Arquiteto do nazismo
Hoje visto como antifascista, o primeiro-ministro britânico foi um grande parceiro do regime nazista

Por: Redação do Diário Causa Operária

O ser humano tende a ver a história da própria humanidade e de suas figuras mais proeminentes sob um aspecto parcial, chegando ao ponto de fechar os olhos aos fatos, preferindo um mundo ideal, uma fantasia, uma alegoria da realidade. Winston Churchill, primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial não foge nem um pouco desta situação.

O ex-premier do Reino Unido e Irlanda goza de grande admiração de diversos setores da sociedade britânica e mundial. Assim como Josef Stalin, recebeu a alcunha de homem que combateu Hitler. Entretanto, a verdade não é assim preto-e-branca e os fatos parecem não ter ocorrido como se tem o senso comum dominante da nossa época.

Civilizado como um fascista

A figura de grande democrata de Winston Churchill não passa de uma grande fraude. Enquanto estudante, ele nunca foi um grande fã da democracia. Ao estudar Platão e Aristóteles, Churchill não agradou-se muito da ideia de democracia, preferindo, assim como Aristóteles, o governo de um “homem magnânimo”.

O primeiro-ministro britânico também não agradava-se muito da ideia de sufrágio universal, trabalhando fortemente contra o voto das mulheres. Como Home Secretary (algo como Ministro da Justiça ou Ministro do Interior no governo britânico) pelo Partido Liberal, teve papel importante em impedir o voto feminino. Posteriormente, quando assumiu o cargo de Chanceler, já pelo Partido Conservador, foi derrotado no tema, o que fez com que as mulheres se tornassem a maioria dos votos no Reino Unido.

A política de Churchill era tão de extrema-direita que Stanley Baldwin, que tentava tornar o Partido Conservador em um partido de “centro”, não permitiu sua participação no governo em 1931. Segundo Baldwin, a derrota do partido em 1929 havia sido culpa da política extremista de Churchill.

Sobre a Índia, Churchill mostrou-se extremamente racista ao chamar os indianos de primitivos e que a democracia era algo que não servia à Índia.

Algo parecido ocorreu com a Abissínia (atual Etiópia), quando Mussolini enviou, em 1935, 400 mil soldados para invadi-la. Apesar do regente de um dos últimos países africanos não-colonizados pelo imperialismo, Haile Selassie, ter pedido ajuda à Liga da Nações, Churchill fez pouco caso. Pior ainda, disse que “ninguém pode ter pretensão de que a Abissínia é um membro justo¹ , valioso e igual de uma liga de países civilizados”.

Se Winston Churchill, que era racista e machista, é considerado antifascista hoje em dia, não seria absurdo algum, um dia, alguém dizer que Trump e Bolsonaro também são antifascistas. Isto deixa bem claro que os grandes vultos direita “civilizada” em nada diferem da retórica de fascistas atuais como o ex-presidente dos Estados Unidos e o atual presidente ilegítimo do Brasil.

O apreço ao fascismo

Segundo o revolucionário Lenin, o capitalismo estaria com seus dias contados a partir do momento em que os monopólios tomaram conta, dando início ao período do imperialismo. E esta afirmação se revelou verdadeira, bastando ver a quantidade e a intensidade das crises econômicas em todo século XX e XXI.

A maneira que a burguesia encontrou para tentar se manter no poder é o fascismo. Trotsky escreveu larga literatura sobre o tema, tratando como este nasce, suas características principais e como deve ser combatido.

Se o fascismo é uma ferramenta da burguesia, é natural que os representantes dessa na esfera política oficial tivessem algum apreço pelos resultados obtidos pelos fascistas. E isto fica bem claro nos elogios a Hitler (Alemanha), Mussolini (Itália) e Franco (Espanha).

Churchill, em 1937, cinco anos após a ascensão de Adolf Hitler, escreveu ao Evening Standard que a “história é repleta de com exemplos de homens que subiram ao poder empregando métodos severos, sombrios e terríveis…”, mas que, todavia, “são lembrados como grandes figuras aos quais as vidas enriqueceram a história da humanidade. Então, que assim seja com Hitler.”

Em 1936, Churchill foi à Liga das Nações (órgão que antecedeu a ONU) para requisitar a entrada da Alemanha nazista devido a suas “aspirações legítimas”, para que a “justiça seja feita e a paz preservada”. Isto ocorreu um mês após Hitler ordenar a invasão da desmilitarizada Renânia, uma quebra do não menos criminoso Tratado Versalhes. Winston Churchill, que anos após viria a se tornar primeiro-ministro, foi além, chegando a escrever ao Evening Standard pedindo que a França não reagisse. A França, que, a época, possuía um exército muito maior que o alemão, respondeu timidamente. Se tivesse agido de maneira devida, talvez isto tivesse dado outros contornos à história. Todavia, pelo desenrolar da Segunda Guerra Mundial, ficou claro que a burguesia francesa também via os nazistas com bons olhos.

O mesmo Churchill também se negou a comentar os campos de concentração controlados pela SS alemã em 1934. Fica claro que os chamados “civilizados” aparentam ter um grave problema de visão quando crimes são cometidos na sua frente.

Todavia, o problema de visão do “civilizado” Churchill parece ter passado, como por milagre, pois, em 1941, vociferava que Adolf Hitler era um monstro com sede insaciável de sangue. É impressionante como a direita dita civilizada tem opinião tão volátil, sempre mudando assim que se seus interesses são comprometidos.

Entretanto, também não pode-se dizer que Winston Churchill era o único admirador de Hitler na política britânica. George Lansbury, líder do Partido Trabalhista entre 1932 e 1935, também via Hitler como uma grande figura da história mundial. Isto mostra a confusão política e a adaptação ao regime burguês ao qual estava submetido o Partido Trabalhista britânico no início da década de 1930. A situação só mudou quando Clement Attlee assumiu a liderança do partido posteriormente.

Hitler, porém, não era o único admirado por Churchill. O “trabalho” de Benito Mussolini e os fascistas italianos também foi alvo de elogios pelo líder inglês. Em viagem à Roma, em 1927, Churchill ficou admirado pela disciplina imposta pelos fascistas na Itália.

Apoio da burguesia ao fascismo

Como bem observou Trotsky em sua obra, o fascismo se caracteriza principalmente pela destruição das organizações proletárias. Na década de 1920, a Itália, liderada por Mussolini recebeu altíssimos investimentos de empresários britânicos e americanos.

Sem as organizações dos trabalhadores para defender seus direitos, os capitalistas esperavam extrair até a última gota dos operários italianos. Algo parecido ocorre hoje no Brasil. Dada a crise capitalista, a burguesia internacional pressiona o governo e o parlamento a aprovar uma série de reformas que retiram os direitos dos trabalhadores, tornando-os escravos modernos em um simulacro de democracia. A história se repete a nossa frente.

O mesmo ocorreu na Alemanha, com capitalistas dos países imperialistas do ocidente mantendo seus investimentos no país até a guerra ter se tornado inevitável. Empresas grandes como fabricantes de automóveis (GM e Ford), computadores (IBM) e aviões (ITT), indústria química e de combustíveis (DuPont e Standard Oil Company), empresas de alimentos (Coca-Cola) tinham negócios com os nazistas. Os soldados americanos, em 1944, ficaram surpresos ao ver motores Ford nos veículos da Wehrmacht. Obviamente, a imprensa burguesa americana escondia, como podia, as ligações de capitalistas com os nazistas, como a de Henry Ford, um antissemita que chegou a receber uma comenda dos nazistas.

A direita “civilizada” parece não ter visto problema algum em investir nos fascistas. Em 1934, o governo britânico assinou um tratado comercial com a Alemanha nazista. Isto permitiu que os nazistas conseguissem criar uma balança comercial favorável com o Reino Unido. No fim do mesmo ano, o Montagu Norman, homem forte no Banco da Inglaterra, concedeu um empréstimo de 3 milhões de libras esterlinas para facilitar a movimentação de créditos da Alemanha.

Na Inglaterra, em 1935, formou-se um grupo elitista chamado Sociedade Anglo-Alemã (Anglo-German Fellowship), contando com diversos nomes da alta burguesia britânica, além de diversos parlamentares conservadores. O grupo foi “desfeito” no início da guerra e, provavelmente para que os membros não ficassem “mal vistos”.

Além de tratados comerciais e ajudas financeiras, o primeiro-ministro do Partido Conservador (o mesmo de Churchill), Stanley Baldwin, em 1935, firmou um tratado naval com Alemanha. Além disto, a fabricante de armas britânica, Vicker-Armstrong, vendeu armamento pesado aos alemães. Um de seus executivos, o general inglês Herbert Lawrence, quando perguntado, em 1934, se sua empresa estava rearmando os alemães, fugiu a resposta, mas foi taxativo ao dizer que toda e qualquer ação da Vicker-Armstrong era apoiada pelo governo britânico.

Nazistas amigos, soviéticos inimigos

Para Winston Churchill, assim como para a burguesia e parcela da pequena-burguesia britânica, o verdadeiro inimigo não eram os nazistas. Como “civilizados” que são, estavam dispostos a tolerar todos os crimes e a violência imposta pelos nazistas, mas nunca aceitariam um estado proletário como soviético, mesmo que controlado por uma burocracia contrarrevolucionária como a de Stalin.

Em 1938, o gauleiter (presidente regional do partido nazista) de Danzig, Albert Forster (executado na Polônia, em 1952), perguntou a Churchill se haveria algum problema nas negociações entre Reino Unido e Alemanha devido às leis antissemitas do regime nazista. Churchill retrucou que poderia haver algum desconforto, mas que não seria um completo obstáculo às tratativas.

A vontade de Churchill era que convencer a Alemanha nazista a avançar em direção à União Soviética, mantendo uma sólida aliança entre Reino Unido, França, Bélgica e Países Baixos em uma neutralidade fortemente armada.

Acreditava Churchill que o forte armamento da Europa ocidental afastaria Hitler dos demais países imperialistas, jogando-o contra a União Soviética. Enquanto isto, a Inglaterra se manteria neutra enquanto a Alemanha combatesse os inimigos bolcheviques. Esta crença era nutrida, em boa parte, pela leitura de Churchill do livro Minha Luta, escrito por Adolf Hitler na prisão, onde o líder nazista deixa bem claro seu objetivo de invadir às nações do leste europeu.

A política de permissividade do governo britânico com a Alemanha nazista chegou ao auge quando os nazistas ameaçaram entrar em guerra com a Tchecoslováquia, a menos que os britânicos aceitassem que os alemães incorporassem a Região dos Sudetas, regiões da Tchecoslováquia com maioria falante da língua alemã. O governo britânico aceitou o tratado e Hitler dominou toda a Região dos Sudetas sem disparar uma bala sequer.

Esta política covarde e humilhante foi fortemente criticada pelo novo líder do Partido Trabalhista, Clement Attlee, que, em seu discurso, esclareceu que a vitória de Hitler na Áustria e na Região dos Sudetas daria a possibilidade de adquirir comida, combustível e recursos para consolidar seu poderio militar.

A partir deste discurso de Attlee, Churchill parece ter visto o buraco que a política pacifista, a qual ele foi um grande entusiasta, fortaleceria a Alemanha a um ponto que a correlação de poder entre ela e os dois países imperialistas dominantes, Reino Unido e França, mudaria completamente.

Apesar da mudança de lado tardia, isto não impediu que Churchill fosse massacrado nas urnas em 1945, apesar de “ganhar” a guerra contra o nazismo. A mudança de voto de 12% entre conservadores e trabalhistas é, ainda hoje, a maior da história da “democracia” britânica. Isto mostra que a população, à época, sabia exatamente que Churchill foi um dos arquitetos da desgraça que pairou sobre a Europa.

¹ fit, no original

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