O “consumo” destruiu o Brasil?

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A antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Rosana Pinheiro Machado, em coluna publicada pelo portal The Intercept Brasil no dia 22 de julho, se propôs a analisar os efeitos que o aumento do consumo durante os governos do PT teriam tido em relação à politização dos brasileiros. A coluna, intitulada “Da esperança ao ódio: como a inclusão do consumo na Era Lula atiçou o recalque das elites”, defende que o acesso das camadas populares a bens de consumo teriam levado a um incremento da despolitização entre as massas.

A crítica de que o PT transformou os trabalhadores em “consumidores” é bastante frequente, inclusive na imprensa burguesa. Segundo essa crítica, o papel dos governos petistas não deveria ser o de prover à população suas necessidades, mas sim o de “politizá-la”. Rosana Machado apresenta essa crítica de maneira explícita em sua coluna:

Após anos de mobilização popular, com a vitória de Lula em 2002, inicia-se uma nova era do PT – o lulismo –, caracterizada por políticas de redução da pobreza, inclusão social e financeira em conciliação com as elites. Mas a relação entre o estado e a população se tornava a cada dia mais individualizada e despolitizada, demandando menos esforço na construção do coletivo. “Toma aqui o seu cartão Bolsa Família, cumpra o check-list e tchau”. Aos poucos, houve uma gradual desmobilização das bases petistas e o esvaziamento da lógica coletiva.

De fato, o governo Lula levou adiante políticas que visavam a redução da pobreza e a inclusão social. Essas medidas, no entanto, não podem ser, de forma nenhuma, entendidas como um meio para a despolitização: a população havia sido torturada durante anos de governos neoliberais, crianças morriam de fome e o desemprego era alarmante. Toda e qualquer política que tentasse minimizar o estrago causado pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) deveria ser incentivada.

Alguém que testemunhasse o fim do governo FHC, por sua vez, poderia perguntar: mas a política correta não seria expropriar os bancos e capitalistas e distribuir tudo para a população que estava na miséria? Seria correta, mas em nenhum momento essa foi a política que o PT se propôs a fazer. Portanto, alegar que o “lulismo” seria uma “nova era” do PT é inconsistente: o PT se propôs a ser um partido reformista, cujo fim é tentar corrigir a sociedade capitalista, não derrubá-la. A vitória de Lula, desse modo, não representou nenhuma mudança programática para o PT.

O PT venceu as eleições de 2002 justamente porque se propôs, dentro de uma perspectiva reformista, a permitir que os trabalhadores tivessem acesso a melhores condições de vida. E isso, de fato, Lula fez: programas como o Bolsa Família e a instituição das cotas para as universidades, embora fossem muito limitados, permitiram que setores da população saíssem da miséria.

A crítica de Rosana Pinheiro Machado ao consumo tem também um aspecto moral. Para ela, o problema fundamental do consumo popular nos governos petistas teria sido o fato de que as políticas dos governos petistas teriam levado à destruição do que chama de “coletividade”:

Diferentes pesquisadores, como Wolfgang Streeck e Lena Lavinas, concordam que políticas públicas neoliberais, como a inclusão financeira e inclusão pelo consumo, levam à erosão da democracia, à retração de bens públicos e ao esvaziamento da política no tecido social. Nesses anos acompanhando os “novos consumidores”, vimos os espaços coletivos minguarem, os bens públicos se degradarem e o tio do pavê que comprava um carro se achar superior a seus vizinhos.

Nesse ponto, a antropóloga leva a sua tese ao absurdo. Afinal, como afirmar que a inclusão levaria à “erosão da democracia”? Assim sendo, o que seria democrático, manter a farra dos capitalistas que permite que os bancos lucrem bilhões enquanto a população morre de fome?

Segundo defende Rosana Machado, o aumento do consumo faria com que as pessoas abandonassem qualquer interesse pela luta política porque teriam substituído as tradicionais formas de luta – como atos, piquetes, greves, manifestações – pelo próprio consumo:

Em uma sociedade que joga na cara o tempo todo que os pobres não são merecedores das coisas boas, a aquisição de bens de prestígio pelas camadas populares é um ato poderoso de enfrentamento de preconceitos.

(…)

O ato de adquirir bens de status embaralha o monopólio de símbolos de prestígio das elites e ameaça romper com as relações servis que se perpetuam desde a escravidão. A autonomia de se comprar o que se deseja pode causar uma reação social devastadora.

Se, nos governos do PT, houve um arrefecimento da polarização política, isso não se explica pela substituição da luta sindical, por exemplo, pela “autonomia de comprar”. O país se tornou menos convulsionado porque a política que o PT levou adiante foi uma política de conciliação com a burguesia, isto é, uma política que não tinha como fim mobilizar os trabalhadores para o enfrentamento com os seus algozes. O consumo não é uma forma de luta: é a consequência natural de uma política que vise combater a miséria.

Toda a crítica ao consumo supostamente impulsionado pelos governos petistas servirá, na conclusão de sua coluna, para que Rosana Pinheiro Machado atribua o golpe de 2016 e o avanço da extrema-direita à política econômica do governo Lula.

Grande parte da esquerda hegemônica desdenhou da crise econômica, mas foram os pobres que a sentiram na pele. Nossos interlocutores agora compravam e sonhavam menos. Com dificuldade de encontrar trabalho, não tinham mais cartões de crédito. Estavam com o nome sujo na praça, endividados em um dos sistemas bancários com os maiores juros do mundo.

(…)

Ao perderem seus bens, as pessoas perdiam um pilar de sua identidade, reconhecimento e cidadania, gerando uma crise que também foi existencial. Nada mais restava, nem os bens públicos, que se encontravam ainda mais deteriorados.

A grande conclusão da coluna de Rosana Machado é a de que o governo do PT foi uma vítima de sua própria política – foi o incentivo ao consumo que teria “criado” pessoas “individualistas”, deslumbradas com inúmeros bens e que ficaram enfurecidas por verem seu patrimônio ser reduzido drasticamente. Tal conclusão, no entanto, não pode ser levada em consideração por ninguém que tenha testemunhado as façanhas nefastas do imperialismo.

Quem destruiu economicamente o país foram os grandes capitalistas, em sua tentativa desesperada de salvar os bancos que controlam as riquezas do mundo. São eles os únicos responsáveis pelo empobrecimento e pela miséria das classes médias brasileiras e das camadas mais pobres. São eles, portanto, os culpados pela situação cada vez mais desastrosa em que se encontra o país. E são também eles os responsáveis pelo avanço da extrema-direita em todo o mundo.

Uma posição minimamente democrática não pode ser a de defender que uma política de inclusão social leve à destruição de um país, muito menos quando este é sabotado ininterruptamente pelos “donos do mundo”. É necessário denunciar a política de rapina dos imperialismos norte-americano e europeu e defender incondicionalmente suas vítimas.