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Massacre do Jacarezinho

O aquário do pequeno burguês e sua política para a polícia

Articulista defende que o aparato de repressão "é ruim para os dois lados"

Tempo de Leitura: 4 Minutos

Polícia em ação – Foto: Fabio Bento Maria

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Chacinas como a do Jacarezinho (RJ) servem para que a pequena burguesia, de quando em nunca, saiam do seu aquário de alienação e se dê conta que o mundo em que vive é um mundo de desgraça. Mas o pequeno burguês, pelo próprio meio em que vive, é incapaz de, a partir dessas experiências, defender um programa que ponha a nu a podridão dos capitalistas. Acabam, portanto, fazendo de sua suposta indignação apenas mais uma forma de defender o regime capitalista.

Um artigo recentemente publicado pelo portal Brasil 247 ilustra bem esse problema. O texto, que tem como título “’Tudo bandido’: o general está certo”, apresenta uma série de dados reais sobre o massacre da população causado tanto pela política neoliberal, quanto pelo aparato de repressão, para defender a seguinte tese: tanto a polícia quanto os trabalhadores seriam vítimas do regime.

Isto é, com uma mão, o articulista gesticula em um discurso a la Odorico Paraguaçu em defesa dos pobres: “gasta gente com a fome, gasta gente com o desemprego, gasta gente com pandemias, mas o método de gastança de gente mais utilizado em 521 anos é, certamente, o extermínio genocida puro e simples, a morte direta pelo aparelho repressor do Estado”. Com a outra mão, alisa a cabeça dos santos policiais: “uma vez, durante uma aula da disciplina Ciência Política para alunos de curso de Direito, eu disse que a política pública do confronto era uma espécie de controle de natalidade dos pobres e dos negros. Matam/morrem policiais pobres e negros e matam/morrem moradores/excluídos pobres e negros”.

O intelectual pequeno burguês acha que suas ideias valem muito. A ponto de suas ideias mudarem o mundo. E é assim como o articulista pensa o problema da polícia: o sistema de repressão seria irracional — ambos os lados estariam perdendo — e, portanto, bastaria de um pouco de sabedoria da polícia e do povo pobre para encontrar um sistema que funcionasse para todos. Pode ser bonito, romântico, mas é uma infantilidade intelectual que já foi superado há mais de um século pelo materialismo histórico.

A questão da polícia é um problema relacionado à luta de classes. A polícia é o braço armado do Estado, não é um corpo de indivíduos que se convenceram, seja lá porque, de que matar pobre seria bom. Os policiais — militares e civis — são carniceiros porque a burguesia exige que eles assim sejam.

O papel da polícia, em qualquer regime, é reprimir aqueles para quem a classe dominante aponta o dedo. A polícia é um órgão do Estado, e o Estado, por sua vez, é controlado pela burguesia. Assim como no Poder Judiciário, a polícia não passa por qualquer controle popular: seus agentes são selecionados, monitorados e controlados unicamente pelo Estado. Não poderiam, portanto, cumprir outra função a não ser o serviço sujo da burguesia para manter a situação sob controle.

Engels dizia que a existência do Estado é a prova de que as classes sociais vivem em um conflito incessante. Se o conflito parte do interesse da burguesia de explorar os trabalhadores, o Estado serve, portanto, para garantir que essa exploração se dê da forma mais amena possível.

O articulista do Brasil 247 não é obrigado a ser marxista. Mas teria, então, que admitir que a sua pregação é mais poderosa do o interesse que move os capitalistas — o lucro. Teríamos, então, que fazer as malas e nos mudar para a ilha da fantasia onde o golpe de Estado, que envolveu bilhões de dólares, governos nacionais, monopólios de todos os ramos e agentes políticos dos mais variados poderiam ser combatidos por um sermão universitário.

É um pensamento, além de arrogante, digno de um verdadeiro idiota. Mas não é só isso: serve a uma determinada política. Se bastasse boas ideias para resolver o problema da polícia, então não seria necessário agir na luta de classes. Não seria preciso agir, em resumo. É um convite à paralisia e a pelegagem.

Tanto é assim que o artigo se reserva ao direito de não propor política alguma diante do problema. É uma verdadeira piada! O pequeno burguês se mostra tão “incomodado”, mas tão incomodado com a chacina, que o máximo que consegue fazer é escrever um artigo explicando que se o mundo seguisse suas regras, o mundo seria um lugar mais feliz. O povo pobre, que está sendo massacrado todo dia pela polícia, não tem tamanha sabedoria…

Em vez da concepção paralisante de que a polícia mata por que não assistiu às aulas de antropologia do articulista, a única política que faz sentido, que aquela defendida pelos marxistas e que vem do próprio movimento operário, é a de travar uma luta contra a polícia em si.

Em primeiro lugar, a polícia, tal como existe, deve ser imediatamente dissolvida. Não serve em absolutamente nada à população. Em segundo lugar, é preciso garantir o direito da população a se armar, para que não seja mais vítima de seus inimigos de classe. Por fim, é preciso constituir milícias populares, que sirvam tanto para a segurança dos trabalhadores, quanto para travar a luta oposta que a polícia trava hoje: ir para cima da burguesia quando ela entra em conflito com os interesses dos trabalhadores.

Essas reivindicações, inclusive, são não só o caminho natural para um enfrentamento entre os trabalhadores e a burguesia, mas uma expressão fiel dessa luta. Nenhum sindicato nunca organizou uma manifestação pedindo para que o dinheiro dos banqueiros fosse restituído. Os trabalhadores nunca queimaram pneus nas rodovias pedindo para que o Wall Mart expropriasse a dispensa das famílias nas periferias. A política de convencer a polícia de que ela é vítima do regime é uma política de convivência com a polícia. E a convivência é apenas a continuação daquilo que ninguém aguenta mais.

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