Os editoriais do ‘Estadão’
Os dois principais jornais brasileiros cumprem papéis diferentes na luta política. O diário da família Mesquita é porta-voz dos interesses da principal ala da classe dominante
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Hoje manifesto, libelo, panfleto... amanhã, embrulho de peixe, banheiro de cachorro, fundo de gaiola | Google

Comecei criança, com as tirinhas e matérias no “Estadinho” aos domingos. Na adolescência, no “Caderno 2”, as tirinhas ganharam a companhia de música, arte, cinema. As matérias de ciências, particularmente sobre o espaço sideral, e informática me fizeram percorrer outros cadernos que meu pai descartava quando lia os classificados. Quando criança, nunca li um editorial do “Estadão”. Ao despertar para a política e dar-me conta da sua existência, no entanto, todo o resto perdeu o brilho.

Foi nos editoriais e nas páginas de política que encontrei a verdadeira “voz” de quem está por trás d’O Estado de S. Paulo. Para aprender alguma coisa, para entender o que a burguesia está pensando e o que ela quer, é preciso primeiro aprender a ler a imprensa burguesa. Raramente as coisas são ditas preto no branco, nem sempre sim quer dizer “sim”, nem sempre não quer dizer “não” e os “talvez” são quase todos certezas. Rodeios e alusões, palavras que não dizem o que realmente querem dizer, são o expediente mais frequente. Vejamos alguns exemplos.

O jornal declarou seu voto em José Serra (PSDB) nas eleições que foram vencidas por Dilma Rousseff em 2010. Por acaso o jornal da família Mesquita teria feito campanha para Lula em 2002 e 2006? Não. Óbvio que não. O jornal nunca escondeu sua posição direitista e conservadora. Lula – ou, mais precisamente, a possibilidade dele voltar ao governo oito anos depois – era o “mal a evitar“.  Em 2009, falavam da “aprovação de reformas fundamentais para o progresso do País”. A vitória de Serra iria reconduzir o Brasil ao “desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos“, mas a popularidade de Lula não permitiu. Dilma Rousseff foi eleita e restou-lhes aguardar a vez durante mais quatro anos. O editorial das eleições de 2010 procurava “dar a linha”, orientar as outras camadas da burguesia e da pequena burguesia. Evitar a vacilação e disputar no voto a última chance do PSDB voltar ao governo sem elevar a temperatura no ataque a Lula, Dilma e o PT.

Em 2014, a situação já era outra e a campanha para derrubar o governo Dilma Rousseff estava em pleno andamento. O editorial “A hora da razão” falava, no dia da votação, da “estonteante incompetência” de Dilma Rousseff, das “façanhas lulopetistas” e do “fracasso retumbante” que foi, para eles, o terceiro mandato do PT. A alternativa? O PSDB, claro: “Eleito, Aécio Neves estará aglutinando um bloco de parlamentares, técnicos e homens de pensamento e ação, capazes de remover da administração pública e da política os vícios nelas implantados pelo lulopetismo – e capazes, também, de colocar o Brasil novamente no rumo do crescimento sustentado e responsável

Em 2018, a disputa entre Bolsonaro e Haddad era “uma escolha muito difícil“. No primeiro turno, disse o jornal dos Mesquita: “A escolha precisa recair naquele candidato que se dispuser a alcançar alguma forma de compromisso mínimo, com todas as principais forças políticas, para garantir a governabilidade e a estabilidade. Isso não significa lotear o governo pelo maior preço, mas privilegiar apoios consubstanciados em honestidade, decência e competência. E a permanente lembrança de que quem se eleger governará todo o País, e não apenas sua patota”. Uma espécie de “programa mínimo”: vamos colocar alguém que consiga se segurar no poder, que esteja do nosso lado, ainda que não seja nossa principal escolha.

Curioso ver, 11 anos depois, como as coisas se desenrolaram e como o “Estadão” é consistente em suas posições. Quem está por trás das linhas aí publicadas? Nesses três momentos críticos das eleições, não faltaram menções do jornal aos bons tempos de responsabilidade, ética, desenvolvimento e progresso do governo FHC – ainda que o nome deste ex-presidente não tenha sido mencionado, para não espantar a freguesia. Ainda hoje falam nas tais reformas tão necessárias para o futuro do País. Que reformas? Bem… eles nunca falam delas abertamente, nem quando as chamam por seu nome. As reformas de que o jornal dos eleitores do PSDB tanto fala são as que não conseguiram fazer – ou levar até o fim – com o golpe dado contra Dilma e o breve governo Temer.

Para ler a imprensa burguesa, precisamos de um dicionário. Vejamos: “Reforma da Previdência” significa “fim da Previdência”. Ainda restou alguma coisa, querem um governo que seja capaz de eliminar completamente a assistência aos aposentados e dependentes. “Reforma fiscal” é “fim dos impostos sobre os grandes capitalistas, taxação dos pequenos empresários e sobretudo sobre o salário dos trabalhadores”. “Reforma política” deve ser traduzido para: “monopólio do poder político pelos partidos de confiança da burguesia e do imperialismo” ou ainda “se puder ser só ‘ARENA’ e ‘MDB’, pra nós, tá bom”. E “reforma trabalhista”, quando dita sem rodeios, é apenas “volta da escravidão”.

Agora, o Estado está com um abacaxi nas mãos. O governo que elegeram em 2018 é incapaz de fazer as tais reformas. Eles conseguiram, é certo, “alguma forma de compromisso mínimo” com as “principais forças políticas” (isto é, o centrão que, dito assim, nem parece composto por aquelas pessoas grotescas que o povo só descobriu quando declararam seu voto pelo impeachment em 2016). A governabilidade e a estabilidade, no entanto, estão profundamente comprometidas. Nem mesmo quem escreve acredita na “honestidade, decência e competência” de nenhum dos candidatos à sucessão de Bolsonaro. É esse o problema, uma vez mais: a sucessão presidencial. Depois de Bolsonaro, o que quer a imprensa burguesa?

Uma coisa é certa: não querem Lula, assim como recusavam a pessoa indicada por ele em 2010, 2014 e 2018. Preferem Doria e, para horror de quem lê e acredita no vigor “democrático” de jornais como o Estado de S. Paulo, até mesmo Bolsonaro é aceitável. Sim, pois a campanha que se desenrola em favor do impeachment do capitão fascista não é nada mais que uma campanha de propaganda política, pressão para tentar, desesperadamente, mesmo com um governo improvisado, capenga e que, por pior que seja, ainda é “deles”, dos donos da opinião pública no Brasil. Basta ler nas entrelinhas.

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