Uma crise que vai durar anos
O Brasil caminha para uma década perdida que ameaça os trabalhadores
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21/02/2017- São Paulo- SP, Brasil- Empresa de tercerização de segurança e limpeza seleciona candidatos, causando grandes filas, no bairro de Campos Elíseos, no centro de São Paulo. Foto: Cesar Itiberê / Fotos Públicas
Desemprego estrutural | Foto: Cesar Itiberê/ Fotos Públicas

Esta é a 16ª semana em que os executivos de bancos e de empresas financeiras consultados pelo Banco Central para a elaboração de seu boletim Focus indicam a expectativa de uma queda maior do PIB para este ano. Agora estão apontando (na média) uma queda de 6,25% no PIB. Na semana passada o indicador formado pela média das ponderações dos executivos financeiros era de 5,89%. (Agência Brasil, 1/5/2020)

Como já sabemos, este não é um número exato, retirado de outros números exatos. É uma expectativa do mercado financeiro, que está a todo o momento sujeito a revisões. Para alguns, especialmente aqueles que acompanham as expectativas do mercado norte-americano, esses números podem significar uma contaminação por forte otimismo. Na medida em que o Brasil está retornando à posição de extrema dependência dos EUA (e da China), é recomendável acompanhar o que ocorre naquele país. Na semana passada o presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA, Jay Powell, disse a economistas que “o alcance e a velocidade dessa crise não têm precedentes nos tempos modernos”. E usou como indicador algo mais palpável que uma pesquisa feita entre executivos de bancos, falou sobre o desemprego: “Entre as pessoas que trabalhavam em fevereiro, quase 40% das famílias que ganhavam menos de US$ 40.000 por ano, haviam perdido um emprego em março” afirmou enfatizando que o horizonte da crise ainda é indefinido e aponta para um longo período de dificuldades. (Michael Roberts, O investimento e a pandemia, em A Terra é Redonda, 1/6/2020).

Na semana passada o Federal Reserve divulgou o seu Relatório Semestral de Estabilidade Financeira, no qual concluiu que “os preços dos ativos permanecem vulneráveis ​​a quedas significativas de preços; se a pandemia seguir um curso inesperado, as consequências econômicas podem se mostrar muito adversas; as tensões no sistema financeiro podem reemergir.” (idem).

O que essas palavras querem dizer, olhando de onde estão vindo, é que a crise vai ser muito mais séria que se imaginava e podem ocorrer explosões pelo caminho.

Duas décadas perdidas

No caso brasileiro, os analistas apontam para os mesmos problemas, o desemprego pulando de 12,6% para 17% e uma forte retração na renda dos trabalhadores. Se o PIB deste ano tiver a queda de 7% que está sendo prevista, vamos ter a primeira década da história econômica brasileira com PIB negativo na média. Mais uma “década perdida”, mais forte que aquela que recebeu esse título, a de 1981/1990. E pior, esses indicadores vão contaminar a década seguinte, que se inicia com uma das mais fortes crises sistêmicas que o país já enfrentou. “Vamos entrar na próxima década muito mais fragilizados. E, por isso, podemos ter mais uma outra década perdida. Até meados do período de 2021 a 2030, teremos uma retomada lenta e uma sequência de baixíssimos anos de crescimento econômico”, é o que afirma o insuspeito Ernesto Lozardo, professor da Fundação Getúlio Vargas, amigo pessoal de Michel Temer e, que por isso, acabou dirigindo por três anos o IPEA (Veja, 1/6/2020).

Economistas burgueses estão formando um consenso sobre o tamanho da crise mundial e da brasileira. Discordam sobre as políticas a seguir. Os de extrema-direita, apregoam a solução de terra arrasada. Defendem que o país tem que privatizar tudo e se tornar atraente para os investimentos capitalistas. A única forma de se receber investimentos na próxima década e, com isso, gerar empregos e ter alguma chance de crescimento econômico. São os que dizem que o Estado é grande e os direitos dos trabalhadores são empecilho para que empresas capitalistas ganhem dinheiro. Os economistas que se situam no espectro da influência do economista inglês J.M. Keynes dizem que isso vai afundar de vez a economia brasileira, pois são dos investimentos (ou a demanda agregada) que produzirão o crescimento da economia e, em consequência, gerarão empregos.

De qualquer forma, o que os números estão a indicar nesse momento é que a crise brasileira é mesmo sem precedentes, o desemprego está aumentando rapidamente, a renda dos trabalhadores está caindo, o consumo cai e permanecerá baixo, as empresas estão fechando e poderá ocorrer uma avalanche de falências nos próximos meses. A inflação tem caído, menos para os trabalhadores, mais porque a economia está estagnada do que por causa das medidas do Banco Central. A queda da inflação neste momento, diferente do que falam os telejornais que só difundem a ideologia burguesa, é reflexo da recessão.

A crise econômica vai provocar, entre outras coisas, a queda do impostos e, em breve, o governo aparecerá com medidas para aumentar impostos e taxas, como forma de compensar suas perdas. Isso alimentará a crise e vai retirar mais renda da sociedade. Em vez de dizer a verdade, o governo vai dizer que isso é prova de que a máquina pública precisa ser enxugada, só assim os impostos cairão. O discurso requentado da Era FHC.

Assim como na década de 1980, serão os trabalhadores os que mais sofrerão as consequências de uma economia que não se desenvolve. Só 20 anos depois é que os níveis de emprego e renda cresceram e puderam sustentar políticas públicas mais redistributivistas. O que vai acontecer nas próximas décadas no Brasil ainda é uma incógnita, mas o país vai enfrentar duas décadas perdidas em meio a transformações tecnológicas na indústria e na geopolítica do capital. Isto é, nas próximas décadas apontam para um processo longo de crise do capitalismo, com acirramento das disputas entre países, maior automação das empresas para elevação dos ganhos de produtividade empresarial, mas que acaba gerando uma queda global da taxa de lucro do capital, o que impulsiona novas tensões e crises.

Estamos, com esta crise, inaugurando provavelmente um novo período longo de crise estrutural do capitalismo, que não consegue superar essa situação porque ela é própria das contradições internas do capitalismo, que acabará provocando mais e mais destruição, guerras e novas crises para que alguns pouco ganhem e explorem todos os demais.

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