O “pacotão”, o avião e as nuvens de crise

Paulo Guedes / Economista do Bolsonaro

O ano financeiro acaba, como se sabe, quatro dias antes do início, de fato, do governo Jair Bolsonaro. Precisamente no dia 28, sexta-feira,  para recomeçar no dia 2 de janeiro, quarta-feira.

São 96 horas de “arrumação”, se o novo Governo antecipar para o sábado o “pacotão” de novas regras – ou falta de regras – que virão por aí.

Nos “balões de ensaio” que foram lançados nos últimos dias, não há clareza do rumo que se irá tomar, muito menos de qual será o tamanho e a solidez da base de apoio político que terá para implementar medidas econômicas drásticas.

A tendência é a de que o Governo aproveite os 60 dias ou pouco mais que terá para fazer “o que quiser”: o mês de janeiro – sem Congresso, pois o “velho” está em recesso e o “novo” só funciona a partir de fevereiro – e o mês de “arrumação” do novo parlamento, onde dificilmente haverá votações importantes.

As medidas provisórias prometem vir aos montes.

Na política, idem, e não é difícil prever que este tempo seja aplicado em “reformas morais” na legislação sob o feroz comando de Sérgio Moro.

Tudo muito bom, tudo muito bem. Há, de fato, depois de mais de três anos de depressão econômica para fazer a economia bater as asas. Mas não há, na atmosfera pesada em que vivemos e nos déficits pesados que enfrentamos, condição de sustentabilidade deste crescimento.

Num avião, seria a mesma coisa que levantar o bico para ganhar altura, mas com muito peso e com baixa velocidade, num céu tempestuoso. Quem gosta de aviação sabe que é imensa a chance de estolar, isto é, perder sustentação e perder altitude, o que só tem salvação apontando o nariz para baixo, para controlar a descida e recuperar o controle da aeronave. Para isso, é preciso ter altitude para “gastar”.

E, atolados em déficit, não temos.

Mas que tempestade é essa?

É, como sempre, lá fora que se define em que tipo de clima estamos.

Sexta-feira, a Bolsa de Nova York fechou a semana com as maiores perdas registradas desde o início da crise de 2008. As perdas anuais chegam a 10%, embora possam reduzir-se um pouco nos últimos pregões do ano, por conta da liquidação de negócios de opções. Resta ver se isso será forte o suficiente para vencer o quadro de alarme em que estão os donos do mundo em Wall Street.

O índice de expectativas do mercado divulgado pela CNN,  que faz uma consolidação de sete indicadores de volatilidade do capital na bolsa (que você vê reproduzido na ilustração do post) caiu ao maior pessimismo já registrado na história, na esteira do “shutdown” – algo como o desligamento do Governo – a que a chantagem de Donald Trump sobre o Congresso com a questão do “muro” mexicano levou os EUA, como se não bastassem os impactos das crises do “Brexit” e da guerra comercial com a China.

Emboras as idas e vindas de Trump sejam mais previsíveis que as marés, nada indica que a economia mundial vá  ter  senão espasmos de alívio.

Não são poucos nem irrelevantes os economistas que prevêem uma crise senão igual, ao menos assemelhada à de 2008/2009. Talvez não já,

Temos condições de enfrentá-la como naquela época? Há tempo para ganhar altitude e evitar que entremos em cheio na turbulência?

Consulte-se o altímetro e os alarmes vão soar: em 2008, o superávit fiscal – receita do Governo menos seus gastos – era de 4%do PIB. Agora não há superávit, ao contrário, o déficit é de 2% do Produto Interno Bruto.

O co-piloto econômico, Paulo Guedes,  está disposto a empurrar o manche para cima. Mas o comandante Bolsonaro, que também não tem horas de vôo,  definidamente, revela receio de perder o controle do avião.

Haja Sérgio Moro para entreter os passageiros durante as turbulências.

Fernando Brito

(texto originalmente publicado no Blog Tijolaço)