Da direita e da esquerda
A política reacionária de setores da esquerda que se unem à frente direitista contra a candidatura de Lula
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O ex-presidente Lula, arma para a luta dos trabalhadores e alvo dos golpistas | Foto: Reprodução
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O ex-presidente Lula, arma para a luta dos trabalhadores e alvo dos golpistas | Foto: Reprodução

Acertadamente, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em conversa com os membros do Comitê Nacional Lula Livre, no último dia 5, evidenciou sua preocupação com a armação que vem sendo anunciada pela imprensa capitalista de que o Supremo Tribunal Federal venha a  decretar a suspeição do ex-juiz fascista Sergio Moro, mas – reafirmando sua política golpista – mantenha a cassação dos seus direitos políticos.

Segundo reconhece o próprio companheiro Lula, o que pode evitar que isso ocorra é a mobilização da sociedade.

Em um passo importante, o próprio Comitê Nacional Lula Livre, que o Partido da Causa Operária (PCO) também integra, anunciou que estuda fazer ações no dia 27 de fevereiro para pressionar pelo julgamento do habeas corpus, nas capitais e no exterior, com atos nas embaixadas do Brasil.

Em reunião que ocorre neste fim de semana, o Comitê Central Nacional do PCO também está deliberando uma série de medidas de campanha de rua que tem como um dos eixos centrais a luta pela anulação de todas as condenações da criminosa Lava Jato, a devolução integral de todos os direitos políticos de Lula, a convocação de eleições gerais, com Lula candidato e a defesa da candidatura de Lula a presidente. Juntamente com a mobilização por Fora Bolsonaro, Doria e todos os golpistas.

Esta posição é reafirmada no momento em que a direita, além de discutir o golpe de manter a cassação dos direitos políticos de Lula, mesmo com a aprovação da suspeição de Moro diante da desmoralização pública e notória da Lava Jato, também procura pressionar – uma vez mais – para que a esquerda em geral e o PT, em particular, abandone a luta pelos direitos políticos de Lula e qualquer possibilidade de lançar Lula candidato em 2022.

Esta política da burguesia golpista expressa o seu temor da candidatura de Lula e comprova, justamente, o quão importante ela é para os explorados e suas organizações, porque se mostra como a única capaz de unir e liderar a imensa maioria das organizações de luta dos trabalhadores e da juventude, da cidade e do campo, para enfrentar não apenas os candidatos da direita golpista, mas capaz de ser um detonador de uma grande mobilização popular dos explorados por suas reivindicações diante do avanço da crise capitalista e da política da burguesia para matar de fome, por meio da miséria e do genocídio atual da pandemia.

É a política dos setores que querem impor à esquerda e a todo o povo uma alternativa “à Joe Biden“, um candidato direitista – como João Doria ou Luciano Huck – como se fosse um “mal menor” em relação a Bolsonaro.

Está cada dia mais evidente que a burguesia trabalha com duas alternativas: ou se cria um candidato alternativo – com apoio da esquerda – para se contrapor a Bolsonaro ou vai apoiar Bolsonaro contra a possibilidade de vitória da esquerda, como ela fez em 2018.

Não por acaso, a campanha da direita contra a candidatura de Lula encontra eco e é reproduzida pelos setores mais conservadores da esquerda que, há muito, preconizam que Lula seja abandonado, “aposentado”, substituído por alguém mais jovem, que se adote um “plano B” etc.

Os mesmos setores que usaram e abusaram da liderança de Lula no passado para construírem bancadas, carreiras políticas etc. e que, no último período, embarcaram de malas e bagagens na defesa da frente ampla com a direita golpista, cujos resultados “maravilhosos” puderam ser vistos nas recentes eleições municipais e, há poucos dias, na eleição das mesas da Câmara e do Senado. Destacadamente, entre os deputados federais, a “eficiente” tática da frente ampla serviu para que a esquerda abdicasse de apresentar uma alternativa própria, se desmoralizasse apoiando uma corja de políticos golpistas e reacionários, cujos partidos – na última hora – embarcaram na locomotiva do “centrão”, apoiando o candidato de Jair Bolsonaro; inclusive, com uma deputada do PT, tomando para si o carguinho que seria do partido, apoiada pelos deputados da máfia do centrão.

Alguns desses abutres da esquerda apostam na impossibilidade da candidatura de Lula (como em 2018) para que eles mesmos sejam os candidatos (quem sabe com algum apoio da direita interessada em dividir a esquerda e vê-la sem chances reais na disputa de 2022). É o caso de Ciro “Coca-Cola” Gomes, também conhecido como “Lula tá preso babaca!”, e de Guilherme Boulos – que fala da necessidade de um  “projeto”, como um disfarce para encobrir o fato de que  ele mesmo e outros “esquerdistas” apoiaram a frente ampla, o lançamento de candidato comum com a burguesia golpista, cujo único projeto é destruir as condições de vida do povo e defender os interesses dos capitalistas.

É claro que se o candidato do PT não for Lula, as alternativas da burguesia serão facilitadas pela tendência a uma pulverização da esquerda.

O fato de que a maioria das direções da esquerda não veja isso como um problema central não deixa dúvidas de que ela não tem independência da burguesia e se contentaria em ver Bolsonaro ganhar novamente a eleição ou se renderia à politica de apoiar uma alternativa golpista, como fizeram na Câmara dos Deputados, o que vai facilitar os planos da direita e do próprio Bolsonaro.

A notícia de uma possível candidatura do ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, eleito em 2012, exclusivamente sob a base do prestígio politico de Lula, é mais uma prova dessa perspectiva de submissão às alternativas dos grandes capitalistas.

Trata-se de candidatura pequeno-burguesa e, como tal, movida pela ambição pessoal. Veja-se o caso de Haddad não ter aceito ser candidato em São Paulo ano passado, quando o partido precisava de sua candidatura, para “se preservar”. Porque, para um pequeno-burguês, não tem importância que a esquerda retroceda, que o povo se lasque, contanto que seus interesses e “projetos” estejam preservados.

A vasta experiência histórica da esquerda brasileira mostrou que um candidato pequeno-burguês não é fiel a nada a não ser aos seus próprios interesses. Há muitos exemplos: Heloísa Helena (ex-PT, ex-PSOL, Rede), Martha Suplicy (ex-PT, ex-MDB, SD), Luiza Erundina (ex-PT, ex-PSB, PSOL), Marília Arraes (ex-PSB, PT… agora, votada pelo centrão), em todos os partidos da esquerda parlamentar.

O político pequeno-burguês ou burguês não tem de prestar contas a nenhum setor social organizado, movimentos etc. Não tem história vinculada à luta dos trabalhadores, não representa nenhuma classe social especifica, serve – em primeiro lugar – aos seus interesses, à sua carreira.

Haddad,  “o mais tucano dos petistas” – segundo o próprio Lula-, além disso, é da ala do PT que flerta com a frente ampla, felicitou Bolsonaro, se colocou ao lado de Geraldo Alckmin (PSDB) diante das mobilizações contra o aumento das passagens em 2013 etc, ao contrário de Lula, não tem sua imagem vinculada – de forma real – à luta dos trabalhadores, às suas organizações.

O anúncio da sua candidatura foi feito no momento em que a Lava Jato está desmoronando, totalmente desmoralizada, o que deveria colocar na ordem do dia a luta pela anulação de toda essa operação criminosa, a luta pelos direitos políticos de Lula e a defesa de sua candidatura, fundamental não para o próprio Lula, o político mais popular da história do Brasil, nas últimas décadas, mas para a luta dos trabalhadores.

Por isso tudo, a tarefa do ativismo classista é lançar Lula como candidato, o único capaz de unificar a maioria da esquerda, derrotar Bolsonaro e de mobilizar as massas contra a direita e o golpe; começando por defender a imediata restituição dos seus direitos políticos.

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