“O roubo da história”: EUA sabotam comissão para recuperar obras de artes roubadas por nazistas

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Confiscar obras de arte era para os nazistas tão importante quanto as vitórias militares; artista frustrado, Hitler escondeu em lugares como minas de sal milhares de peças e tinha planos de construir um gigantesco museu. O livro “O Museu Desaparecido – A Conspiração Nazista para Roubar as Obras-Primas da Arte Mundial”, trad. Silvana Cobucci Leite, WMF Martins Fontes, de Héctor Feliciano, ilumina em detalhe o funcionamento da máquina nazista de espoliação.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas criaram uma rede destinada ao roubo sistemático de museus e coleções privadas de toda a Europa e à transferência das obras subtraídas para a Alemanha para aumentar os acervos do museu de arte europeu que Hitler planejava formar. Héctor Feliciano teve acesso a documentos recentemente disponibilizados e entrevistou pessoas vinculadas com o espólio, para investigar o destino da arte roubada. Suas pesquisas permitiram localizar mais de duas mil obras desaparecidas e seu livro suscitou uma polêmica internacional sobre este espinhoso tema.

Estima-se que partidários de Hitler confiscaram 16 mil obras de arte na guerra. Descoberta de 1.406 peças de mestres como Picasso e Matisse, avaliadas em R$ 3 bilhões, é a mais importante até agora.

Em contrapartida, os proprietários dessas obras, iniciaram um movimento com manifestações públicas de repúdio a esse saque, para que pudessem recuperar seus valiosos bens.

É “o maior roubo da história” – como afirmou o diplomata e advogado americano Stuart Eizenstat numa conferência sobre arte saqueada pelos nazistas realizada em Berlim –, mas o tema é muitas vezes varrido para debaixo do tapete.

Eizenstat foi há 20 anos um dos responsáveis pela aprovação de uma declaração durante a Conferência do Holocausto em Washington. O documento estabelece que obras de arte saqueadas pelos nazistas sejam identificadas e devolvidas a seus originais donos o mais rápido possível. Naquela época, representantes de 44 países concordaram em inspecionar seus próprios acervos de museus. O acordo foi considerado revolucionário.

Mas 20 anos depois, Marc Masurovsky considera a declaração fracassada. O historiador é cofundador do Projeto de Pesquisa de Arte do Holocausto (Harp, na sigla em inglês), entidade fundada em Washington em 1997. A tarefa da instituição é a pesquisa em arquivos. Mas involuntariamente Masurovsky se tornou um ativista da restituição de obras de arte. “Eu consigo citar de cabeça uma dúzia de pessoas que entraram com processo e ainda não conseguiram justiça”, diz.

O tema da pesquisa, que busca a origem das obras no próprio acervo, foi durante décadas um tabu após o fim da Segunda Guerra, em 1945. Diretores de museus de toda a Europa não estavam interessados em saber se suas coleções continham objetos retirados de seus verdadeiros donos entre 1933 e 1945, durante a perseguição nazista.

Também legalmente, não havia direito a restituições. Na Europa, os direitos privados de propriedade sob a lei nacional estavam quase todos prescritos. A liberação de objetos não é mais obrigatória depois de 30 anos, de acordo com o código civil na Alemanha. Na França, as leis sobre bens culturais proíbem a retirada de obras de arte de coleções estatais.

De acordo com um relatório de 2014 da Conferência do Holocausto de Washington, a maioria dos Estados que assinaram os Princípios de Washington, em 1998, desde então não fizeram praticamente nada. Apenas cinco dos 44 países – Alemanha, França, Holanda, Áustria e Reino Unido – obedeceram o pedido de formação de “comissões para a resolução de casos polêmicos de arte saqueada pelos nazistas”.

Nos EUA, fracassaram todas as tentativas de se estabelecer uma instância responsável por intermediar entre museus e requerentes, o que faz que herdeiros tenham que pagar do próprio bolso os caros processos judiciais necessários na tentativa de reaver obras roubadas da família.

Não me admira que estas questões dê com os burros n´agua nos EUA, onde o apoio da sociedade estadunidense a nazistas vem desde o surgimento do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, em 1920, e que apesar de intermitente, durou pelo menos até as primeiras décadas do século XXI, e tem uma influência muito forte em sua política desde então.

Além do que, a Associated Press inspirou Goebbels a fazer sua propaganda na Alemanha e recebeu material do próprio para formular suas manchetes, o que se adequou, pois naquele país não havia a distinção entre propaganda (no sentido de poder escolher o formato da propaganda a fazer) e publicidade (no sentido de ser pago para faze-lo) ao contrário dos países anglo-saxões industrializados da época. O jornal foi o único do mundo ocidental a poder continuar operando no país até o Ataque a Pearl Harbor em 1941. O próprio Hitler também admitiu que os campos de concentração foram inspirados das reservas indígenas norte-americanas. A noção de guerra humanitária foi copiada dos nazistas durante a segunda guerra mundial e o nazismo se tornou parâmetro para que lideranças norte-americanas critiquem o uso de armas químicas muito embora os Estados Unidos planejaram usar armas químicas contra o nazistas e afiliados.

A Fundação Rockefeller financiou o programa eugenista de Joseph Mengele e em 1934 eugenistas norte-americanos organizaram uma feira científica para recepcionar os médicos higienistas alemães além do fato de que estas pesquisas serviram de inspiração para a criação das leis de Nuremberg. A família Rockefeller através do Chase Bank é também investigada por guardar dinheiro que nazistas tomaram de judeus franceses na Suíça ainda durante a Segunda Guerra. Heinrich Himmler declarou que Ford era como “um dos nossos mais valiosos e importantes, combatentes espirituosos” depois de receber financiamento dele na campanha eleitoral de 1933, e Walt Disney apoiou ativamente o nazismo. O vice-presidente das relações exteriores da GM, James D. Mooney, recebeu condecorações similares a dele, como no caso da Ordem de Mérito da Águia Alemã de 1.ª Classe dele. O próprio Hitler reverenciava Ford, mantendo um retrato dele em seu gabinete, além de desejar colocar as suas ideias em prática na Alemanha.

Também, grandes movimentos religiosos novos dos Estados Unidos apoiaram a perseguição do governo da Alemanha Nazi a homossexuais.

O governo Trump, em 2017, cortou incentivos fiscais a ongs antinazistas dos Estados Unidos e de desradicalização deste movimento alegando nada após o episódio, e o mesmo usou de um lema fascista dos anos 20 para sua campanha eleitoral.

São profundas as raizes com nazismo e o fascismo existentes nos EUA. Não dá pra concluir outra coisa senão que os herdeiros das obras de arte roubadas pelo nazismo vão ter que esperar muito tempo para conseguir alguma coisa, e tempo é o que eles não têm.