principal mandato: o de Dilma Rousseff.

Um dos principais argumentos para justificar a conciliação com a direita é a tese do pragmatismo. Na qual as alianças com a direita permitiriam ganhos impossíveis para uma política de confronto com a burguesia. O exemplo sempre utilizado pelos defensores desta tese são os resultados eleitorais que o PT teve a partir de 2002.

No entanto, para que serviram as posições essas posições institucionais conquistadas?

A postura passiva, quase consensual diante da iminente queda, fez com que as tímidas reformas que os governos petistas implementaram a trancos e barrancos de 2003 a 2014 começassem a ser destruídas antes mesmo do governo Dilma ser derrubado em 2016. Naquela momento, adotando mais uma vez a política de conciliação, o governo petista, acuado e em desespero, buscou um acordo com a burguesia e a direita como solução para a crise. O resultado disso foi uma situação de verdadeiro suicídio político do governo Dilma, que iniciou a execução do programa dos golpistas – derrotado nas urnas – o que facilitou sua própria derrubada. Como o caso vergonhoso da aprovação da lei anti-terrorismo, que viria a ser usada pela direita contra o próprio PT e os movimentos sociais.

Essa situação impulsionou a extrema direita, que chegou a estampar adesivos em carros com uma montagem da presidenta Dilma em que – ao encher o tanque de combustível, a mangueira aparecia introduzida na genitália da montagem com a foto da presidenta.

Assim, Vaccari foi preso, Genoíno foi preso, Dirceu foi preso, como vários outros dirigentes petistas, que também foram violentamente perseguidos pela burguesia. De todos estes, Dilma e Lula foram os petistas mais atacados. Todos os dias a imprensa burguesa destacava em seus jornais e telejornais uma campanha ultra reacionária contra os presidentes. Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo chegaram a ter edições de seu jornais impressos com as mesmas matérias e as mesmas fotos, mostrando o grau de unidade dos capitalistas para derrubar o PT. O que criou o clima para que até o principal dirigente do PT, o próprio Lula, fosse condenado, preso e cassado, proscrito das eleições de 2018.

Há muitos mais exemplos concretos de situações desta natureza, em que a esquerda, baseada nesta política do acordo com a direita, não fez nada a não ser se resignar diante da ofensiva reacionária. Foi assim em 2013 nas jornadas de junho, em 2014 na Copa e no início da Lava Jato, em 2015 na abertura do processo de impeachment, em 2016 na efetivação da derrubada de Dilma, em 2017 na condenação de Lula, em 2018 em sua prisão e cassação, em 2019 na convivência com o governo Bolsonaro e em 2020 com o genocídio da pandemia.

Este pequeno resumo das inúmeras capitulações da esquerda, resultantes da sua política de colaboração de classes, apontam para a necessidade de um balanço crítico, sobre a política da esquerda, que questione os seus resultados.

Isto porque, a partida de xadrez das eleições da Câmara mostra que após todas estas capitulações sucessivas, a esquerda parlamentar não é mais nem reformista. Além de legitimar o jogo da burguesia, sequer buscam mudar as regras. Afinal, não precisa ser revolucionário para denunciar a configuração totalmente ditatorial das eleições para a mesa da Câmara, um reformista democrático faria isso, por exemplo.

Mas esse setor da esquerda não faz nem isso, adaptou-se completamente ao xadrez da burguesia. Não há crítica sobre o jogo, nem sobre as regras, há apenas a tentativa de ser promovido neste jogo, em que quem dá as cartas e promove as peças é a própria burguesia.

Desta forma, a esquerda se manterá a reboque da direita, como tem ficado nos últimos anos até se tornar um apêndice da direita e deixar de ter qualquer relação e identificação com os trabalhadores.

Contra essa resignação total diante dos golpistas e da burguesia, por parte da esquerda, é preciso chamar os trabalhadores a criticarem as regras e a lutarem pela extinção deste jogo de peças marcadas da burguesia. Do contrário, a esquerda será apenas mais uma peça da burguesia, logo, desnecessária ao conjunto dos trabalhadores e dos oprimidos.

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