Estelionato político
Esquerda pequeno-burguesa prepara “seminário” enquanto Bolsonaro põe canhões e tanques nas ruas

Por: Redação do Diário Causa Operária

Victor Assis

Victor Assis

Militante do Partido da Causa Operária desde 2016 e membro do Coletivo de Negros João Cândido. Colunista do Diário e apresentador da Causa Operária TV.

No dia 31 de março, o presidente ilegítimo Jair Bolsonaro utilizará seu controle cada vez maior da máquina pública para organizar uma comemoração oficial, de Estado, da ditadura militar de 1964-1985. Não é “negacionismo”, “obscurantismo” ou “necropolítica”. É, simplesmente, o que é: a apologia de um regime semifascista. E a apologia, aqui, tem um sentido muito claro: Bolsonaro reafirma que está disposto a comandar um regime de terror contra o povo, caso seus patrões assim julguem necessário.

A ditadura do passado e a ditadura do presente

Os elogios a Carlos Brilhante Ustra, Alfred Stroessner e Augusto Pinochet não são apenas um “saudosismo”, até porque Bolsonaro não é um mero colecionador de figurinhas de ditadores monstruosos. Bolsonaro é a expressão de um movimento real, que é o deslocamento dos setores mais conservadores da classe média à direita, na medida em que a polarização política aumenta. Isto é, da reação violenta e histérica da pequena burguesia, manipulada pela classe dominante, às tendências cada vez mais revolucionárias do povo em uma situação de crise.

Essa crise, por sua vez, só aumenta. A expectativa de meio milhão de vítimas da pandemia já consta até mesmo nos cálculos governistas. Os índices de desemprego, apesar de todas as falsificações e distorções dos institutos de pesquisa, atingem novos recordes periodicamente. A quantidade pessoas que estão sendo empurradas para a miséria está na casa dos milhões, principalmente depois da extinção do auxílio emergencial, recentemente ressuscitado com um valor inferior a 1/4 do preço de uma cesta básica. O Brasil, hoje, é um barril de pólvora, prestes a explodir. E vai explodir, assim como o Paraguai, o Chile, a Bolívia e o Equador explodiram.

A burguesia sabe muito bem que a situação está por um fio. Sabe, inclusive, que não só o povo está vendo suas condições de vida caírem rapidamente, mas também que a fúria com sua situação econômica vem acompanhada de uma evolução na sua consciência política. Os trabalhadores estão cada vez mais conscientes de quem são seus inimigos e de que só devem confiar em suas próprias forças. O caso do ex-presidente Lula é o que mostra isso mais claramente: a perseguição ao principal líder de massas do País levou a tal desgaste das instituições que a burguesia se viu obrigada a anular os processos da Lava Jato.

Cada vez menos, os de baixo querem ser governados por aqueles que estão no poder. E os de cima, encurralados pela sua própria crise, cada vez mais perdem a capacidade de governar. Estamos, portanto, na antessala de uma situação revolucionária, como nos ensinou Lênin.

Por isso, a burguesia tem a necessidade de fechar cada vez mais o regime. A ditadura, que vem sendo implementada desde, pelo menos, 2012, com o julgamento do mensalão, segue a todo vapor. De lá para cá, vários dirigentes importantes da esquerda foram presos sem prova, os militares passaram a ocupar postos-chave no regime, um governo de esquerda foi derrubado, uma eleição foi fraudada de maneira descarada, centenas de sem terra foram mortos, a polícia se tornou ainda mais assassina e toda a oposição está ameaçada de ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Enquanto o Estado aterroriza a população comemorando a ditadura militar, indivíduos estão sendo presos por publicar um tweet ou pintar uma faixa…

A ditadura militar não é só parte de um passado sombrio da história brasileira. É uma ameaça cada vez mais presente na situação política, uma carta na manga da burguesia que vai sendo cada vez mais necessária na medida em que a crise se aprofunda. A polarização política não vai diminuir — seria preciso, para isso, que, milagrosamente, a burguesia encontrasse uma solução para sua crise, coisa que não era provável e que tornou-se ainda mais improvável com a pandemia. A única forma de impedir uma nova ditadura militar, portanto, é fazendo a burguesia temer as suas consequências: é preciso colocar o povo na rua. Somente a mobilização dos trabalhadores, a exemplo do que aconteceu na Turquia em 2016, é capaz de mandar os tanques de guerra de volta aos quartéis.

Os cavalos de Troia da frente ampla

Para impedir que o povo vá à rua, a burguesia utiliza, basicamente, duas manobras. Uma é o uso da força bruta, a repressão propriamente dita, que, embora tenha alguma eficiência, sempre acaba provocando uma revolta de difícil controle. Para complementar essa política e evitar a fúria das massas, a classe dominante costuma fazer uso de seu segundo principal recurso: a cooptação de cavalos de Troia que se infiltrem no meio da esquerda para impedir que o movimento operário se organize e avance na sua luta.

Neste momento, já não dá para contar a quantidade de cavalinhos esculpidos pelo regime político e envernizados com privilégios bestas e mesquinhos como um cargo no parlamento, uma coluna na Folha de S.Paulo ou um elogio da revista Time. Todos eles, contudo, têm, em comum, a mesma política: a de tentar convencer os setores sinceros e militantes da esquerda a aderir a uma tal de frente ampla.

A frente ampla pode até ser bastante ampla, mas engana-se quem pensa que é irrestrita. A história da civilização humana é a história da luta de classes; logo, a frente ampla não é o instrumento de uma vontade divina ou moral do “bem” contra o “mal”, o “fascismo” e o “negacionismo”, mas sim a iniciativa política de uma classe social. E que classe seria essa?

A burguesia nunca se colocou contra a frente ampla. Pelo contrário: dia e noite preza pela formação de uma aliança nacional, em nome do que considera “civilizado”. A direitista Vera Magalhães já apresentou claramente a defesa de tal frente. E a Globonews, que morre de medo da polarização, vive assediando a esquerda para o “centro”. Afinal, se a esquerda se dirigir para o “centro” — que nada mais é do que o próprio regime burguês —, ela não estará se radicalizando.

Os golpistas têm a iniciativa de convidar a esquerda para sua ciranda porque sabem que a pequena burguesia, incapaz de ter um programa próprio, não consegue dirigir uma frente com outras classes sociais. E que, portanto, uma frente com a esquerda pequeno-burguesa será uma frente da burguesia com a esquerda a seu reboque.

Mas e se não estivermos falando de uma esquerda pequeno-burguesa, mas sim de uma esquerda proletária? Rapidamente, o jogo muda. O ex-presidente Lula, conforme mostrou em seu último discurso público, estaria disposto a formar uma espécie de “frente ampla” com a burguesia — isto é, um governo de colaboração de classes, como foi o governo do PT. No entanto, como Lula é um representante da classe operária, e a classe operária brasileira é muito mais forte que a dos países vizinhos e segue se radicalizando, uma frente com a burguesia encabeçada por Lula seria um risco enorme para os capitalistas. Caso Lula vencesse uma eleição, mesmo que tivesse Rodrigo Maia como vice, os trabalhadores entenderiam que aquele seria o governo deles e fariam uma pressão enorme para que adotasse um programa oposto ao da burguesia. É por isso que a burguesia não está disposta a formar uma “frente ampla” com Lula.

Muito pelo contrário! A formação da frente ampla passa, obrigatoriamente, pela retirada de Lula do cenário político. Apenas sem ele e através de uma sucessão de manipulações e falsificações, seria possível que a tal frente ampla prosperasse. Com Lula fora da jogada, a burguesia poderia apontar o dedo para um vigarista qualquer, como Ciro Gomes ou João Doria e mandar a esquerda lhe apoiar.

Guilherme Boulos, que é um dos representantes da frente ampla, falou abertamente, em entrevista ao Valor Econômico, que estaria disposto a apoiar qualquer bandido político da direita em 2022 que chegasse ao segundo turno:

“A centro-direita terá seu candidato ou seus candidatos. Mas, no segundo turno, sou favorável à unidade democrática contra Bolsonaro caso ele esteja lá”.

Com Lula nas eleições, isso seria impossível, pois sua presença no segundo turno seria certa.

O golpe militar, seria, portanto, o golpe Raiz da burguesia, que põe suas tropas nas ruas para conseguir o controle da situação política, mesmo quando a situação é imensamente desfavorável. Já o golpe da frente ampla seria uma espécie de golpe Nutella da esquerda pequeno-burguesa, que trai o povo que diz representar e ainda fica de fora do poder político. A frente ampla, como ficou óbvio, não é uma política para que a esquerda e a direita dividam o poder — o que já seria muito ruim —, mas para que um setor falido da direita retome o poder e a esquerda tipo Guilherme Boulos, que serviria como uma cheerleader na eleição, possa celebrar, da arquibancada, a burguesia aplicando o seu programa criminoso e impopular…

Na pandemia, os frente-amplistas já deixaram claro para que vieram. Abandonaram qualquer perspectiva de mobilizar o povo em torno de um programa contra a crise e passaram a aplaudir João Doria, Wilson Witzel e tantos outros bandidos políticos. E o resultado está aí: quase 300 mil mortos, em troca de sabe-se lá que carguinho que não vai mudar a vida de pessoa alguma a não ser deles próprios.

A sauna do PSOL

Na Paraíba, a novidade da frente ampla já chegou. O PSOL, partido alugado por Guilherme Boulos para dar o seu golpe Nutella, também está preparando um golpe, para usar o vocabulário regional, bastante fulêro: o da unidade da esquerda paraibana!

Unidade… mas por que unidade? Se as organizações de esquerda tivessem o mesmo programa, os mesmos objetivos e os mesmos métodos, não faria sentido haver organizações diferentes: bastaria uma única. Se o solzinho paraibano decidiu propor uma unidade, há, então, de haver um motivo.

O motivo é o mesmo pelo qual Guilherme Boulos assinou manifestos com Fernando Henrique Cardoso e Armínio Fraga, pelo qual Flávio Dino apoiou o Republicanos no Maranhão ou pelo qual Marcelo Freixo disse que “Lula livre” não unifica: há uma turminha de burocratas no caritó desesperados para casar com a burguesia. Com quem será? Vai depender, vai depender se o PSD vai querer, se o PSDB vai querer, se o DEM vai querer… opa, o PSB já aceitou!

O PCO está propondo, há mais de dois anos, a unidade da esquerda e de todas as organizações do movimento operário e popular pelo Fora Bolsonaro e pelos direitos políticos de Lula. E uma unidade bastante simples. Não precisa ler Domenico Losurdo para ficar mais debiloide ou declamar um poema de Mauro Iasi sobre o amor baseado no desamor ao não amor. Basta pegar sua bandeirinha vermelha, sair debaixo de cama e ir para a rua. Mas a esquerda não é dada a enredos tão simplórios…

Não, senhor! Os burocratas bem-pensantes do PSOL, que bateram panela junto com Luciano Huck, trocam a última letra de cada palavra por “x” para se sentirem mais feministxs e organizaram carreatas proletárias, quase atropelando os burgueses que iam trabalhar em vez de #ficarem em casa, têm um plano muito mais brilhante. Em vez de saírem às ruas contra a ditadura militar do passado e protestarem contra a ditadura quase-militar do presente, os frente-amplistas vão inaugurar uma espécie de clubinho aristocrático para falar mal de Bolsonaro e dos seus ídolos fardados. No dia 31 de março, quando a extrema-direita estará nas ruas para celebrar as torturas da ditadura militar, os notáveis frente-amplistas da Paraíba irão se esconder de todo o mundo para apresentar ao público o seminário “Que Unidade Queremos”.

Peço desculpas ao leitor, caso tenha imaginado, que clubinho aristocrático seria uma reunião de Phileas Fogg e seus pares do Reform Club para uma partida de uíste. Longe disso… Os burocratas do PSOL irão discutir os males da sociedade de pijama, dentro de suas próprias casas… O clubinho, neste sentido, estaria mais próximo a uma sauna virtual para a confraternização de velhos amigos.

Que diabos de unidade o PSOL quer ao juntar seus colegas em uma sauna virtual enquanto Bolsonaro desfila de tanque? Com o povo é que não é, pois o povo estará nas ruas, como sempre esteve, seja trabalhando, seja procurando emprego, seja protestando contra o governo. Mas uma rápida olhada nos convidados para a empreitada do PSOL já nos permite entender bem aonde querem chegar…

Antes dos convidados, chamo a atenção para os não convidados. No seminário “Que Unidade Queremos”, cujo título da nota à imprensa é PSOL, (…) convocam seminário para discutir a esquerda na Paraíba, não foi chamado o PCO. Não é que o PCO tenha recusado a participação: sequer fomos chamados. Mas por quê? O PCO não é de esquerda? Ou será que não seria “tão esquerda” assim quanto os demais partidos? Trata-se exatamente do contrário: não chamaram o PCO porque somos o partido do Fora Bolsonaro e da luta contra a frente ampla.

Embora deselegante, a falta do convite não fará diferença. No entanto, é preciso destacar o estelionato que é vender um seminário que vai discutir “a esquerda” e ignore o partido mais à esquerda do País…

Vamos, sem mais delongas, aos partidos convidados: PCdoB, PT, UP e… o glorioso, esquerdista, revolucionário PSB!

O PCdoB e o PT são os maiores partidos da esquerda parlamentar — nada mais natural do que serem convidados. Afinal de contas, o grande objetivo da frente ampla é eleitoral — que outro tipo de política seria possível feita de dentro de casa?! A UP é o componente supostamente “radical” da sauna frente-amplista, pois é o único partido sem representação parlamentar e que tenta fazer uma propaganda mais ideológica. Trata-se, contudo, de uma mera impressão: a UP é, como todo partido stalinista, um grupinho com verborragia pseudorradical, mas com uma política super direitista. O partido não tem um programa próprio, nem uma imprensa. Em praticamente todas as capitais onde o PSOL lançou candidato, a UP apoiou o solzinho logo no primeiro turno. É, portanto, um natimorto, uma legenda eleitoral que já nasceu acoplada a outra sigla.

O PSB, por fim, é o grande motivo por trás do “seminário”. Toda essa enrolação de “unidade de esquerda” serve somente de fachada para que o PSOL fique a serviço do PSB, assim como hoje a UP e o PCB estão sob sua órbita. Isso, inclusive é óbvio: se o objetivo do “seminário” é eleitoral, o fator mais importante da frente que está sendo proposta é aquele com a maior máquina eleitoral. E quem tem a maior máquina é, naturalmente, o PSB, partido de um setor da oligarquia paraibana que já governou o estado. O potencial eleitoral do PT, embora seja grande, está muito atrelado à figura do ex-presidente Lula e aos setores mais lulistas do partido, coisa que está em contradição com a frente ampla…

O Fórum Pró-Campina

Segundo a nota à imprensa, o “seminário” servirá para “lembrar esse período de tortura e ataques ao Estado Democrático de Direito, e a luta dos setores progressistas para restabelecer a democracia”. Contudo, logo depois, o texto revela suas verdadeiras intenções: “o Seminário iniciará com uma breve saudação dos partidos que convocam a atividade, em seguida [um] representante do Fórum Pró-Campina vai relatar a experiência unitária construída em Campina Grande e as inscrições serão abertas ao público” [grifo nosso].

O objetivo da sauna psolista, portanto, será o de tentar transformar a proposta do Fórum Pró-Campina em uma aliança para todo o Estado. E o que é esse fórum? Segundo o PSOL, uma “unidade na ação, nas mobilizações, nas formulações de programas e propostas para enfrentar as crises e, principalmente, propor algo novo para um novo ciclo de radicalização da democracia e da justiça social e ambiental”. Na prática, nada de ação, nada de mobilização e uma aliança com partidos golpistas como o PSB e a Rede.

Em Campina Grande, inclusive, o PSOL, nas eleições de 2020, foi cabeça de chapa em uma frente com o PSB. E por quê? Porque, em Campina Grande, o PSB não tem força: desde o fim da ditadura militar, a cidade é comandada pelo MDB, PSDB e PSD, todos sob o controle dos coronéis da família Cunha Lima. O PSB não tinha chance alguma de ganhar e continua tendo alguma parte na repartição dos cargos na gestão do município. No entanto, sair como vice do PSOL será apresentado como um gesto de grande abnegação e disposição na luta pela “unidade”.

Mas e em João Pessoa, no centro político do estado? E nas eleições estaduais, que são muito mais importantes que as eleições de 2020? É óbvio que o PSOL não terá condições de encabeçar uma chapa. Para a esquerda, abrir-se-á apenas duas possibilidades: apoiar uma candidatura comandada pelo PSB, em que os parlamentares e burocratas do PSOL, do PCdoB e da ala direita do PT consigam garantir alguma secretaria caso eleitos (frente ampla), ou uma candidatura vinculada ao ex-presidente Lula, que melhor expresse a polarização política.

A crise do PSB

Não podemos esquecer que a unidade da esquerda paraibana é um golpe fulêro: os maiores beneficiados não são os setores da esquerda que mentem para seus eleitores, mas sim os parasitas da direita, já banguelos de tão velhos, pregados em seu pescoço. Neste caso, a situação é muito clara: quem mais tem a ganhar não é o PT, o PCdoB, o PSOL ou a UP, mas o PSB, certamente o partido em maior crise na Paraíba.

O PSB e o PDT, que são partidos burgueses que possuem relações com a esquerda, foram duas das legendas mais afetadas pelo golpe de Estado, uma vez que suas contradições internas são muito acentuadas. Diferentemente de um partido mais tradicional da burguesia, como o PSDB, ambos os partidos se dividiram na votação do impeachment. As direções nacionais do PDT e do PSB acabaram se posicionando abertamente em favor do golpe, mas isso gerou muita crise, principalmente com o PSB em alguns estados do Nordeste e do Norte. Embora não tivessem contribuído efetivamente com a luta contra o golpe, parlamentares como Lídice da Mata (BA) e João Capiberibe (AP), pressionados tanto pela situação miserável de seus redutos, como pela posição das oligarquias locais em relação à política lulista, ficaram ao lado do governo petista e, posteriormente, defenderam os direitos democráticos do ex-presidente Lula.

Na Paraíba, o então governador Ricardo Coutinho (PSB), ao contrário do governador pernambucano Paulo Câmara (PSB), ficou ao lado do governo petista. E não só ele, como a maior parte dos parlamentares e figuras públicas do PSB paraibano, que era, naquele momento, bastante controlado por Coutinho. Essa situação, contudo, não poderia durar muito. Pouco a pouco, a pressão da direita sobre o PSB foi aumentando para que o partido assumisse uma posição mais alinhada com o regime, o que foi levando a uma crise no partido.

Como indícios claros dessa crise, podemos apontar a própria prisão de Ricardo Coutinho em 2020, durante a Operação Calvário, deflagrada claramente com o intuito de atingi-lo. Naquela época, houve uma movimentação para tentar expulsá-lo do partido, mas Coutinho acabou permanecendo. Outro indício importante foi a saída do atual governador João Azevêdo, afilhado político de Coutinho, do PSB. E o seu destino mostra bem de que lado vinha a pressão: Azevêdo foi parar no Cidadania e apoiaria, em 2020, o bolsonarista Cícero Lucena (PP) nas eleições para prefeito de João Pessoa.

Em 2019, membros do PSB já descreviam esse embate entre João Azevêdo — que, conforme sua migração para o Cidadania comprovaria, estava sendo pressionado pela direita — e Ricardo Coutinho. O líder do PSB na assembleia legislativa à época declarou:

“Eu tenho dito que o que começa errado tem muito para dar errado, e acho que vai terminar errado. O partido vai encolher e muito. Eu aproveito para responsabilizar por essa derrocada o próprio ex-governador Ricardo Coutinho, como as deputadas Cida Ramos e Estela Bezerra. O partido está sangrando e quem protagonizou isso tem que ser responsabilizado e a história fará esse registro” [grifo nosso].

Não por coincidência, Cida Ramos e Estela Bezerra são justamente as duas convidadas para a sauna do PSOL.

Em 2019, também, outra figura do PSB entrou em conflito com Ricardo Coutinho: o senador golpista Veneziano Vital do Rêgo, que culpou Coutinho por estar provocando uma crise na legenda. Depois de um tempo, Veneziano iria parar no MDB… No mesmo período, um deputado alegou que 40 prefeitos poderiam sair do PSB.

Ricardo Coutinho permanece no PSB, mas muito, muito fragilizado. Tanto é assim que teve um desempenho vergonhoso nas eleições municipais de 2020, ficando em sexto lugar. Há vários boatos de que o ex-governador estaria tentando regressar ao PT, o que mostra que sua força política no PSB está se esgotando.

É por isso que o verdadeiro interesse na “unidade da esquerda” vem do PSB. O partido está falindo, fechando as portas, tanto que seus elementos mais afetados pela crise, que estão sendo descartados e perseguidos pelo regime, são os convidados para o “seminário”.

Conclusões

Mas se os elementos do PSB estão buscando a unidade com os partidos de esquerda porque estão sendo descartados pelo regime, isso não os faria aliados da esquerda? Não teriam Coutinho e seu grupo motivos reais para formar uma frente de esquerda? Se Ricardo Coutinho defendeu Lula, por que a frente com o PSB seria anti-Lula? Por fim, a iniciativa do PSOL não seria solidária, no sentido de tentar formar uma frente com figuras perseguidas por não terem apoiado o golpe?

Em primeiro lugar, o grupo comandado por Ricardo Coutinho não é um mero agrupamento de indivíduos, mas sim um grupo que expressa uma classe social. Coutinho e os demais representam um setor minoritário da burguesia e da oligarquia nordestinas, dissidente de setores mais importantes e pró-imperialistas, como as famílias Cunha Lima, Ferreira Gomes, Campos e Collor de Mello. Esse setor, que está muito ligado às políticas de tipo desenvolvimentista do governo Lula, têm, portanto, uma contradição com os setores mais tradicionais da classe dominante, que têm um controle maior dos latifúndios e, portanto, dependem menos da política dos governos petistas.

É essa contradição que empurra o grupo de Coutinho para uma posição aparentemente mais progressista. No entanto, continuam sendo apoiado por setores burgueses, incapazes de enfrentar de fato o imperialismo, mesmo quando muito pressionados. Afinal, Ricardo Coutinho, para enfrentar a burguesia, precisaria se apoiar no movimento operário, o que ele não está minimamente disposto. Coutinho e seu grupo, quando se deslocam à esquerda, apenas procuram chegar a um acordo favorável com o regime. Tão logo consigam o que querem, não terão maiores compromissos com a esquerda.

Neste sentido, a aliança com o grupo de Coutinho só serviria para que a esquerda levasse mais uma rasteira…

A frente com o PSB, mesmo a ala “esquerda” da legenda, seria uma frente anti-Lula porque o programa que a burguesia defende é um programa, necessariamente, anti-Lula. Ricardo Coutinho pode querer, sinceramente, que Lula voltasse a ser ganhar uma eleição e estabelecesse um governo como o de 2003. No entanto, isso não é possível. Lula só poderá ganhar uma eleição se travar uma guerra contra toda a burguesia golpista. E essa burguesia golpista, por mais que esteja perseguindo Ricardo Coutinho, tem uma aliança com o setor que lhe sustenta. Aqui, voltamos ao mesmo problema: mesmo que o acordo com o imperialismo seja muito desfavorável, Coutinho vai acabar procurando alguma aliança com os setores predominantes da burguesia, pois, caso contrário, teria de depender da classe operária.

Dito de outra maneira, se Lula fosse eleito sobre a base de um movimento revolucionário, seu governo seria pressionado a reduzir a jornada de trabalho para 35 horas, multiplicaria o salário mínimo em cinco vezes, criaria várias políticas assistenciais etc. Isso está em completa contradição com o programa de Ricardo Coutinho. Uma hora ou outra, ele irá abandonar o apoio a Lula.

Segundo o que apareceu na imprensa burguesa, Lula teria apoiado Ricardo Coutinho em 2020 e pressionado a direção nacional para que seu interesse prevalecesse. Se de fato assim tiver sido, não há contradição com o que dissemos. Essa é simplesmente a política de Lula, uma expressão de suas concepções reformistas, fruto da sua limitação enquanto um político empírico. O que importa é que esse tipo de política, em algum momento, será inviabilizada. Lula pode querer aliar-se a setores da burguesia, mas a polarização cada vez maior não permite isso.

Para Lula, seu cálculo pode até fazer algum sentido. Se de fato as informações procedem, ele teria decidido não apoiar o candidato do PT em João Pessoa — que não tinha expressão, como Marília Arraes ou Luizianne Lins —, levando em conta que apoiar Ricardo Coutinho serviria para manter uma boa relação geral com o PSB e com um importante articulador político no Nordeste. Esse cálculo, contudo, está equivocado. O PSB não irá se aliar a Lula — pelo contrário, o partido se mostra cada vez mais bolsonarista —, e os setores mais esquerdistas da legenda estão perdendo cada vez mais força, pois não contam com o apoio da burguesia, nem muito menos da classe operária.

É importante destacar que a candidatura de Anísio Maia (PT) não era, tampouco, a antítese da candidatura de Ricardo Coutinho. A candidatura foi levada adiante à revelia de Lula e da direção nacional, sendo bancada principalmente pelos dirigentes estaduais do partido: o presidente estadual, Jackson Macêdo, a secretária de Mobilização, Cély de Andrade, o secretário estadual de Setoriais, Anselmo Castilho, entre dezenas de outros signatários do manifesto em defesa de Anísio Maia. Esses mesmos dirigentes, pouco depois das eleições, aprovaram uma resolução decidindo apoiar o governador cada vez mais bolsonarista João Azevêdo.

Ou seja, longe de ser uma política de rompimento com os partidos golpistas, a candidatura própria em João Pessoa nada mais era que uma queda de braço com Ricardo Coutinho, persona non grata pelo governo estadual, para que o diretório regional do PT pudesse assumir alguns cargos após as eleições. No último mês, isso ficou ainda mais claro quando o petista Antônio Barbosa, que estava apoiando Ricardo Coutinho, anunciou que iria entrar com um recurso perante a direção nacional do PT pedindo a anulação do apoio a João Azevêdo.

Tanto a política de apoiar o PSB em troca da ilusão de um apoio que não virá, como a política da direção regional, só contribui para a desmoralização ainda maior da esquerda. É, no fundo, a mesma política de colaboração com os setores que deram o golpe de Estado: seja a colaboração com um setor da burguesia que capitula para a pressão do imperialismo, seja a colaboração com um governo do Cidadania que apoiou o candidato bolsonarista do PP. É por isso, inclusive, que tanto o grupo de Ricardo Coutinho estará presente no “seminário”, quanto Jackson Macêdo e Anselmo Castilho. Embora tenham divergências superficiais em qual partido burguês apoiar, ambos estão a serviço da frente ampla.

A única política diferente disso seria a que o PCO levou adiante durante as eleições municipais, ao lançar o companheiro Camilo Duarte como candidato a prefeito de João Pessoa: escolher um candidato que fosse representante da luta contra o golpe e fazer uma campanha de rua, com total independência da burguesia, por Fora Bolsonaro e Lula presidente.

Por fim, o PSOL, ao propor a frente ampla, não está contribuindo nem para o avanço da luta contra o governo Bolsonaro, nem em defesa de Lula, nem contra o regime de conjunto. O partido, inclusive, nunca se solidarizou com Ricardo Coutinho: parte de seus membros ignorou os acontecimentos, parte fez questão de criticá-lo. Se a aliança com a burguesia é inaceitável, a denúncia da perseguição do regime aos seus inimigos é uma obrigação da esquerda. O PSOL, no entanto, faz tudo às avessas: defende aos quatro cantos a “unidade” com a direita, mas, quando o regime persegue os setores que o PSOL diz apoiar, o solzinho incorpora o espírito de Deltan Dallagnol:

“o Partido não comunga com quaisquer atos de corrupção, sejam de quem for, e continuará acompanhando todos os desdobramentos judiciais do processo da operação calvário com a devida atenção para as denúncias e o respeito ao devido processo legal. O PSOL não tolera corrupção, nem abuso de autoridade, métodos comuns da reprodução do sistema capitalista que precisam ser combatidos”.

O apoio do PSOL ao PSB nada tem a ver com Coutinho, que seria o setor mais esquerdista do PSB paraibano. A sauna é, portanto, uma forma do PSOL aproveitar a confusão gerada pelo fato de que Ricardo Coutinho e seu grupo apresentam posições supostamente progressistas para traficar um apoio generalizado ao PSB e outros partidos golpistas. Em Campina Grande, por exemplo, o PSOL formou chapa com Fábio Maia, homem bastante ligado a Coutinho, mas que é um político muito mais direitista que o ex-governador. Em 2019, segundo a própria imprensa burguesa, Fábio Maia teria assumido um cargo na direção do PSB no lugar de Ricardo Coutinho porque o ex-governador seria muito “radical”:

“após oferecer maioria da Comissão Provisória a João Azevêdo e ele rejeitar, aliados de Ricardo consideram que pegaria muito mal para a imagem do ex-governador assumir como interventor, já que foi da linha de frente no combate ao que chamaram de golpe contra a ex-presidente, Dilma Rousseff” (Paraíba Online, 27/11/2019).

Fábio Maia, inclusive, foi destituído do cargo de presidente municipal de Campina Grande em 2016, quando insistiu em apoiar o MDB.

Se a defesa do PSB já não tem coisa alguma a ver com a luta contra o golpe, o que dizer, então, do fato de que o PSOL quer formar uma frente com a Rede, um partido golpista ainda mais “puro sangue”?

A esquerda pequeno-burguesa que vê na aliança com os golpistas a grande salvação para o fascismo está cavando a sua própria cova. Por isso, é preciso abandonar completamente qualquer perspectiva centrada na frente ampla e organizar os trabalhadores para enfrentarem, com as próprias mãos, os seus inimigos. Fora Bolsonaro e todos os golpistas! Lula presidente já!

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