Fascismo e Antifascismo
Resenha do livro Antifa. O manual antifascista, de Mark Bray, Parte II
<> on October 28, 2017 in Shelbyville, Tennessee.
antifa | Foto: Arquivo DCO

No final de 1921, Emilio Avon, líder socialista da cidade de Castenaso, na região de Bolonha na Itália, recebeu uma “visita” que perguntou de maneira ameaçadora “você é o secretário da seção socialista? Queremos testar sua coragem.”

 

“Na noite seguinte, enquanto Avon e sua família dormiam, um grupo de homens armados e mascarados chutou sua porta, o arrastou para fora e o espancou até ficar inconsciente em meio aos gritos horrorizados de sua esposa e seus três filhos. Avon foi “convidado a deixar a cidade dentro de quinze dias sob pena de morte”( BRAY, Mark. Antifa. p.63)

 

Esse acontecimento relatado no livro Antifa. O manual antifascista, do norte-americano Mark Bray, ilustra de maneira concreta a função histórica do fascismo como um instrumento contra revolucionário em relação as organizações dos trabalhadores.

Os mascarados que ameaçaram Emilio Avon na Itália faziam parte dos Squadristi ou camisas negras que atuavam na Itália nos anos 1920, visando liquidar com as organizações dos trabalhadores, ameaçando, espancando e assassinando líderes camponeses, sindicalistas e militantes das organizações de esquerda.

Em 1919 e 1920, os trabalhadores industriais ocuparam fábricas, camponeses tomaram terras. Uma situação revolucionária com a formação de conselhos de fábrica. Dessa forma, os squadristi surgem como uma arma das classes dominantes para “exterminar a peste vermelha”.

O Antifa de Mark Bray apresenta um breve inventário do antifascismo e discutido as “lições históricas” da luta contra o fascismo. A síntese que Mark Bray tem aspectos interessantes, na medida que demostra a importância da luta contra os fascistas.

Para que serve o fascismo?

O desenvolvimento dos movimentos de extrema direita, notadamente nos moldes do fascismo italiano, é um dos recursos utilizados pela burguesia para garantir a manutenção da sua dominação de classe. O próprio aparecimento dos movimentos fascistas ao longo da história tem a ver com a reação ou medo das classes dominantes diante do questionamento da sua dominação pelas organizações sociais e políticas dos trabalhadores.

Os liberais burgueses são os facilitadores da ascensão da extrema-direita. A falta de determinação no combate aos fascistas e os discursos lacrimosos em defesa da “democracia” não significam simplesmente uma política conciliadora em relação aos fascistas, mas indicam as oscilações da classe dominante em relação aos métodos a serem adotados contra os trabalhadores. Se as instituições do regime político continuam “democráticas” ou terão um caráter abertamente ditatorial.

A Marcha dos camisas negras em 31 de outubro de 1922 foi apenas uma representação cerimonial, o rei Vittorio Emanuele III não enviou tropas para deter a encenação dos fascistas, e mesmo ele sendo minoritário nomeou Benito Mussolini, como responsável para formação de um novo governo. Esse exemplo histórico demostrou como as instituições não são nem de longe um obstáculo para a ascensão dos fascistas.

Os movimentos antifascistas

os movimentos antifascistas estão evidentemente relacionados com a luta contra os fascistas. Com o propósito de ressaltar a importância histórica da luta antifascista, o autor apresenta uma apreciação de movimentos antifascistas no capítulo 1 No pasarán! O antifascismo até 1945 e no capitulo 2 “Nunca Mais”: o desenvolvimento da Antifa moderna: 1945-2003.

Um aspecto destacado pelo autor é que o “ antifa não deve ser entendida como um movimento único”, havendo diversos grupos políticos, desde socialistas, anarquistas e comunistas, até políticos liberais que se declaram contra a extrema-direita, mas se recusam a combater os fascistas.

 

“o sucesso ou fracasso do antifascismo militante depende, muitas vezes, de mobilizar uma camada mais ampla da sociedade para enfrentar os fascistas, como ocorreu tão notoriamente na Batalha de Cable Street em Londres em 1936. ( idem,p.35)

 

A Batalha de Cable Street foi realizada no bairro East End de Londres, quando as organizações dos trabalhadores e da esquerda se unificaram e impediram uma manifestação do líder da extrema-direita inglesa Oswald Mosley.

Entretanto, anteriormente a política ambígua e divisionista da esquerda, especialmente do stalinismo na Alemanha custou a vitória do nazismo. Na ocasião, perdurava no Partido Comunista Alemão a posição sectária do “social-fascismo”, que igualava a socialdemocracia aos nazistas. Corretamente é apontado esse colossal erro político na Alemanha

 

“Enquanto Hitler planejava uma guerra contra a esquerda. Socialistas e comunistas se concentravam em combater uns aos outros”. 1928, o terceiro período pelo Komintern. ( idem)

 

A luta contra a “nova” direita na Europa e nos Estados Unidos

Ao apresentar o antifascismo na atualidade, o autor não oferece uma caracterização dos movimentos e acontecimentos, são elencados eventos e personagens, mas a avaliação política é confusa.

Um dos temas abordados é o aparecimento da “ nova direita” na Europa e nos Estados Unidos. Assim, na Inglaterra tem a presença do United Kingdom Independence Party (UKIP). Na França, o Front National ( FN) de Marine Le Pen, obtém 33,9 % em 2017 nas eleições presidenciais. Na Áustria, Partido da Liberdade da Áustria (FPO), cujo slogan foi “A Áustria primeiro”, obteve 49,7 %. Holanda, Partido pela Liberdade (PVV) anti-muçulmano Geert Wilders. Em 2014, partido extrema-direita jobbik. Na Alemanha, tem o Alternative fur Deutschland que apresenta “ o Islã não pertence à Alemanha. Na Grécia, o partido Aurora Dourada tem crescimento assustador. O Partido do Povo Dinamarquês 21% em 2015.

Para Mark Bray, o crescimento eleitoral de partidos da extrema direita relaciona-se com o aumento da crise social por conta da crise econômica, do aumento dos refugiados e da insegurança geral. Por sua vez, nos Estados Unidos, a vitória de Trump é apresentada como a nova configuração da direita.

“Tanto Trump quanto a alt – right conseguiram explorar uma ansiedade conservadora generalizada em decorrência do desaparecimento da América Branca “tradicional”. (…) além disso, o elitismo liberal e o neoliberalismo endureceram sentimentos reacionários entre muitos brancos da classe trabalhadora”. ( idem)

A vitória de Donald Trump nos Estados Unidos criou uma unidade programática para a “alt-right” mobilizar o “ ódio branco contra o feminismo, o Black lives Matter, muçulmanos e latinos.” Dessa forma, Trump reforça “a supremacia branca implícita e explicitamente, energizando o racismo muito além do resultado das urnas.” ( idem,221)

Um ponto interessante no livro é descrição da luta dos Antifas contra os neonazistas em torno da defesa dos refugiados. Em 20 de agosto de 2015, tentativa dos neonazistas em incendiar um centro de refugiados, Em seguida, quatro ônibus que transportavam 250 refugiados para Heidenau foram bloqueados por mil neonazistas Partido Nacional Democrata ( NPD).” Os antifascistas se mobilizaram para defender um campo de refugiados de ataques neonazistas e hooligans em Dresden.” ( idem)

Como manual Antifascista, o livro de Mark Bray não apresenta receitas organizativas ou táticas de ação, mas discorre sobre “cinco lições históricas” como uma sumário geral. Esse será o tema da próxima semana.

 

 

 

 

 

 

 

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