Política de guerra
Em um cerco provocado pelos interesses capitalistas, posta entre a pandemia do coronavírus e a epidemia de fome, só a mobilização popular pode superar a tragédia brasileira
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Política do "mal menor" para a pandemia não passa de demagogia barata | Foto: Reprodução

Repetindo o golpe de não divulgar os dados de dois estados, SP (o recordista em morte) e GO, o Brasil registrou hoje 408 novos óbitos por covid-19 neste domingo (dia 20) e  totalizou, em números oficiais,  186.773 pessoas mortas em decorrência do coronavírus no país.

Segundo os órgãos de imprensa burguesa, o número médio de mortes na última semana aumentou 29% em relação à semana anterior. Esses dados somam-se à evolução geral dos contágios, que atingiram 52.385 pessoas no País entre quinta e sexta-feira, chegando a um total de  mais de 7, 2 milhão de infectados.

As estatísticas sobre a pandemia, não custa lembrar, têm uma credibilidade altamente duvidosa. O governo fala em “subnotificação”, um eufemismo para dizer que os dados estão aquém da realidade da pandemia no País, seja no número de infectados, seja no total de mortos. Desta forma, podemos conjecturar uma situação em que o Brasil já pode ter 200 mil mortos pela pandemia, aproximando-se velozmente desta cifra de maneira oficial entre  o fim de 2020 e o começo do próximo ano.

Presente de burguês

 

A política adotada pelo regime político brasileira demonstra de maneira muito contundente a monstruosidade da classe dominante. Controlando o País por meio de uma ditadura, cada vez menos disfarçada, a burguesia nacional além de manter sua política de rapina durante a pandemia, acentuou-a, embolsando ainda mais de R$1,2 trilhão a título de evitar falências e demissões, que ocorreram em quantidades inéditas em nossa história.

Com essa política de roubo institucionalizado, apoiado pela administração pública, o número de bilionários saltou de 205 para 238 no ano, em meio a mais acentuada retração econômica já registrada no Brasil. A fortuna dos setores mais ricos da burguesia cresceu também, com os bilionários somando um valor equivalente ao PIB do Chile (R$1,6 trilhão, o PIB do país em 2019 foi R$1,63 trilhão) em meio ao empobrecimento generalizado da população.

E isso tudo -deve-se ressaltar- em meio à mais letal crise de saúde pública já vivida pela humanidade em mais de um século. Nesse intervalo de tempo, enquanto a burguesia enriquecia como nunca no período recente, absolutamente nada era dado à população. Instalações médicas para as massas operárias, melhorias na rede de esgoto e na infraestrutura geral -de péssima qualidade- dos bairros populares, insumos de higiene para as famílias trabalhadoras como máscaras, protetores faciais, suprimento de álcool em gel,… Nada disso foi realizado.

Economia do genocídio

 

Na economia, salvo as atividades reduzidas desempenhadas pela pequena burguesia que passaram a funcionar à distância, o chamado home office, os trabalhadores continuaram sua jornada extenuante normalmente, porém com cortes de até 25% nos salários e em meio a uma carestia que levou a cesta básica a consumir 61,64% do salário mínimo da classe trabalhadora, segundo o Dieese.

Deslocando-se em outro forte vetor de contágios, o transportes público de massas -cuja precariedade, por sinal, aumentou durante a pandemia-, a classe trabalhadora não teve seu trabalho reorganizado em turnos reduzidos, para evitar o tempo de exposição à ameaça do coronavírus.

As condições de insalubridade, normalmente já elevadas, pioraram ainda mais com a chegada da pandemia. Não por acaso, petroleiros, trabalhadores dos transportes, dos Correios e dos frigoríficos foram algumas das categorias mais duramente atingidas pela pandemia.

Aliados a estas categorias, tivemos também as amplas massas de pobres, vendedores ambulantes, marginalizados da economia produtiva, resultado da profunda e crescente decadência do capitalismo que empurrou milhões de brasileiros para a pobreza extrema, obrigando parcelas imensas da população a fazer qualquer coisa para não morrer de fome em meio à crise.

 

Epidemia de fome

 

O resultado da política geral da burguesia, marcada pela rapina escancarada, não poderia ser outro. 78,6 milhões de brasileiros estão desocupados, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada 27/11 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Derivado deste recorde histórico, outra ameaça volta à assombrar a classe trabalhadora: a fome.

Segundo a Unicef, 30% das famílias brasileiras das classes D e E -que ganham mensalmente até R$4.180,00- passaram fome em momento entre julho a novembro desse ano. Em setembro, outra pesquisa, elaborada pelo IBGE, aponta que mesmo antes da pandemia de coronavírus, a política golpista já vinha produzindo uma epidemia de fome no País, com atingindo 84,9 milhões de pessoas apresentando algum grau de insegurança alimentar, das quais, 10,3 milhões de pessoas sofreram privação severa de alimentos.

Em meio a um cenário de catástrofe para a classe trabalhadora, a prevalência dos interesses da burguesia latifundiária sobre a segurança alimentar da população, levou o País a exportar alimentos no momento em que os demais países do planeta fizeram o inverso, protegendo a produção agrícola nacional para evitar qualquer ameaça de escassez.

O resultado desta política colocou a carestia como fator extra de pressão contra a classe trabalhadora brasileira, que viu justamente nos alimentos os maiores puxadores da expressiva inflação registrada nos últimos meses. Exceto por Brasília, onde subiu “apenas” 10,99%, em todas as capitais brasileiras onde o Dieese estuda o valor médio da cesta básica, esta registrou uma alta superior a 24%, chegando a mais de 36% em Aracajú, e isto, num ano de empobrecimento histórico da população.

 

Científicos” contra “negacionistas”

 

A política genocida, amplificada exponencialmente pelos ataques no campo econômico, carestia, desemprego e fome, naturalmente respondia aos interesses da burguesia, tendo contado assim com apoio dos distintos setores da direita.

Em meio à mortandade produzida por uma política inexistente em relação ao controle da pandemia, foi-se criado uma polarização superficial entre o bolsonarismo -“negacionistas”- e os setores tradicionais da direita (PSDB, MDB e DEM), a quem atribuiu-se o rótulo de “científicos”, com a liderança do bloco recaindo sobre o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

A tal polarização mostrava-se uma farsa desde o começo, afinal, o grande trunfo de Doria era ter implementado as “recomendações científicas” para controlar a pandemia, o que traduziu-se na prática em colocar São Paulo sob estado de sítio, embora mascarado pelo eufemismo anglicano “lockdown”. E isto foi tudo.

Indo mais fundo nos ataques contra a população do que o próprio Bolsonaro e o clã dos “negacionistas”, Doria entregou hospitais públicos para a iniciativa privada, não empenhou nada dos recursos do estado mais rico da União para controlar a pandemia e nem para ajudar a população a atravessar o grave momento.

Ao contrário, pôs o aparato de repressão paulista, uma verdadeira máquina de guerra, foi posta para garantir que sob determinados horários, a população acatasse a limitação a seu direito de ir e vir, comércios de bairro foram fechados e um amplo ataque a direitos políticos como o direito de reunião foram desferidos, em nome da “ciência”.

Manipulando as estatísticas sobre o coronavírus tanto quanto o conjunto da administração pública brasileira, o governador tucano reabriu o comércio e as poucas atividades econômicas fechadas durante o começo da pandemia e, deixando claro que tal polarização era em si uma farsa, usou um artifício bolsonarista para reabrir as escolas públicas a partir de fevereiro do ano que vem, decretando a educação como serviço essencial, o qual não pode fechar sequer no mais catastrófico cenário da pandemia, tomando assim, cuidado para que as escolas permaneçam abertas, “morra quem morrer”.

 

A esquerda, deliberadamente, alia-se aos “maus”

Enquanto tal política era levada adiante, com consequências desastrosas para as massas trabalhadoras, a esquerda demonstrou sua extrema dependência da burguesia, vendo-se constantemente na condição de apêndice de um dos setores da direita.

Isto traduziu-se na política de aliar-se a um dos “maus” com a desculpa de que o escolhido seria o “mal menor”, o que, aliás, tinha a demagogia como único critério de classificação. Conforme se viu neste ano, o “mal menor” foi um rótulo atribuído aos “científicos”, o que lhes rendeu apoio de muitos setores da esquerda pequeno-burguesa.

Com o País se encaminhando para 200 mil mortos, quase a totalidade disso encontrada a população pobre, é evidente que a política da esquerda resultou em um fracasso retumbante no que diz respeito à luta pelos interesses da população.

Mais do que isso, com a capitulação ao setor centrista da direita -o mais ligado ao imperialismo, diga-se de passagem-, a esquerda ainda se pôs contra a mobilização popular, auxiliando a direita com a campanha histérica para que o povo não fosse às ruas protestar contra a política genocida desenvolvida pela burguesia.

 

Só a mobilização popular pode acabar com a barbárie

Ficou muito evidente que o povo brasileiro não pode contar com seu aparato de representação tradicional para enfrentar as ameaças que atingem duramente a população. A promessa da vacina permanece um tanto vago e sob diversas suspeitas, enquanto a matança, promovida pelo descaso do regime político em lidar com a pandemia, coloca as massas trabalhadoras em uma situação cada vez pior.

É preciso, portanto, superar as ilusões vendidas pela burguesia e difundidas pelos seus lacaios, na direita e também na esquerda, de que a população deve “ficar em casa” e deixar que o monstruoso e genocida Estado brasileiro resolva os problemas dos trabalhadores. Nada fizeram até agora e nada farão enquanto o regime inteiro não for posto abaixo.

E para isso, a mobilização popular torna-se urgente. É preciso organizar a população em seus locais de moradia e trabalho, pelo “fora Bolsonaro” e por Lula presidente, por palavras de ordem que coloquem o regime político em xeque e permitam uma mudança nos rumos políticos do País, o único caminho para que as massas tenham seus interesses garantidos, incluindo-se aí a vida.

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