Imperialismo sob nova direção
Biden já começa a mostrar sua face imperialista e de direita
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EUA, tire as mãos da Venezuela | Foto: Reprodução
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EUA, tire as mãos da Venezuela | Foto: Reprodução

Um dos principais porta-vozes do imperialismo, a revista The Economist (em artigo reproduzido pelo Estadão em 24/01/21)), apresentou um balanço da transição do governo norte-americano de Trump para Biden, mostrando que ela se dá sobre o solo encharcado de sangue e dor de uma pandemia que já dizimou 400 mil cidadãos em menos de um ano, em uma economia que demitiu mais de 10 milhões de trabalhadores e onde pelo menos um em cada oito norte-americanos não tem o que comer. O que o novo presidente promete é “suturar as feridas” e superar as divisões internas.

A crise norte-americana tem sido noticiada como sendo uma cisão interna provocada por extremistas de direita raivosos e sem noção de civilidade representados por um ex-presidente demente e fanático, o Donald Trump. Nada mais falsa a imagem que se tenta fixar na opinião pública mundial. Por mais teatral que tenham sido as ações de Trump, elas não fugiram de um script que é consenso na classe dominante norte-americana e faz parte da política dos dois maiores partidos representados no Congresso Nacional.

Tentando caracterizar a manifestação de partidários de Donald Trump que acabaram por invadir o Congresso como sendo um ato de insurreição popular, o teatro montado para a posse de Joe Biden mobilizou 25 mil soldados das forças armadas, “número que supera o das forças atualmente mobilizadas no Afeganistão e no Iraque somadas”. Essa mobilização toda tem o efeito de marcar a nova administração federal como aquela que vai provocar a reunião da sociedade sob a batuta da democracia, não à toa o grande símbolo revivido no discurso de posse foi o presidente Abraham Lincon, em cujo mandato houve a guerra civil norte-americana.

Para além de programas de verniz social e de um pacote de “ recuperação” que envolve “imensos gastos em infraestrutura”, o governo Biden será em grande parte uma continuidade do governo Trump, certamente mais agressivo que seu predecessor, tanto no campo externo, quanto no campo interno. Na pauta das “boas ações” está a instituição de um programa de auxílio para enfrentar a covid, um plano de investimentos em energia limpa, o reforço ao seguro desemprego e até o perdão de parte da dívida estudantil, que é uma ameaça constante sobre a cabeça da classe média norte-americana que tenta manter seus filhos nas universidades.

Há um forte movimento do novo governo em aproximar-se dos Republicanos, para garantir uma maioria folgada nas duas casas do Congresso, e isso também ajuda a mascarar as posições francamente conservadoras e direitistas de Biden como sendo parte dos arranjos políticos necessários para manter a paz interna e a governabilidade. A face direitista de Biden nunca foi apagada ou totalmente escondida. Na campanha ele negou ir mais além nas propostas apresentadas pela esquerda dos Democratas e do Partido Verde, tanto na questão da política de saúde pública, como nas questões ambientais e na redução do financiamento da polícia. É bom lembrar que ele foi autor e grande articulador da legislação de encarceramento em massa, que hoje faz os EUA manterem 2 milhões de presidiários, em sua maioria negros e latinos, como uma ponta de um iceberg que envolve o fortalecimento de polícias em todo o país, a manutenção de um contingente de mais de 600 mil guardas e agentes penitenciários, indústrias de manutenção de presídios e orçamentos crescentes do aparato de repressão.

A repressão política, a limitação dos direitos civis e o controle sobre os cidadãos são parte de um processo político que une Republicanos e Democratas há pelo menos duas décadas e que se combina perfeitamente ao processo de encarceramento em massa e a imposição de comportamentos truculentos das polícias municipais e das agências nacionais de segurança. O Patriot Act (decreto do presidente Bush de 26 de outubro de 2001), que deu ensejo a uma série de alterações legais que eliminaram os direitos civis daqueles acusados de terrorismo nos EUA, ainda vigora e será ampliado para incorporar o terrorismo interno. É de se esperar uma movimento rápido do atual governo nesse sentido apostando na repressão e na ameaça permanente sobre os trabalhadores norte-americanos. É a democracia norte-americana mostrando sua face.

O controle político sobre o Congresso é a pedra angular da política de Biden, ele vai usar todas as armas que tem para trazer para próximo de si a bancada Republicana e minimizar as ações da esquerda do Partido Democrata. Nesse caso, ele acredita que algumas atitudes midiáticas com respeito à população LGBT e com os negros serão suficientes, reforçando a imagem (falsa) da vice-presidente como uma simpática das posições da esquerda pequeno burguesa.

Na matéria do The Economista citada no início, prevê-se que a ênfase do primeiro ano do governo Biden seja de caráter interno, passando, talvez, a política externa a um segundo plano. O professor de diplomacia de Harvard, Nicholas Burns, justifica isso afirmando que “para ser uma potência global efetiva, precisamos de estabilidade doméstica”.

Apesar disso, a política belicista e de apoio a golpes na América Latina irá continuar e nem seja considerada política externa, já que o “quintal” ao sul do rio Grande é visto como política interna dos EUA desde as invasões na América Central para defender a Standard Fruit Company. O atual governo encarna o controle da América Latina como sua vocação democrática, sua missão de levar a democracia aos povos do Sul, mesmo que por meio de golpes de estado que se impõem com uso da tortura e de violência indiscriminada. Essa política já começou com o reforço ao bloqueio a Cuba, mantida como “nação terrorista”, junto com Irã, Coreia do Norte e Síria. Um ato dos últimos dias do governo Trump nesse sentido será mantido e reforçado. Isso está ligado também à aceitação do farsante Guaidó como presidente da Venezuela. Com isso, Biden sinaliza para o resto do mundo que esse quintal continua dos EUA e ele vai preservar isso. Essa iniciativa sinaliza também aos agentes norte-americanos que podem continuar com o saque aos bens da Venezuela, especialmente aqueles que derivam de investimentos feitos pela empresa de petróleo venezuelana.

Para além de seu quintal, Biden já sinalizou que vai apoiar Israel de forma incondicional, inclusive na pretenção de transferir a capital política para Jerusalém, confrontando todo o resto do mundo, que na ONU já manifestou preocupação com o que isso pode representar no Oriente Médio.

Há uma simbiose nas atitudes políticas e econômicas promovidas pelo governo dos EUA. As ações das grandes empresas oligopolistas norte-americanas para manter seu poder não têm barreiras. Vão desde o cerceamento das liberdades de expressão contra principalmente a esquerda e os ativistas, até o uso de recursos militares e de satélites para invadir sistemas de comunicação e implantar escutas em todos os governos e empresas que os norte-americanos consideram como adversários ou inimigos ou promover sabotagem em plantas fabris ou sistemas informatizados de indústrias.

Muito rapidamente parte da esquerda mundial que considera o governo Biden como contraponto ao governo de caráter fascista do Trump irá se readequar à compreensão de que ambos fazem parte de uma mesma estratégia de dominação imperialista e não são tão diferentes quanto a imprensa burguesa tem se esforçado para fazer crer. E certamente essa mudança de posição da esquerda liberal ou pequeno-burguesa se fará em função dos atos do próprio governo Biden, muito mais que fruto de uma compreensão política derivada do debate.

Não podemos esquecer que o que está ocorrendo nos EUA é parte do processo resultante de uma crise profunda do capitalismo, que se manifesta no momento amalgamado com a crise sanitária global, mas que terá continuidade nos próximos anos quer se manifestando nos conflitos econômicos e políticos entre a potência em decadência, os EUA, e a China em ascensão. Em meio a um planeta cheio de conflitos bélicos que se perpetuam e outras tensões que vão se desenhar provocando novas e sangrentas guerras.

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