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Cesare Battisti está na prisão de Massama, em Oristano (Ilha de Sardenha), e seu caso está sendo cuidado pelo procurador adjunto de Milão, Alberto Nobili. Após a extradição, os principais assuntos de Cesare estão cingidos a sua relação com as instituições italianas, e não parece natural que notícias sobre ele continuem sendo de relevância para o Brasil, salvo para o grupo de seus apoiadores.

No entanto, as declarações de Battisti ao procurador no último sábado e domingo adquiriram uma forte difusão no Brasil, porém, passando antes por muitas distorções e misturadas com super-fake-news.

Qual é o motivo desta fraude?

A resposta é simples.

O Brasil está sob a controle de um grupo de figuras que representam tudo o que a humanidade tem de mais lamentável, e as instituições brasileiras, como consequência, se comportam em harmonia com essa barbárie, que inclui racismo, misoginia, ódio pela educação, ódio pelos trabalhadores, pelos doentes, pelos aposentados, pelas mulheres e por todos os outros grupos que não são nem ricos nem poderosas. Além disso, existem esquisitas aberrações que nem sequer existiam no pior período do nazismo: ensinar crianças a atirar desde os cinco anos com armas de verdade (“não de espoleta”, como diz o chefão), e também o enaltecimento de insanidades como tortura, estupro e  pedofilia (isto último aconteceu com o elogio ao histórico tirano pedófilo do Paraguai). Brasil é o único país em Ocidente que celebra o triunfo de uma das mais criminosas e perversas ditaduras da época moderna.

Neste contexto, o inimigo principal de nossos neonazistas de extrema direita é o ex-presidente Lula, encerrado pela máfia da Lava Jato e condenado sem provas nem indícios por um time de juízes, procuradores e afins ao serviço dos EUA. Eles são doentes das mais diversas formas de sadismo e psicopatia que encontraram vítimas até no irmão de Lula e no netinho recentemente falecido.

Aproveitando a extradição de Battisti, tem aparecido uma campanha para denigrar Lula, atribuindo a Battisti supostas denúncias contra o único líder popular que teve o Brasil em toda sua história.

Mas, vamos às super-fake-news.

Diversas publicações trash afirmam, em grandes manchetes, que Battisti usou falsa inocência para obter o apoio de Lula. Isto aparece em numerosos libelos, muito vendidos entre o público ignorante, preconceituoso e, normalmente, covarde (aqueles que aceitam com reverência e temor qualquer mentira propalada pelas elites).

  • A fake-frase sugere duas coisas: (1) Que Lula é um indivíduo torpe que não soube perceber “quem era Battisti” e (2) Que Lula seria “cúmplice” de Battisti ao apoiá-lo.

Os numerosos libelos que repetem esta afirmação mencionam a agência ANSA BRASIL como sua fonte. Por exemplo, os seguintes e muitos outros:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2019/03/25/battisti-diz-que-usou-falsa-inocencia-para-ter-apoio-de-lula.htm

https://www.gospelprime.com.br/battisti-diz-que-usou-falsa-inocencia-para-ter-apoio-de-lula/

https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/politica-economia/232403-istoe-battisti-diz-que-usou-falsa-inocencia-para-ter-apoio-de-lula.html#.XJsF55hKiUk

https://noticias.r7.com/internacional/battisti-diz-que-usou-falsa-inocencia-para-ter-apoio-de-lula-25032019

 

(Só no Brasil, há mais de 100 jornais e sites que repetem estes slogans, mas são todos iguais e não faz sentido mencionar todos.)

Veja alguns exemplos abaixo. Tanto mercadores de milagres como latifundiários difundem alegremente as imaginativas “notícias” de ANSA.

A síntese da notícia reproduzida em todos eles afirma isto:

Battisti teria declarado ao procurador Alberto Nobile que ele, em sua longa fuga da perseguição italiana, se havia “proclamado inocente” junto a governos e instituições e, em especial, haveria “fingido” inocência com Lula, para ganhar a proteção do Brasil. (Estou reproduzindo o teor de alguns desses veículos da mídia, mas o sentido da notícia era o mesmo em todos).

Embora ANSA seja a agência oficial de notícias da Itália, uma agência que fala de certos fatos deveria tomar como fonte os registros originais desses fatos. Não porque a agência seja italiana pode colocar como verdadeiras afirmações que os documentos originais italianos não contêm.

  • Aliás, por que não publicam uma versão xerográfica das oito páginas assinadas e carimbadas da declaração de Battisti em 22-23 de março?

Vejamos: como resultado da conversa de Battisti com o procurador Nobile, na presença do advogado Davide Steccanella, de seu sócio na equipe de defesa, e de uma representante da Direção de Investigações (DIGOS), foram redigidos dois documentos. Um é do dia sábado 23 de março.

Nesse documento do sábado Battisti descreve os episódios que aconteceram na Itália durante a década de 70, e não há qualquer referência ao Brasil. No dia seguinte, também nas dependências da prisão de Massama, o procurador Nobile voltou a conversar com Battisti e, desta vez, Cesare se referiu a suas viagens e sua estadia no Brasil.

Essa conversa gerou um segundo documento, datado o domingo 24 de abril:

Nesta conversa, que durou cerca de quatro horas, Battisti descreveu sua condição de fugitivo e fez um relato de sua vida e seus processos burocráticos em vários países, porém, mais especialmente no Brasil. Na página 2 do relatório oficial impresso, Battisti conta o que aconteceu depois de sua soltura pelo Supremo Tribunal Federal no Brasil, que aconteceu o dia 8 de junho de 2011.

Nesse relato, Battisti conta ao procurador Nobile qual era sua condição de imigrante no Brasil. Essa é a única vez, desde que Battisti chegou a Itália em janeiro deste ano, que ele menciona o ex-presidente Lula. Há exatamente duas menções a Lula que eu grifo na tradução do texto.

A referência a Lula aparece duas vezes apenas e em ambas a referência é puramente técnica e objetiva. Nada há nestas frases que possa ser interpretado como “cumplicidade” ou “ingenuidade” de Lula com Battisti. Uma interpretação deste estilo, ou semelhante, é totalmente disparatada.

De que fonte tomaram ANSA e seus seguidores essa manchete que aparece em dúzias de publicações? Será que ANSA teve acesso sigiloso ao procurador?

Que eu saiba, na conferência de imprensa de 25/03/2019, o procurador Alberto Nobile só fez algumas referências, muito breves, ao próprio texto de Battisti, repetindo textualmente suas próprias palavras. Os comentários próprios feitos durante a reunião com os jornalistas foram muito objetivos e apenas sobre temas importantes.

Se Nobili tivesse oferecido informação privilegiada a ANSA (o que parece improvável) sobre fofocas de Battisti sobre Lula, essa informação não teria nenhum valor, já que não seria possível comprovar a fonte. Acho que todos entendem que uma informação oficial de uma autoridade pública só têm valor se for documentada ou proferida publicamente, como numa conferência de imprensa, ou em qualquer outro contexto onde possa ser registrada.

Algumas das publicações que veicularam estas mentiras chegaram ao delírio em sua fabricação de notícias fakes. No caso, por exemplo, do site R7, há apenas umas poucas frases verdadeiras (por exemplo, aquela onde Battisti disse que nunca teve cobertura oculta), mas as outras são puras invenções, extraídas dos piores pasquins italianos, como, por exemplo Il Giornale.

Nos recentes depoimentos, Battisti está falando de sua história pessoal e sua narrativa (muito detalhada e precisa) vai dirigida exclusivamente às autoridades judiciais italianas. Não estou surpreso, sem dúvida, que na atual bárbaro-cracia que há no Brasil, qualquer coisa seja usado pela gangue no poder para criar novos ódios, fomentar a violência e exacerbar a repressão. Aliás, temos o “privilégio” de vivermos, pela primeira vez, no pior momento histórico de Ocidente desde 1945.

Mas, seria bom que as pessoas bem intencionadas não acabem acreditando, por excesso de boa fé, em super-fake-news.