Esquerda confusionista
“Isso não significa da nossa parte defender o governo Dilma, primeiro o governo Dilma tem que se fazer defensável aos interesses populares, para depois ele cobrar ser defendido.”
Boulos v2
Guilherme Boulos, em entrevista à Carta Capital em 12/02/2015 | Foto: Reprodução youtube

O acirramento da luta contra os golpistas e a disputa entre políticas dentro da esquerda, gerou várias polêmicas entre setores que compõe a frente ampla (que busca aliança com setores da direita golpista) e a frente única (que busca a ampliação das mobilizações dos trabalhadores pelo Fora Bolsonaro).

O caso mais notório é o de Guilherme Boulos (PSOL-SP) que na tentativa de se defender das críticas deste Diário, tem levantado uma série de informações de como teria ocorrido a luta contra o golpe, superestimando sua participação e desmerecendo a do PCO.

Desta forma, para tirar o debate do terreno mesquinho de Boulos, que se defendeu das críticas através de calúnias contra o PCO, é preciso entender qual política e qual implicação prática o psolista defendeu em 2015 e hoje procura tergiversar diante dos fatos. E elas está expressa numa entrevista que ele concedeu à Carta Capital, em 2015.

Sobre o golpe de Estado em curso à época, Boulos disse:

“Evidentemente da nossa parte vai haver um rechaço direto a qualquer alternativa golpista da direita e da elite, até porque nós sabemos também até onde isso vai. Não é? Na política não tem essa de que ‘pior que tá não fica’. Fica! Sempre pode ficar pior e nós temos que analisar essas relações e impedir que a direita ganhe ainda mais com esse processo…”

Muito bom! Boulos, o grande esquerdista sinalizava que seria um árduo lutador contra o golpe imperialista que aumentava o cerco contra o governo Dilma (PT), lotando as ruas com milhares de pessoas para impedir esse crime contra o povo brasileiro? Não!

Ele continua:

“Isso não significa da nossa parte defender o governo Dilma, primeiro o governo Dilma tem que se fazer defensável aos interesses populares, para depois ele cobrar ser defendido.”

Logo, para Boulos, a luta contra o golpe dependia mais da política do governo Dilma do que da política dele. É absurdo. Por mais críticas que se tenha ao governo do PT, todas elas eram secundárias diante da ofensiva do imperialismo diante do governo eleito por mais de 54 milhões de brasileiros.

As críticas de Boulos sobre o ajuste fiscal de Dilma e o programa de conciliação de classes do PT com a burguesia teriam sentido num marco de disputa democrática entre setores de esquerda e o governo do PT. No entanto, esse momento havia passado pelo menos desde 2013, quando se iniciou mais agressivamente o cerco contra o PT. Logo, as críticas significavam um apoio à ofensiva golpista, que se aproveitava da vacilação de setores da esquerda, como o próprio Boulos, para aplicar sua ofensiva contra o PT sem uma resistência que lhe ameaçasse.

Isso fez com que, mesmo que reconhecesse que o impeachment de Dilma era um golpe de Estado, Boulos não cumprisse um papel de aglutinador da campanha – chamava as pessoas à rua e quando as pessoas chegavam no ato contra o golpe ele criticava o ajuste da Dilma – mas sim um elemento de confusão geral do movimento da luta contra o golpe. São inúmeros os exemplos de divisão dos atos e de vacilação na hora de combater a direita.

A história se cansa?

Por fim, ele diz na entrevista:

“O tempo vai se esgotando. A história foi bastante generosa com o PT, a história deu oportunidades para o PT e credibilidade popular para o PT, mais de uma vez, para que partisse para um caminho de reformas populares, para que partisse para um caminho de combate aos privilégios da elite brasileira… 2003, 2006 e essas oportunidades foram sumariamente dispensadas. Uma hora a história se cansa também. O PT vai cada vez mais perdendo apoio popular, credibilidade e perdendo sua condição política de atuar em qualquer processo de mudanças progressiva no país.”

O que mostra que ele tinha uma compreensão errada de como a população via o PT. O partido não perdeu apoio popular, apenas teve sua base paralisada pela ofensiva da direita e confusão da esquerda, no interior da qual Boulos integrava uma das alas mais confusas e dominadas pela política da direita contra o PT e todo o povo brasileiro.

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