Do integralismo a Bolsonaro
Não só o Itaú, mas todos os bancos financiaram e apoiaram os movimentos fascistas e suas ditaduras, como o integralismo e o regime militar, dos quais Bolsonaro é herdeiro
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Encerramento do Congresso Integralista em Blumenau (SC), 1935 | Foto: CPDOC/OA - FGV

Estava eu trancado em casa em uma madrugada qualquer, de cueca, com insônia e acompanhado de algumas latas de cerveja e um cachimbo, procurando algo sobre a propaganda nazista no Youtube. Foi quando me veio a ideia de pesquisar algum documentário sobre o integralismo, o fascismo brasileiro da década de 1930.

Encontrei um muito interessante, chamado Soldado de Deus (Sérgio Sanz, 2004). O longa entrevista uma série de elementos que participaram do movimento integralista, todos já fazendo hora extra neste mundo quando o doc foi filmado, como o jurista Miguel Reale.

Em determinado momento, um dos entrevistados, o escritor e ex-integralista Gerardo Melo Mourão, lembra uma minguada lista de três dos mais notórios apoiadores do integralismo (dentre tantos outros). “Magalhães Pinto. Walther Moreira Salles.” E eis que Mourão fala, ipsis literis: “o Banco Itaú todo. Todo. Foi quem financiou o integralismo.”

Eu não me surpreendi, mas achei interessante um reconhecimento tão enfático. Realmente, não há muito material a respeito desse fato na Internet, embora seja evidente para todos os que entendem o que foi o fascismo que os bancos foram seus principais financiadores, junto aos industriais.

Fui procurar mais a fundo para ver o que havia disponível a esse respeito. Quase nada!

Quem tem uma documentação sobre isso é o jornalista Luis Nassif, recente alvo de censura do Judiciário, que mandou retirar de seu blog 11 reportagens de denúncias do banco BTG Pactual, ligado ao ministro da Economia Paulo Guedes (a “tchutchuca dos banqueiros”).

Na biografia Walther Moreira Salles – O banqueiro embaixador e a construção do Brasil (2019), Nassif relata um acontecimento revelador sobre o já banqueiro e posterior fundador do Unibanco. 

Os integralistas fizeram uma tentativa fracassada de golpe em 1938, quando atacaram o Palácio Guanabara, quase assassinando Getúlio Vargas. Sua filha, Alzira Vargas, era amante de Moreira Salles. Após a derrota do golpe e a prisão dos fascistas, ela ligou para o banqueiro cobrando explicações: “os seus correligionários tentaram nos matar.”

Foi o que achei sobre o envolvimento específico de Moreira Salles com o integralismo.

Já a respeito do financiamento do banco Itaú, como um “todo” (como revelou Melo Mourão), encontrei uma tese de doutorado em História da Universidade Federal de Juiz de Fora que aborda o assunto, de passagem. O trabalho “A síntese integral – A Teoria do Integralismo na obra de Miguel Reale (1932-1939)”, de Pedro Tanagino (2018), cita o banqueiro Alfredo Egydio de Souza Aranha. Ele foi o fundador do Banco Central de Crédito e depois um dos sócios fundadores do Itaú, em 1945. Tem parentesco com os Setúbal, que controlam hoje o Itaú Unibanco.

Conforme as Memórias de Miguel Reale, citada por Tanagino, Alfredo Egydio desempenhou um papel fundamental na história do integralismo, “como uma espécie de Mecenas no plano das ideias pelas quais simpatizava”. No final dos anos 20, ele era membro do Partido Republicano Paulista (PRP), ao lado de Plínio Salgado, o “führer brasileiro”. Depois, seguiram juntos para a Ação Integralista Brasileira (AIB). Segundo o mesmo Tanagino, Egydio “foi um dos maiores financiadores de sua futura campanha integralista”, nos anos 30.

Desde então, Itaú e Unibanco (que hoje são um só) cresceram e cresceram. Por exemplo, em 1965, no início da ditadura militar, o Itaú era apenas o 150º maior banco do País. Dez anos depois, já era o segundo. Seus donos também fizeram parte integrante do regime político de acentuadas características fascistas, como foi o caso de Olavo Setúbal, prefeito de São Paulo indicado pelo governador Paulo Egídio Martins (outro banqueiro) na década de 1970.

Entre 2013 e 2016, o Itaú (assim como todos os bancos) foi o principal financiador do processo golpista que derrubou Dilma Rousseff do governo. Até mesmo do ponto de vista ideológico o banco não conseguiu esconder que buscava transformar o regime político em algo semelhante ao de 1964. Em 2014, divulgou em todas as suas agências uma agenda que equiparava o dia 31 de março a um feriado nacional, comemorando assim, conforme constava no calendário, o “aniversário da revolução de 1964”.

As hordas fascistas que se formaram para depor o governo do PT foram a base social que permitiu Bolsonaro ser eleito de maneira fraudulenta o novo presidente do golpe, em 2018. Logo após o pleito, o Itaú publicou um relatório a respeito da vitória bolsonarista, despejando elogios tais como: “O novo presidente foi muito hábil em entender que, há muito tempo, as pesquisas qualitativas mostravam uma demanda por mais ordem e segurança. Além disso, apesar do pouquíssimo tempo de TV, Bolsonaro estabeleceu uma comunicação direta com os seus eleitores, baseada na espontaneidade das redes sociais, para cativar a população.”

O mesmo relatório continuava: “é importante frisar que o ponto de partida nos parece muito favorável: o seu partido (PSL) tinha pouquíssima representatividade política, mas sai destas eleições como a segunda maior força da Câmara dos Deputados, tornando-se assim a base fundamental da aliança política, que debaterá temas delicados e que definirá a probabilidade de o novo governo aprovar reformas no campo fiscal e a reforma da previdência no Congresso Nacional. Tais reformas são relevantes para gerarmos um ciclo de crescimento sustentável e, nesse sentido, o mercado focará na formação do governo em si e nas propostas que já venham a ser divulgadas pelos novos quadros da alta administração federal.”

Percebe-se um otimismo e um tom de comemoração no relatório do Itaú, de outubro de 2018. E com toda razão, uma vez que as exigências apresentadas pelo banco (e pelo conjunto da banca nacional e internacional) têm sido satisfeitas de lá para cá. Basta citar o repasse de mais de R$ 1 trilhão que os fascistas no governo fizeram aos bancos no primeiro semestre deste ano.

Apesar da demagogia que os fascistas fazem antes de chegar ao poder, criticando o capitalismo liberal e o sistema financeiro (como fizeram Hitler, Mussolini, Plínio Salgado e Bolsonaro), seus promotores são justamente os capitalistas, que os levam ao poder exatamente para conseguirem saquear as riquezas da população de forma ditatorial quando os mecanismos tradicionais da democracia burguesa já não são suficientes.

Como vemos, as propagandas veiculadas pelo Itaú e demais bancos (já no integralismo, outros também tomaram parte, como o Banco Nacional Imobiliário de Loureiro Junior, principal financiador de Plínio Salgado) a respeito da democracia, da diversidade, da liberdade, dos direitos humanos, do meio ambiente, da igualdade social, não passam de pura mentira.

O que eles gostam mesmo é de um Hitler e de um Bolsonaro, que sempre lhes propiciam um Paulo Guedes para satisfazer todos os seus desejos.

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