Em defessa do terror burguês
Jones Manoel defende a submissão popular ao regime de terror da burguesia, sem nada fazer contra seus algozes e postergando para um futuro indefinido a luta por sua libertação
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Queda da bastilha: "Agir político" | Foto: Reprodução

youtuber Jones Manoel voltou a usar as redes sociais para postar uma série de declarações inconcebíveis a quem se pretende marxista. No Twitter, o blogueiro criticou as reações populares desencadeadas pelo assassinato de João Alberto Freitas, trabalhador negro de 40 anos, espancado até a morte por seguranças do Carrefour, entre eles um PM. Em resposta, manifestantes em Porto Alegre (onde o homicídio ocorreu) e São Paulo atearam fogo à lojas da empresa, algo que, segundo Jones Manoel “nunca vai oferecer respostas”.

As palavras exatas de Jones Manoel são:

“Vocês querem ver o país pegar fogo? Bora nessa, agora se liga. Outro dia desse, em Floripa, a polícia matou um jovem. A comunidade protestou e a polícia foi lá e arregaçou todo mundo. Vou te dizer o que rola: aqui não é a França, quer colocar fogo? Se prepara para resposta.

quem fica na hora que o bicho pega? O que rola, no mundo real, é assim. A polícia mata alguém. A comunidade protesta. Se o negócio ganhar repercussão, esperam a onda midiática passar e voltam lá e, se pá, matam três de volta como retaliação. E se reclamar, voltam de novo.

quem vive sabe. Por isso essa lógica de reagir a casos, nunca vai oferecer respostas. Sem estruturas permanentes que garantam o mínimo de condições para o agir político, o negócio vão vai para frente. E não vai mesmo.”

Fica claro pelas colocações do blogueiro, que a postagem não tinha outro objetivo além de atacar as mobilizações que seguiram-se ao brutal assassinato. Jones Manoel não propõe nenhuma política concreta, não coloca em discussão o fato das forças de repressão estarem armadas e a população desarmada, não convoca a criação de organizações de autodefesa, nada,…

O que se tem de concreto são os ataques à reação popular contra a barbárie da burguesia, que submete os trabalhadores brasileiros a um regime de opressão extremamente brutal. Essas reações, segundo Jones Manoel, não deveriam ocorrer por que, a exemplo do que aconteceu em Florianópolis, “a polícia foi lá e arregaçou todo mundo” quando um caso similar ocorreu na capital catarinense.

O fato dos exploradores reagirem, com a brutalidade habitual que marca a classe dominante, deve portanto, ser um impeditivo da luta dos explorados, segundo a política defendida por Jones Manoel.

Nesse sentido, chama atenção a defesa da inércia feita por Jones. Seguindo sua lógica, a população trabalhadora não deveria protestar mas aguentar os abusos, e isso por que o Brasil “não é a França”.

E, não sendo o Brasil “a França”, para o youtuber, nenhuma saída resta à classe trabalhadora exceto a covardia, ao menos, até que hajam “estruturas permanentes”, seja lá o que isso significa. Independente do significado de “estruturas permanentes”, fica claro que a essência de sua política, exacerbada na postagem, é a covardia.

“A coragem de ser covarde”

Muitas formas de luta foram criadas e aperfeiçoadas pela classe trabalhadora ao longo de sua história. Contudo, nenhuma tinha a capitulação diante do medo como fundamento de ação.

Sendo um elemento muito presente na política pequeno-burguesa, diante de desafios impostos pela luta política, a pequena burguesia pode se dar ao luxo de capitular diante do poder da burguesia, afinal, trata-se de uma classe privilegiada, com algum conforto inexistente para os trabalhadores.

A classe trabalhadora, contudo, não tem outra saída exceto enfrentar seus algozes. Isto condiciona sua política, que termina sendo muito mais determinada. Um exemplo disto pode ser visto no fatídico dia da prisão do ex-presidente Lula.

Determinados a não permitir que a direita prendesse Lula, os trabalhadores cercaram o prédio do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, enfrentando-se com o aparato de repressão do estado na defesa do ex-presidente.

Essa ação colocou o País em suspensão durante o período. Uma ordem de prisão estava emitida pela burocracia, que tinha ordens para prender Lula porém não conseguiam. Eis que entra em campo a mesma política verbalizada por Jones Manoel, de não desafiar as autoridades burocráticas da burguesia, e após muitas manobras, finalmente a população é derrotada, com a direita conseguindo, enfim, colocar o popular ex-presidente nas grades.

O que teria acontecido caso os operários mantivessem Lula longe do cárcere fica agora por conta da imaginação. Contudo, dado o desenrolar dos acontecimentos (que culminaram com Bolsonaro na presidência), é certo que a burguesia foi principal beneficiada com a tática da covardia, ao passo que a população perdeu.

Diversos outros outros casos históricos estão disponíveis para demonstrar o quão desastroso é a política da covardia. Todos os brasileiros têm em sua memória a fuga para o exílio de Jango, que a pretexto de não querer derramar o sangue do povo, deixou que a Ditadura Militar fizesse isso e muito mais, contra a população e o País.

Na Itália, durante o período em que o fascismo ainda se estruturava, Giacomo Matteotti notabilizou-se por defender “a coragem de ser covarde”, formulação que pretendia desarmar as organizações que, ao contrário de ceder ao terror fascista, enfrentavam-nos com muita bravura. O sucesso da política foi tanto que o formulador acabou assassinado em 1924 e o país mergulhou numa das mais infernais experiências durante os 21 anos subsequentes.

“Se queres paz, prepara-te para a guerra”

Uma reprodução do mesmo inferno deve ser considerada se os trabalhadores seguirem a política de Jones Manoel. Isto por que a história demonstra que, longe de dar-se por satisfeita, a burguesia tende a ser mais incisiva em seus ataques contra a classe trabalhadora, conforme sua segurança para tal.

Desta forma, temer repressão de policiais que “se pá, matam três de volta como retaliação”, é seguramente uma concepção que a própria burguesia gosta de ver difundida entre os trabalhadores, de modo a tornar sua dominação ditatorial mais segura.

“E se reclamar, voltam de novo”, por exemplo, é uma frase que poderia perfeitamente ter sido expressa por um propagandista graduado da repressão mas, ironicamente, foi dita por alguém que defende a luta pela libertação da classe operária. Nas palavras ao menos.

Peça de crescente relevância à outra política nociva aos trabalhadores, a frente ampla, Jones Manoel demonstra sua latente limitação política ao fazer uma verdadeira apologia da covardia. Esse aspecto deve ser considerado para evitar a percepção de que a defesa da inércia por medo saiu do além. Há um interesse em jogo nas declarações do blogueiro, e eles não são os mesmos da classe trabalhadora.

Só a luta decidida pode mudar a sorte dos trabalhadores

Defendendo que a população pobre e explorada nada faça contra seus algozes, o youtuber provavelmente conseguiu algum engajamento, algo sabidamente lucrativo em sua profissão, porém o fez de forma a manter a submissão da população ao aparelho de terror da burguesia, fazendo também uma defesa velada a uma empresa imperialista.

Aos trabalhadores e povos explorados em todo o planeta, cumpre destacar que a política certa a ser seguida por quem almeja a libertação é exatamente o oposto do que defende Jones Manoel.

Aos marxistas, militantes da revolução proletária, não cabe o papel de difundir o terror do aparelho de repressão burguês mas de colocar-se ao lado da rebelião popular contra a burguesia, trabalhar pela mobilização popular mas de modo algum colocar-se contra a luta dos povos explorados pela sua emancipação.

Essa libertação pressupõe uma luta decidida contra os algozes do povo, que naturalmente, irão reagir mas não puderam impedir as revoluções do século 20, nem poderão mais.

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