O que a esquerda brasileira está esperando?

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As duas gigantescas e expressivas mobilizações realizadas num espaço de quinze dias, convocadas e organizadas pelas entidades nacionais de luta dos trabalhadores e estudantes, com apoio da CUT, dos partidos de esquerda e de outras organizações dos explorados, levaram quase 2 milhões de manifestantes a ocuparem as ruas, praças e avenidas de todos os Estados do país, marcando a retomada da luta popular de massas, o que não se via já há algum tempo, desde o golpe de Estado alijou do poder, de forma despótica, arbitrária e fraudulenta, o governo eleito em 2014.

Essa grande disposição de luta demonstrada, evidencia, de forma muito clara e inequívoca, uma clara tendência das amplas camadas populares no sentido de um enfrentamento direto contra o regime burguês golpista, contra o governo em seu conjunto e tudo o que ele representa, O pavio foi aceso pelos setores ligados à Educação, mas o desejo da população de colocar abaixo toda a apodrecida estrutura golpista; a mais do que legítima vontade popular em dar um fim ao regime que ataca os direitos e as conquistas mais elementares da população, extrapolou a limitada (embora justa) luta setorizada; foi além da oposição aos cortes no orçamento, nas bolsas universitárias e nas pesquisas científicas.

O que se viu em todos os atos em todas as regiões foi a mais contundente demonstração de repúdio não só a Bolsonaro e seu governo, mas a tudo o que os golpistas estão fazendo com o País, expressos no aumento do desemprego, da fome e da miséria, na destruição do ensino, nos ataques à previdência pública; na violência policial perpetrada contra a juventude pobre da periferia das grandes cidades; na declaração de guerra de Bolsonaro contra os sem terra e povos indígenas; nos assassinatos de negros e mulheres, etc. Por mais que haja um esforço – por um lado da direita golpista e por outro de um setor da própria esquerda – em não querer ver as grandes mobilizações como uma luta da população contra o regime político de fome e miséria instalado no país, é evidente que as duas enormes manifestações expressaram de maneira muito clara a tendência do movimento de luta no pais a se enfrentar com a burguesia, o grande capital e o imperialismo.

O retorno da ocupação das ruas de todo o País pela juventude e pelos trabalhadores coincide impulsiona e reflete a rápida erosão da base de apoio do fraudulento governo Bolsonaro, expressos no declínio da popularidade do ex-capitão do Exército, com os índices de desaprovação do seu governo já são superiores à sua aprovação. As desmoralizadas e raquíticas “manifestações” de “apoio” ao seu governo no último domingo, dia 26, deixaram transparente a enorme fraude que representou a eleição de Bolsonaro – um expediente tampão de última hora da burguesia e do grande capital imperialista -, que foi saudado não só por toda a direita e a extrema direita como o representante da “nova política”, mas também por setores da própria esquerda, que chegaram a desejar “boa sorte” ao seu governo. Esse enorme fator de confusão presente nas “análises” de um importante setor da esquerda nacional é hoje um dos elementos que impedem e bloqueiam o desenvolvimento ainda maior da luta para colocar abaixo o regime de ataque às massas populares; de destruição da soberania nacional; o responsável pelo maior flagelo social do momento, a imensa massa de desempregados (cerca de 15 milhões de almas) que dormem em filas quilométricas em busca de um mísero emprego que lhes garanta uma sobrevivência mínima.

Impedir a derrubada e o fim de um regime que é um verdadeiro estado de genocídio contra a população pobre, se utilizando para tanto de argumentações as mais abstratas e pueris, é anular-se enquanto movimento político que ostenta o rótulo de esquerda (ainda que seja somente um rótulo, uma chancela…como de fato é). A esquerda não pode e não deve atuar neste momento particularmente importante e decisivo da luta de classes no País como salvadora e sustentáculo dos náufragos golpistas e das suas “alternativas” para a situação.

A tarefa que está colocada para o conjunto das forças de esquerda, dos sindicatos, dos movimentos populares, sindical e operário; das organizações democráticas e progressistas é ajudar na organização e no impulsionamento de um amplo movimento para fortalecer ainda mais as mobilizações, a luta contra Bolsonaro e seu governo obscurantista. Essa deve ser a orientação que precisa guiar os mais amplos setores dos movimentos de luta para o dia 14 de junho, dia nacional de paralisação, da greve geral, contra o regime golpista.