Identitarismo estatal
Deputada do PSOL quer transformar em lei a retirada de estátuas, dando ao Estado golpista o poder de decidir sobre a história
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Estátua de Borba Gato em São Paulo. | Reprodução.

A deputada estadual pelo PSOL em São Paulo, Erica Malunguinho, protocolou projeto de lei, na última quarta-feira, dia 24, que prevê a retirada das ruas de monumentos que prestem homenagens a figuras consideradas escravocratas do País. Esses monumentos, estátuas e bustos deveriam ser colocados em museu, segundo o projeto apresentado. Também deveriam ser mudados os nomes de prédios públicos, ruas e rodovias com nomes de personagens que seriam ligados à escravidão.

A ação da deputada do PSOL vem na esteira da discussão aberta pela esquerda pequeno-burguesa brasileira sobre a derrubada e remoção de monumentos, copiando alguns acontecimentos dos Estados Unidos e na Europa, onde estátuas de figuras ligadas à escravidão foram derrubadas pelos manifestantes após o assassinato de George FLoyd por um policial.

A esquerda brasileira, ligada à ideologia identitária, iniciou tal discussão sem que houvesse nenhum movimento no mesmo sentido no Brasil. Na realidade, essa ideologia não tem nenhuma relação com a luta contra o fascismo e o racismo e aparece em grande medida como um fator diversionista da luta real contra a repressão policial e a exploração. Ou seja, procura substituir a luta concreta por uma luta simbólica.

No Brasil, há o agravante de que essa ideologia é fruto apenas de uma esquerda de tipo universitária, que tem determinadas concepções extravagentes ligadas ao identitarismo. No fundo, tal ideia tem um caráter reacionário pois entende que seria preciso, através de medidas morais e subjetivas de cada indivíduo ou grupo, modificar a história. Esconder as contradições que são parte de qualquer processo histórico.

Erica Malunguinho tem nesse sentido o demérito de transformar essa ideologia confusa, de fundo reacionário, em uma lei. O PSOL acredita que o Estado burguês será capaz de dizer quais são os monumentos dignos de condenação moral, ou seja, caso a lei proposta seja aprovada, o Estado dominado pela direita será capaz de definir o que é moralmente condenável e retirar as estátuas.

Sobre isso, não custa nada lembrar que parte da direita golpista difunde a ideia absurda de que Zumbi dos Palmares era escravagista. A ideia é absurda, mas quem terá mais força para impô-la, caso se decidam retirar também a estátua de Zumbi?

E o que dizer se a direita decidir que uma estátua de um combatente contra a ditadura militar deve ser retirada porque seria moralmente ruim uma homenagem a uma pessoa “violenta”? O PSOL teria forças para impedir tal apreciação subjetiva? Claro que não.

Isso não é mera suposição, a direita de fato sumiu com a estátua de Lamarca na cidade de Cajati no interior de São Paulo. O mandante desse feito teria sido o agora ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles que na época era secretário do Meio Ambiente em São Paulo. Em 2017, em cerimônia no Vale do Ribeira, Salles teria ordenado ao coronel da PM no local que retirasse a estátua e ainda proibiu a exibição no museu do Parque do Rio Turvo de painel que contava a história de oito guerrilheiros que havia passado por ali.

Erica Malunguinha quer dar à direita a oportunidade de fazer isso em grande escala. Com mais uma lei, é mais provável que se derrubem as poucas estátuas que representam a luta do povo.

Nem iremos entrar no mérito da interpretação completamente errônea da história sobre os bandeirantes. Mas justamente por se tratar de uma interpretação, não devemos medir a história com nossas réguas morais. A moralidade é algo muito subjetivo, o que é condenável hoje pode não ter sido no século passado, o que é condenável para a esquerda, não é para a direita e vice versa, mas quem terá mais força para impor essa moralidade com certeza não será a esquerda.

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