O racismo de um ator justifica a censura de um filme?

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No início desse ano, foi lançado, nos Estados Unidos, o filme “Vingança a sangue frio”, dirigido pelo cineasta norueguês Hans Petter Moland. No Brasil, o filme estava agendado para ser lançado no dia 14 de fevereiro, mas teve sua estreia adiada por causa de uma entrevista dada pelo ator Liam Neeson, que faz o papel principal do filme.

Em entrevista ao jornal The Independent, Liam Neeson afirmou que já teve vontade de matar um negro apenas para se vingar de um crime cometido contra sua amiga. O ator contou que havia perguntado a uma amiga que fora estuprada quem havia sido o responsável pelo crime. Como ela não soube responder, Neeson perguntou: “e de que cor era o responsável?”. A partir de então, Liam Neeson passou uma semana andando com uma barra de ferro a procura de algum negro para assassinar.

Não há dúvidas de que as declarações de Liam Neeson são racistas. No entanto, sabotar o filme como um todo não resultará em nenhum avanço para a luta do negro. Além disso, abrirá uma prerrogativa para que qualquer filme seja censurado no futuro, mesmo se não houver qualquer caso real de racismo envolvido.

Após a crise econômica de 2008, o imperialismo vem impondo  regimes políticos cada vez mais antidemocráticos pelo mundo. A política dos banqueiros, que é a política de exploração dos trabalhadores e assalto às riquezas nacionais, é totalmente repudiada pela classe operária mundial, de modo que é necessário que a burguesia crie mecanismos para controlar e reprimir todo tipo de manifestação contrária a seus interesses.

O caso do filme chama a atenção porque o motivo da censura teria sido o ataque ao povo negro, que é tradicionalmente defendido pela esquerda mundial. Essa, na verdade, sempre tem sido a tática da direita: fazer demagogia com as pautas da esquerda para abrir precedentes para a censura e a repressão. No Brasil, páginas do Facebook ligadas ao grupo fascista MBL ao guru da extrema-direita Olavo de Carvalho foram censuradas, resultando na comemoração de alguns setores da esquerda nacional. Pouco tempo depois, em plena campanha eleitoral, a esquerda passou a ser censurada na internet.

Qualquer ataque contra o povo negro deve ser denunciado pela esquerda e combatido duramente pelo movimento negro e pelas organizações es luta dos explorados por meio de sua organização e da força. Permitir que o Estado burguês ou qualquer outra instituição controlada pela burguesia censure filmes ou qualquer outro tipo de atividade cultural é dar mais poder para que a direita impeça os explorados de exercerem sua liberdade de expressão.