“O Processo” e “O Mecanismo”, uma breve comparação

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POR CONTEREM ambos uma interpretação implícita da crise política no Brasil de hoje, Brasil do golpe, uma comparação entre o documentário “O processo” de Maria augusta Ramos e a série da Netflix “O mecanismo”, dirigida por Fernando Padilha, se impõe.

De saída, e antes de se levar em conta qualquer julgamento de conteúdo, a força estética do “Processo” é incomparavelmente maior. “O Mecanismo” não sai do cliché dos filmes policiais onde um “tira” marrento, com crise de consciência, decide resolver tudo a seu modo. Meireles faz um puxadinho de “Tropa de elite” onde o Capitão Nascimento do Bope cede o protagonismo a um elemento da polícia federal.

No filme de Maria Augusta Ramos, a inteligência do espectador não é insultada com uma voz em off explicando o que você deve pensar, o que está acontecendo exatamente, como se o filme por recursos próprios não pudesse fazê-lo. “O Processo” mostra a situação, ao invés de “explicá-la”, através de longos planos sequência, o que deixa mais livre a consciência do espectador, em vez de inculcar-lhe o sentido dos eventos através da fala do “mocinho”. “O Processo” é um filme favorável ao PT, sem dúvida, mas cada um que sai da sala compreende tudo dum seu modo. Ele fomenta o debate, e expõe as contradições do próprio partido dos trabalhadores como no monólogo de Gilberto Carvalho que analisa os erros cometidos pelo partido dos trabalhadores.

“O Mecanismo”, ao contrário, tem uma proposição clara, e que é tanto mais ideológica quanto mais se pretende “metasituada”: a política em sua totalidade está corrompida, há um “mecanismo” que arrasta a todos, e só os homens de bem da polícia salvarão o país da decrepitude moral. Trata-se, portanto, de um seriado feito para os coxinhas do PPF, partido da polícia federal. Contudo, malgrado suas intenções, a série “O Mecanismo” é na verdade profundamente a-crítico, e se “esquece” de levar em conta a principal mola do “mecanismo”: o sistema capitalista. Toda responsabilidade do mal recai sobre o “oportunismo dos partidos” e a falha moral dos agentes políticos.

“O Processo”, por sua vez, não desconsidera a economia política, e salienta o quanto a descoberta do pré-sal esteve na base do impulso do golpe de estado no brasil, como se dá também hoje na Venezuela onde o imperialismo faz de tudo para derrubar Maduro, que acaba de ser democraticamente reeleito. Uma visão de política internacional, sugerida pelo filme de Maria Augusta, substitui a visão moralista de Meireles, de viés autoritário.

Do ponto de vista das performances dos “atores”, o que em toda minissérie se iguala aos trejeitos da “advogada” canastrona e demagógica Janaína Pascoal? Impagável! E o grupo dos “ratos” do congresso, reunidos de terno em gravata em plena câmara, para rasgar a constituição e abolir a democracia duramente conquistada no país, tudo isso diante das câmeras. Lembrava um filme do expressionismo alemão, um “Nosferatu” de Murnau. De forma muito sensível, a diretora transita do micro ao macro, apresentando pequenos detalhes e gestos dos “personagens” integrados ao grande processo de impeachment, que mudou para muito pior o destino do país.

Dirão que não se pode comparar uma obra de ficção com um documentário, e se pode responder que desta vez a realidade superou em muito o roteiro bastante ruim de “mecanismo”. “O Processo” tem um arco narrativo, tem um clímax, pitadas de humor, personagens de apoio de alto nível, como Lula e Chico Buarque. O “Mecanismo” apresenta um desenvolvimento com pouca consistência e criatividade, e o Selton Melo falando para dentro.

Quanto ao mais importante, sua dimensão política, “O Processo” produz como efeito arrancar o espectador do conforto da poltrona, empurra-o para a rua, faz a gente gritar já no cinema “Lula livre”, enquanto “O Mecanismo “ conduz a conclusões direitistas e conformistas tipo: “é, os políticos são todos iguais, e o PT é farinha do mesmo saco”, e viva a polícia federal.

Em suma, enquanto “O mecanismo” redunda numa apologia do autoritarismo, “O Processo” expressa um clamor urgente e popular pela redemocratização do país. Nesse sentido, a nuvem negra de fumaça do fim, em sua rica ambiguidade, pode ser entendida tanto como uma imagem do fim dos tempos e do regime político, como a expressão do fragor da batalha hoje travada pelas forças progressistas, por um futuro luminoso e socialista.