Terrorista hi-tech
Biden afirmou que Assange havia colocado vidas em risco ao vazar documentos diplomáticos, tornando mais difícil a tarefa dos EUA em conduzirem seus negócios ao redor do mundo
Obama e Biden: continuação da expansão imperialista | Yuri Gripas/Reuters
Obama e Biden: continuação da expansão imperialista | Yuri Gripas/Reuters

Ao controlar os principais veículos de comunicação, a burguesia controla a opinião pública, cria as condições para que uma determinada política seja implementada, constrói figuras heroicas e desmoraliza seus desafetos. A imprensa burguesa nada mais é do que um veículo de propaganda da burguesia para os seus negócios. Em períodos eleitorais, torna-se ainda mais notório a influência da burguesia monopolista sobre a imprensa. O efeito ilusório, na maioria dos casos, é transitório; passada as eleições, a propaganda imperialista dá lugar aos fatos concretos.

Já se foram mais de 10 anos e os arquivos do The Guardian nos permitem pontuar a trajetória dos embusteiros. Em 2010, quando acumulava o posto de vice-presidente dos EUA, Joe Biden (Democratas), comparou o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, a um “terrorista de alta tecnologia”. À época, considerou-se a crítica como sendo a mais forte do governo Barack Obama (Democratas), um posicionamento costumeiro dos Republicanos. Nada que seja estranho à Biden. Incitador da invasão do Iraque (2003), foi no governo George Bush (Republicanos) que o atual presidente dos EUA – tão aclamado pela esquerda pequeno-burguesa “democrática” – destacou-se em defesa da Lei Patriótica (2001). Malgrado o controle absoluto sobre a população, Biden promete o recrudescimento do que antes fora imposto. A proposta é de criação de uma lei contra o que os democratas qualificam de “terrorismo doméstico” (leia nossa matéria).

Enquanto vice-presidente, Biden afirmou que Assange havia colocado vidas em risco ao vazar documentos diplomáticos, tornando mais difícil a tarefa dos EUA em conduzirem seus negócios ao redor do mundo, isto é – obter o controle econômico e político do globo terrestre. Essa descrição de Assange, inoportuna para a imagem dos Democratas, mostrou-se contrastante quando comparada aos comentários mais otimistas de outras figuras importantes na Casa Branca, que afirmaram categoricamente que o vazamento não causou danos graves.

Ao ser entrevistado no Meet the Press, programa da NBC, Biden foi questionado se o governo seria capaz de evitar novos vazamentos. “Estamos analisando isso agora. O departamento de justiça está analisando isso”, disse Biden, sem dar mais detalhes. O trunfo de Biden parecia ser o caminho mais banal quando se tem o controle do aparato burocrático do Estado. A conclusão obvia viria em seguida por parte de Biden: o departamento de justiça esmerou-se na luta para encontrar uma legislação que possibilitasse o encarceramento de Assange. O caso, carecendo de base jurídica sólida para uma intervenção mais ferrenha do Estado, esbarrou em um Biden vacilante, embora propenso ao despotismo. Questionado se Assange havia cometido crime, Biden sugeriu que seria considerado criminoso se pudesse ser estabelecido que o fundador do WikiLeaks havia encorajado ou ajudado Bradley Manning, o analista de inteligência dos EUA suspeito de estar por trás do vazamento.

De acordo com Biden, há uma grande diferença entre o vazamento de Assange e um furo jornalístico. Assim, segundo o democrata, “se ele conspirou para conseguir esses documentos confidenciais com um membro do exército dos EUA que é fundamentalmente diferente do que se alguém caísse em seu colo … você é um assessor de imprensa, aqui está o material confidencial.” As intenções de Biden tinham seus propósitos, o chamado “terrorista hi-tech” havia revelado muitos podres da própria administração Obama-Biden – era sua reputação que estava em jogo.

Foram feitos vários questionamentos à Biden; dentre eles, se ele via Assange como mais próximo de um terrorista de alta tecnologia do que o responsável pela divulgação dos documentos do Pentágono na década de 1970, que revelavam a mentira em que se baseava o envolvimento dos EUA no Vietnã. Biden figurou o bedel e também o juiz. Sem titubear, decididamente atribui à Assange o papel de vilão da história.

Eu diria que está mais perto de ser um terrorista de alta tecnologia do que os jornais do Pentágono. Mas, veja, esse cara fez coisas que danificaram e colocaram em risco a vida e a ocupação de pessoas em outras partes do mundo. Ele tornou mais difícil para nós conduzir nossos negócios com nossos aliados e amigos. Por exemplo, em minhas reuniões – você sabe que me encontro com a maioria desses líderes mundiais – há um desejo agora de se encontrar comigo sozinho, em vez de ter funcionários na sala. Isso torna as coisas mais complicadas – por isso, causou danos.” Essas foram as conclusões do democrata.

Em sua carreira política, Biden defendeu medidas antipopulares e antidemocráticas; da implementação do neoliberalismo na época de Clinton à defesa do endurecimento da Lei Patriótica, o atual presidente dos EUA acumula em seu currículo o papel de guardião dos interesses da burguesia monopolista, ou seja, do imperialismo. Lembremos que Biden era vice-presidente de Obama quando se iniciou a perseguição ao Assange, justamente por ele ter aberto a caixa preta da administração dos Democratas. Após desmascarar as ações da dupla Obama-Biden, o fundador da WikiLeaks tornou-se um perseguido político e, no momento, encontra-se preso correndo risco de morte. Está claro que Biden não tem a política de defender nenhuma liberdade democrática, muito menos do Assange. É preciso um grande movimento internacional por sua liberdade.

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