Acordo necessário
O acordo ficou conhecido pela dureza imposta pelas potências centrais á Rússia, mas foi importante para a saída da Rússia da guerra e a continuidade da Revolução de 1917.

Por: Redação do Diário Causa Operária

O tratado de Brest-Litovski foi um acordo de paz entre o novo governo Bolchevique e as potências centrais, como Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Bulgária e Império Otomano. Assinado em 3 de março de 1918, na antiga cidade Brest-Litovski, atualmente na Bielorrússia, o acordo ratificou a saída da Rússia da Primeira Grande Guerra (1914-1918), além de ter anulado todos os acordos da Rússia com seus aliados e perdoado dívidas com o Império Otomano.

O acordo ficou conhecido pela dureza imposta pelas potências centrais contra a Rússia, que perdeu muitos territórios e perdeu o controle sobre a Finlândia, Polônia, Bielorrússia, Ucrânia e Países Bálticos. Estes territórios continham um terço da população russa, além de mais da metade de sua indústria e 90% de suas minas de carvão. Leon Trótski, comandando as relações exteriores do novo governo revolucionário, pressionou a França e o Reino Unido para que iniciassem o processo de paz. Lênin chamou o tratado de “paz vergonhosa”. Mas por que a Rússia assinou esse tratado?

A Revolução Russa de 1917, a principal revolução do século XX, ocorrida no final da guerra, foi a grande impulsionadora para a retirada da Rússia do conflito. A guerra era muito impopular e estava ocasionando muitas mortes (cerca de quatro milhões) e trazendo sérios impactos econômicos e sociais ao país. A Rússia havia entrado na guerra por questões chauvinistas que envolviam a região dos Balcãs, cuja Bósnia fora anexada pela Áustria-Hungria lá nos idos de 1908.

Desde o início do século XX existia na Rússia um movimento de características imperiais chamado pan-eslavismo, no qual a Rússia defendia a emancipação de todos esses povos eslavos de outros impérios, que deveriam ficar sob o controle dos czares. O controle por essa região era disputado pelos austro-húngaros e os russos. O estopim da guerra se deu quando um nacionalista bósnio, integrante desse movimento nacionalista da Sérvia, assassinou o herdeiro do império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando. Em reação, o império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia em 29 de julho de 1914. Como a Sérvia era aliada da Rússia, esta mobilizou suas tropas para defender os sérvios, dando início assim à formação das demais alianças e o começo da Grande Guerra de 1914.

A Guerra deu lugar a uma das maiores rupturas da história do movimento operário mundial. A social-democracia já vinha sendo pressionada há anos pela pequena-burguesia e se distanciando dos trabalhadores. Nos debates sobre a participação ou não de seus respectivos países na Guerra, a ala direita da social-democracia revelou seu verdadeiro caráter chauvinista e traidor da classe operária, ao defender uma guerra entre as burguesias de cada um dos países imperialistas pelo controle do mundo, isto é, pela guerra que colocava a classe operária de cada país como bucha de canhão de seus respectivas burguesias imperialistas. Os bolcheviques e alguns outros grupos autenticamente revolucionários, como os alemães Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, mantendo a política internacionalista, denunciaram fortemente as posições social-chauvinistas e romperam com a II Internacional, dominada por esses partidos oportunistas.

O desempenho da Rússia na guerra não foi positivo. No primeiro ano o país foi bem no combate contra os otomanos e austríacos, mas muito negativo contra as tropas alemãs, que mataram muitos russos e penetraram em seu território, ameaçando grandes cidades como Petrogrado. Essa situação levou a uma tremenda crise social e humanitária. Os trabalhadores, camponeses e soldados não aguentavam mais a situação e a palavra de ordem levantada pelos bolcheviques de “Pão, Paz e Terra” foi ouvida por todo o país. Impopular desde o início, a participação da Rússia na guerra teve fim com o surgimento da Revolução Socialista em outubro de 1917, sob o comando dos bolcheviques, uma vez que a Revolução de Fevereiro que empossou o Governo Provisório pequeno-burguês de Kerenski havia mantido o país na guerra.

Criada uma comissão para negociar a paz com a Alemanha, Leon Trótski liderou essa comissão. Como Grã-Bretanha e França, estimuladas pela Rússia a por fim à guerra, não cessaram o conflito, a Rússia iniciou sua retirada de maneira isolada e independente. Iniciadas em dezembro de 1917, as negociações levaram os russos a aceitarem um injusto mas necessário acordo com as potências centrais em 03 de março de 1918.

Os termos incluíram o fim das hostilidades entre Rússia, Alemanha, Áustria-Hungria, Bulgária e o Império Otomano; a perda dos territórios da Finlândia, Bielorrússia, Ucrânia, Polônia e Países Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia); e Geórgia, Azerbaijão e Armênia ficariam independentes, além da recuperação pelo Império Otomano de alguns territórios perdidos para os russos no século XIX.

Esse injusto tratado, que levou a Rússia a perder territórios, reservas de carvão, petróleo e prejudicar sua infraestrutura industrial, não durou muito tempo. Com a derrota da Alemanha na guerra, o tratado perdeu validade, sobretudo após a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919, outro injusto tratado imperialista que, agora, humilhou a Alemanha, assim como o de Litovski havia humilhado a Rússia.

A Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia se tornaram independentes após a Primeira Guerra Mundial, mas a Bielorrússia e a Ucrânia, após se envolverem na Guerra Civil Russa em 1918-1921, voltariam a ser anexadas ao território russo tempos depois, ficando independentes definitivamente somente após a desintegração da URSS em 1991.

A assinatura do Tratado de Brest-Litovski, apesar de toda injustiça em seus termos, foi de fundamental importância para a saída da Rússia do conflito imperialista, que estava matando milhares de russos e intensificando uma crise sócio-econômica gigantesca. No final das contas, foi um acordo que possibilitou uma retomada das forças políticas e militares da Rússia Soviética para reagir à posterior invasão imperialista de 14 países e a guerra civil que durou até 1921, com a vitória do governo revolucionário sobre a contrarrevolução.

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