stalinismo
O stalinismo foi termidor soviético apoiado na burocracia
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stalin | arquivo

A Revolução Russa foi a  “quebra da cadeia capitalista no seu elo mais fraco”, segundo a expressão do revolucionário russo Vladimir Lênin. Isso significou que não somente era possível a revolução socialista em um país atrasado, mas com a exacerbação das contradições capitalistas pela I Guerra Mundial fomentava concretamente as condições necessárias para que os trabalhadores conquistassem o poder em país de desenvolvimento retardatário em relação aos países capitalistas centrais. A conjectura fundamental da Revolução Permanente elaborada por Leon Trótski transformou-se em prognóstico histórico realizado.

Entretanto, o governo revolucionário saído da Revolução de Outubro em 1917, que teve que travar uma feroz guerra civil contra os exércitos brancos, apoiados por 14 países, sempre colocou a conexão necessária entre a continuidade da ditadura do proletariado na Rússia e o desenvolvimento da revolução mundial.

Nem Lênin nem nenhum bolchevique jamais conceberam que a Rússia, um país semifeudal, com um atraso colossal nas relações sociais e ao desenvolvimento capitalista, poderia de maneira isolada “realizar o socialismo nas suas fronteiras nacionais”. Além do mais, devido a interdependência cada vez maior entre as nações na economia mundial na época imperialista, e devido a escala global das forças produtivas, o socialismo somente seria efetivamente concluído em escala internacional.

Neste sentido, um aspecto fundamental da política bolchevique sempre foi o impulso da revolução mundial, entendendo inclusive a luta pela construção da URSS como parte desse processo mundial.

Devido a essa perspectiva revolucionária internacionalista, em 1919, é constituída a III Internacional como parte da continuidade da política marxista. Essa luta internacionalista foi abandonada pela II Internacional, pois, em 1914, os partidos social-democratas adotaram uma posição chauvinista e apoiaram as suas respectivas burguesias nacionais no esforço de guerra, abdicando a máxima do Manifesto Comunista, “operários do mundo uni-vos”.

O estabelecimento da teoria do socialismo em um só país representou o abandono da perspectiva internacionalista revolucionária pela burocracia do termidor soviética. A III Internacional, de um organismo da revolução mundial, se transformou em um instrumento da política externa da burocracia que controlava o estado soviético, e sacrificava a luta revolucionária em nome dos interesses dessa mesma burocracia.

Para entender como a burocracia realizou essa importante revisão não somente da política bolchevique quanto do marxismo, é importante entender o impacto que teve a estabilização momentânea do capitalismo em 1924, devido as derrotas revolucionárias, e como o isolamento da revolução russa será um fator decisivo para a dominação do stalinismo na URSS.

A derrota da Revolução Alemã e o socialismo em um só país

Em outubro de 1923, a tão esperada Revolução Alemã foi definitivamente derrotada, e o ciclo revolucionário que tinha se iniciado com a derrubada da monarquia em novembro de 1918, que tinha ocasionado as derrotas revolucionárias em Berlim e na Baviera em 1919, e no putsch fracassado de 1921, era fechado.

Do ponto de vista econômico, a intervenção massiva do capital norte americano na Europa e a adoção do chamado Plano Dawes na Alemanha, com sua subsequente estabilização irá colocar em relevo que a noção de que a crise provocada pela guerra Interimperialista desembocaria em uma onda revolucionária que arrastaria os principais países capitalistas europeus em poucos anos parecia completamente improvável.

Assim, a derrota da revolução alemã em 1923, bem como o fracasso um pouco antes na Bulgária e em Reval (Estônia) tiveram um impacto extremamente negativo na URSS. Esses acontecimentos, em especial o alemão, fomentou a noção de que o isolamento da Revolução Russa não seria superado de imediato, e que, portanto, colocava em relevo um profundo ceticismo. Esse pessimismo sobre as possibilidades da revolução mundial alimentou e reforçou a política da burocracia de “socialismo em só país”.

“a causa fundamental da crise da Revolução de Outubro é o atraso da revolução mundial, que tem como causa uma série de derrotas terríveis do proletariado” (TROTSKY, L. A III Internacional depois da morte de Lênin).

A economia capitalista mundial estava sendo dinamizada pela emergência dos Estados Unidos, um novo centro dinâmico, entretanto, como será visto logo em seguida em 1929, e na década de 1930, as contradições do capitalismo não foram superadas, mas serão inclusive amplificadas, que provocaram não a  estabilização definitiva, mas o aumento da instabilidade de maneira ainda mais aguda.

De qualquer forma, em 1924, a derrota do outubro vermelho na Alemanha indicava uma mudança desfavorável na correlação política de forças entre as classes.  Nestas condições, a burocracia que havia adquirido uma série de privilégios no Estado operário, aproveitando-se do refluxo para relegar a revolução internacional e apresentar como “realista” a política de concentrar toda a atenção nos “problemas internos”. Stalin e Bukharin defendiam a substituição da bandeira da revolução internacional pelo slogan de “socialismo em um país”.

O slogan adaptado aos interesses matérias da própria burocracia indicava que “a revolução proletária não estava mais na ordem do dia por um período incalculável”, e que a tarefa seria desenvolver inclusive o setor privado interno na economia, fomentando o que Bukharin chamava de “socialismo a passo de lesma” e, segundo a nova doutrina, até mesmo os camponeses ricos “Kulats” seriam absorvidos no socialismo em um só país.

Diante das críticas da oposição de esquerda que iam se formando em torno de Trótski, a burocracia que, àquela altura, era completamente cética sobre a possibilidade de um desenvolvimento socialista efetivo, pois rejeitava até mesmo a mais modesta proposta de industrialização da URSS, sem falar da negação das possibilidades revolucionárias internacionais, classificava de “pessimista” a crítica de Trótski sobre a possibilidade do socialismo em país isolado. Classificando ainda como “aventureira” até mesmo qualquer referência à luta por uma revolução internacional, condenando como “tagarelice infernal” e como “trotskismo” o que no fundo era a política internacionalista revolucionária, um dos pontos nevrálgicos do bolchevismo. 

Stalinismo, o termidor soviético

O atraso econômico da Rússia, as mazelas sociais amplificadas com a feroz guerra civil (1917-1921) e o isolamento provocada pelas derrotas revolucionárias são fatores que reforçaram a burocratização da URSS.

A burocracia que ia se apossando do Estado era profundamente contraditória, pois para manter seus privilégios, enquanto casta parasitária da ditadura do proletariado, colocava obstáculos para o avanço da revolução, ao mesmo tempo em que defendia, ainda que parcialmente, as conquistas da revolução para manter a fonte dos seus rendimentos.

“as bases da dominação burocrática vinculam-se à pobreza da sociedade em artigos de consumo e na competição que daí resulta. Quando há mercadoria suficiente numa loja, os compradores podem vir quando querem. Quando há pouca mercadoria, os compradores devem permanecer num fila. Quando as filas são muito longas, é necessário um policial para manter a ordem. Tal é o ponto inicial do poder da burocracia soviética”. ( TROTSKY,L. A Revolução Traída)

Em consonância com essa situação contraditória, a burocracia era incapaz de compreender plenamente a situação, sendo que o setor centrista da burocracia, que se agrupou em torno de Stalin para manter e conquistar mais posições de poder, foi sendo empurrada para ações empíricas que brutalmente eliminaram a vanguarda do proletariado.

A burocracia foi fiadora e beneficiada da ascensão de Stalin no controle do Partido Bolchevique e no aparato estatal da URSS. Na luta interna no Partido Bolchevique, antes de promover os expurgos dos revolucionários, Stálin foi tecendo os fios condutores de uma máquina administrativa e política que estabeleceu um controle rígido do partido e do Estado, distribuindo funções, nomeando e retirando pessoas em funções e cargos no aparelho estatal. A acumulação nas mãos de Stalin de cargos chaves no controle da máquina depois da guerra civil foi determinado para a liquidação da vanguarda revolucionária.

“Stálin se apossou firmemente de todas as alavancas de poder e assim que os oponentes, despertando para seu papel, tentaram removê-lo da posição dominante. Mas, já então, era irremovível.  Três das funções que desempenhava logo depois da guerra civil foram de decisiva importante: era comissário das Nacionalidades, comissário da Inspeção Operária e Camponesa e membro do Politburgo” (DEUTSCHER, Issac. Stalin, uma biografia política, p.253)

Na Comissão de Nacionalidades, Stalin lidava com as questões praticas do funcionamento das repúblicas que constituíam a URSS. A periferia asiática e semi- asiática foi o primeiro grande domínio do aparato stalinista. Por sua vez, a comissário da Inspeção Operária e Camponesa ( chamada de Rabkrin) que foi criada com a pretensão de evitar a corrupção e burocratização na administração pública soviética, herdeira da tzarista, passou a ser um importante instrumento de “ fiscalização”, permitindo ao aparato stalinista um controle sobre o funcionário público, desde do mais alto posto até a localidade mais remota.

Fazendo uma analogia com a Revolução Francesa, Trótski classificou o que aconteceu na Revolução Russa, com a ascensão de Stalin, como uma reação termidoriana, isto é, uma reação que destruiu a ala esquerda da revolução, sem, contudo, reverter as conquistas sociais criadas pela revolução.

A tirania de Stalin, de fato, não foi criticada por ser brutal simplesmente, mas por ser representante de uma camada social, que como uma força política exterminou os principais dirigentes do partido operário que fez a revolução.

“O stalinismo é a principal corrente revisionista do marxismo da história. Stálin revisou o marxismo ao sabor dos acontecimentos políticos e é estranho a qualquer programa e doutrina. O stalinismo é pura e simplesmente uma degradação sistemática do marxismo, sem coerência doutrinária, variando, ao depender dos interesses políticos, entre a extrema-direita e a extrema-esquerda.” (PIMENTA, Rui Costa.   o que foi o stalinismo).

Um equívoco cometido tanto pelos defensores como pelos detratores do stalinismo foi não compreender que o stalinismo, como fenômeno ligado ao desenvolvimento histórico da URSS, passou por diferentes etapas, com diferentes políticas. O stalinismo nunca foi o “marxismo-lenismo” como apresentado pelo próprio Stalin, nem uma força política coerente ideologicamente.

A luta travada entre Trótski e Stalin não foi simplesmente um embate entre duas personalidades. Além do mais, o stalinismo não é tão pouco uma corrente entre outras do marxismo, um ” marxismo autoritário” em abstrato. O enfrentamento de Trótski contra a burocracia stalinista foi  a luta do setor revolucionário contra a degeneração do Partido Bolchevique.

“Nossa época de crise, com seus saltos abruptos e seu ritmo febril, consome rapidamente aos homens e partidos. Aqueles que ontem representaram a revolução tornam-se hoje os instrumentos da mais obscura reação. Esta luta entre a direção do processo histórico e seu pesado grilhão, assumiu sua forma mais dramática no duelo entre Trotsky e Stálin, precisamente porque se desenrolou sob a base de um Estado operário já estabelecido. Trotsky – levado ao poder pela explosão revolucionária das massas, passou a ser perseguido e ameaçado, quando as derrotas do proletariado se sucederam converteu-se na encarnação mesma da revolução. ” (HEIJENOORT, J. Lev Davidovich)

A partir de determinado momento, as crises internas e as pressões internacionais obrigavam a burocracia a alterar sua política. Essas mudanças se expressavam inclusive na reorientação da linha política adotada na III Internacional, que tinha se transformada em um instrumento da política da burocracia. Na maioria dos casos, as mudanças se realizam de maneira abrupta, e em direções erradas.

Assim, o desvio de direita da Internacional Comunista sob a direção de Bukharin, que levou ao fracasso da Revolução Chinesa em 1927, é substituído pelo desvio ultraesquerdista do terceiro período a partir de 1928, que contribuirá para a ascensão do nazismo na Alemanha. Ambas as políticas são ditadas não pela necessidade de impulsionar a revolução mundial, mas relaciona-se com os interesses da burocracia, e com as disputas no aparato de poder na URSS.

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