O dub surgiu nos anos 60
O dub surgiu como uma derivação radical e vanguardista do reggae. O reggae e o dub são expressões do povo mais humilde da Jamaica, música de caráter altamente político.
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kingtubby-Photo provided courtesy of Dubby Doo
King Tubby, um dos pioneiros do dub jamaicano | Foto: Reprodução

O dub é um estilo que surgiu a partir do reggae em finais dos anos 60 e seu desenvolvimento se extendeu para muito alem das fronteiras do reggae, tornando-se uma das grandes influencias para todos os tipos de música.

A influencia do dub pode ser constatada no som do punk e o surgimento do pós-punk no início dos anos 80, dois dos movimentos musicais de maior conteúdo político. O Clash tem várias faixas dub em seu album triplo “Sandinista” de 1980. O dub foi um dos elementos fundamentais nos primeiros discos do Public Image Inc ou P.I.L., o grupo que John Lydon formou após o fim dos Sex Pistols. Muitas bandas de rock mostraram canções com o uso das técnicas do dub como foi o caso de Soundgarden, Beastie Boys, At The Drive-In, Massive Attack, Bauhaus, alem de punks como Rancid, Bad Brains e NOFX.

Mas a influencia do dub é mais evidente mesmo na música eletronica, que em estilos como ambient, trip hop, trance, house e techno devem muito ao dub.

O que é o dub

No final dos anos 60 a grande maioria dos singles lançados na Jamaica tinha no lado B uma versão instrumental da música principal, o que eles chamavam de “versão” (version).

Justamente para aumentar o interesse por estas músicas que iam para os lado B dos singles produtores como King Tubby e Lee “Scratch” Perry começaram a experimentar em seus estúdios a aplicação de efeitos como eco e delay, manipulação de fitas e a enfase na base rítmica.

Tudo isso, vale lembrar, em um país extremamente atrasado, especialmente em termos tecnológicos. Neste contexto é real a máxima da “necessidade é a mãe da invenção”.

Neste clima o dub trouxe um novo significado à palavra mixar ou remixar. Eles fizeram com que o engenheiro de som se tornasse um personagem tão importante quanto o compositor ou o músico para o produto final. Foram precursores do mundo da música eletronica de nossos dias, onde o material gravado por um artista pode ser manipulado, rearranjado, sampleado a ponto de se tornar um produto totalmente diferente do original.

Sistemas de som

Muito da força original do dub veio do fato de que essa música foi criada para ser tocada nos “sistemas de som” (sound systems), muito populares na época. Os sistemas de sons surgiram na década de 1940 nos guetos de Kingston. Eram compostos por aparelhos de som com enormes caixas com poderosos alto falantes operados por um DJ (na Jamaica eles eram chamados de “selector”) que reuniam multidões de pessoas para ouvir e dançar. Logo se criaram competições como duelos entre sistemas de som. Com os enormes alto falantes das caixas de som podia se sentir a potencia dos graves. Isso foi um dos motivos da enfase na seção rítmica das músicas, destacar os graves.

Assim, para suprir a necessidade dos sistemas de som de músicas exclusivas, muitos produtores começaram a gravar dubs e prensar os chamados dubplates, discos com tiragem de apenas um exemplar. Os sistemas de som se tornaram algo tão próximo à realidade dos jamaicanos que acabaram aparecendo vários deles na Inglaterra e outro locais com colonias de imigrantes jamaicanos.

A música jamaicana nos anos 60: ska e rocksteady

Em meados dos anos 60 a música dominante na Jamaica era o ska, um ritmo dançante que surgiu no final da década anterior. O ska surgiu como uma mistura dos ritmos caribenhos do mento e do calipso com o rhythm & blues americano. Foi dominante na ilha até o meados dos anos 60 quando surgiu uma variação do estilo que ficou conhecido com o nome de rocksteady. Os músicos que criaram o rocksteady foram influenciados pelo jazz e especialmente pelo rhythm & blues americano, alem da música cubana e africana. Em relação ao ska era mais lento e trouxe a acentuação que se tornaria característica do reggae anos mais tarde. O rocksteady teve uma existencia curta, de apenas dois anos, mas foi importante porque em seguida servia como base para o surgimento do reggae.

A primeira gravação de reggae surgiu em 1968 com a música “Do The Reggay” do trio The Maytals, escrita por Toots Hibbert. Mais tarde a banda adotaria o nome de Toots And The Maytals e se tornaria um dos grandes nomes do reggae.

O reggae dispensou todas as pretensões de um som suave e o uso de metais que eram influencias do rhythm & blues americano e ao invés disso incorporou elementos do funk, trazendo a enfase para o aspecto mais rítmico. O Wailers, banda de Marley, foi uma das bandas que passaram por todos os estágios: iniciou-se no ska, passou pelo rocksteady e finalmente para reggae. O primeiro album dos Wailers com a sonoridade do reggae foi “Soul Rebels” de 1970, um disco produzido por Lee “Scratch” Perry.

O clima político na Jamaica nos anos 60

O reggae se tornou um estilo extremamente popular na Jamaica e logo essa música começou a ser ouvida por outros países, especialmente no Reino Unido. O reggae era a expressão do povo pobre dos guetos da Jamaica. Era a música das comunidades da cultura caribenha. A Jamaica foi uma colonia britanica até 1962.

Inicialmente fez parte do Império Espanhol, tendo passado às mãos do Império Britanico em 1655 durante a guerra Anglo-Espanhola. A independencia do país se deu em 6 de agosto de 1962. A Jamaica se tornou uma democracia parlamentar e uma monarquia constitucional, sendo que a rainha Elizabeth II é a monarca e o chefe de estado jamaicano. Essa é a mesma condição de outros quinze países como Canadá, Nova Zelandia e Austrália.

Nos primeiros dez anos de independencia a Jamaica teve governos conservadores, com um considerável crescimento economico, mas que não se viu refletido nas camadas mais pobres como se constatou nos perigosos guetos de Kingston. Nas partes mais pobres de Kingston viu-se o surgimento da figura do rude boy, associado a jovens descontentes e violentos. Os rude boys se vestiam de maneira peculiar, com chapéus, ternos e gravatas estreitas, mostrando a influencia dos músicos de jazz e soul americanos. Naquela época rude boys podiam ganhar dinheiro trabalhando para operadores de sistemas de som para sabotar os selectors rivais. Essa prática de violencia feita pelos rude boys logo começou a ser tema de várias músicas. Essa figura foi depois revivida no movimento de revitalização do ska que aconteceu na Inglaterra no final dos anos 70.

Desse modo, desde o início da independencia da ilha, houve uma polarização entre a direita e a esquerda, se materializando em muitos episódios de violencia. Muitos assassinatos foram cometidos por conta dessa polarização. Uma das vítimas dessa situação foi o maior astro do reggae, Bob Marley. O cantor era apoiador de Michael Manley, líder do People’s National Party (PNP), então primeiro ministro em um governo de caráter social democrata. A casa de Marley foi invadida por pistoleiros defensores do candidato opositor a Manley. Marley estava ensaiando com seu grupo e escapou por pouco da morte. Ele levou um tiro no braço esquerdo e sua mulher Rita um tiro de raspão na cabeça. Manley era um defensor de Fidel Castro, com tendencias socialistas. Por isso a CIA interveio na Jamaica municiando a direita representada pelo partido JLP com armas.

Em 1980 o JLP assumiu o controle do país, desfazendo todas os avanços dos governos de esquerda e aplicando uma nova política neoliberal, algo que se refletiria na música jamaicana, com novos artistas despolitizados e de som abertamente comercial.

Marley, Peter Tosh, Burning Spear, Dennis Brown, Horace Andy, Abyssinians, Black Uhuru, Steel Pulse, Culture e Max Romeo foram alguns dos maiores nomes do chamado roots reggae, a primeira e mais importante geração do reggae, música que denunciava a repressão, luta contra o fascismo e o capitalismo e opressão racial. Advogava tambem a liberação dos negros e a revolução e o culto a Deus, na figura de Jah pelos rastafaris.

Os pioneiros do dub: King Tubby

King Tubby, nascido Osbourne Ruddock, começou sua carreira como engenheiro de som. Seu trabalho nos estúdios elevou o papel do engenheiro de mixagem ao mesmo status reservado para os compositores e músicos. A ele se atribui o papel de um dos criadores do conceito de remix, que se tornou importante na música dance e na música eletronica. Ele é frequentemente comparado a produtores como George Martin e Phil Spector. Mas as conquistas de King Tubby são ainda maiores quando se constata que tudo o que ele desenvolveu foi sob condições extremamente humildes, com equipamento limitado e antiquado.

Como Tubby era um eletricista que conhecia seu ofício ele foi capaz de construir, reparar e modificar componentes de modo que poucos seriam capazes de fazer, fazendo com que seus equipamentos funcionassem melhor que suas limitações originais e obter efeitos e sons únicos.

Em 1968 Tubby começou a trabalhar com Arthur “Duke” Reid, operador do Trojan Sound System. Tubby começou a fazer remixes de canções de sucesso inicialmente apenas removendo os vocais. Depois disso mudou sua enfase, adicionando outros instrumentos e efeitos sonoros. Em 1971 ele iniciou o seu próprio sistema de som que, em pouco tempo, se tornou um dos mais populares de Kingston.

King Tubby trabalhou com inúmeros artistas, Bunny Lee, Lee Perry, Augustus Pablo, Horace Andy e muitos outros. O seu dub mais famoso e aclamado é “King Tubby Meets The Rockers Uptown” de 1974. Este disco foi gerado a partir da canção “Baby I Love You So” de Jacob Miller. Tubby adicionou a melodica de Augustus Pablo e a bateria de Carlton Barrett, que foi regenerada inúmeras vezes, criando um ritmo totalmente novo chamado de “rockers”. Foi depois incluida no LP tambem chamado de “King Tubby Meets Rockers Uptown” creditado a Augustus Pablo.

King Tubby foi vitima de um assalto e morreu em 6 de fevereiro em frente à sua casa em Duhaney Park, Kingston, quando voltava de uma sessão em seu estúdio.

Conclusões

Um comentário de Sister Stellah do movimento Rastari no Reino Unido sintetiza: “dub para mim enfatiza e define momentos chave da minha juventude durante a complexa era dos anos 80…o lado A de um disco me fazia acordar com seus comentários sociais, mas era o lado B que despertava o meu ser, uma força quase elétrica. É a linha de baixo, ela espanta toda negatividade…e permite espaço para idéias magníficas, de esperança para meu povo.”

Nos anos 80 o reggae perdeu espaço para formas mais comerciais como o dancehall. Do mesmo modo o dub tambem perdeu sua razão de existir com o desenvolvimento das novas tecnologias. O dub surgiu como um subgenero do reggae, mas seu desenvolvimento foi totalmente distinto do reggae. Ambos estilos tiveram seu auge no mesmo período, entre 1972 e 1980, quando eram uma verdadeira expressão do seu povo. A partir deste momento houve uma mudança na política na Jamaica, que se expressou em sua música trazendo a dominancia do dancehall, uma música comercial e pouco radicalizada expressão do neoliberalismo implantado na Jamaica pelo governo de direita.

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