“Só saio para o Supermercado”
Para defender os interesses dos estudantes, é preciso seguir a tendência de luta expressa por vários setores da classe operária
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O Ministro da Educação, Abraham Weintraub, falam sobre primeiro dia de provas do ENEM.
Ministro da Educação Abraham Weintraub. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil |

A entrevista concedida pelo atual presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, ao portal Rede Brasil Atual, no dia 14 de maio, apresenta uma série de elementos que nos permite analisar a crise em que se encontra o movimento estudantil nacional. A política defendida pelo dirigente, que segue a orientação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), vai totalmente de encontro às necessidades mais urgentes da juventude, escancarando o abismo entre a direção da maior entidade representativa do movimento estudantil e a sua base, composta fundamentalmente pelos universitários e pelos que aspiram ingressar no Ensino Superior. Neste artigo, estabeleceremos uma polêmica com Iago Montalvão para demonstrar de que forma se dá esse impasse.

Não podemos estar nas ruas?

Ato organizado pelos familiares dos detentos da prisão da Papuda. Foto: Diário Causa Operária

A primeira tese que debatemos com o presidente da UNE é a de que não seria possível estar nas ruas:

Embora a gente não possa estar na rua hoje, a internet é uma ferramenta importante na nossa pressão.

Essa tese, que é falsa, tanto do ponto de vista sanitário, quanto, principalmente, do ponto de vista político, já foi derrubada pela própria experiência do movimento operário. Do ponto de vista sanitário, é possível, sim, sair às ruas porque a doença, no final das contas, não se transmite a partir do momento em que a pessoa põe um pé para fora de casa. Ela é transmitida pelo contato próximo com uma pessoa infectada — portanto, o que torna uma pessoa extremamente vulnerável ao vírus é estar em aglomerações, desprovida de máscaras e produtos desinfetantes como o álcool etc. Tanto é assim que todo mundo, em algum momento, acaba saindo de casa, nem que seja para comprar mantimentos, como o próprio Montalvão confessa: “só saio para ir ao supermercado.”

Do ponto de vista político, a tese é ainda mais desmoralizante porque o maior facilitador que o coronavírus está encontrando para se espalhar é justamente a forma como os patrões, em conjunto com seus governos-fantoche, estão administrando a epidemia. Por obrigar as pessoas a trabalhar, amontoando-se em galpões insalubres e em metrôs e ônibus superlotados, bem como por obrigar milhões e milhões de brasileiros a viverem em gigantescas aglomerações que são as favelas, sem sequer saneamento básico, os capitalistas são os grandes responsáveis pelas centenas de mortes registradas diariamente por causa do coronavírus. O que torna o vírus uma grande ameaça à vida do povo não é a abstração “sair de casa”, mas sim a política da direita.

Nesse sentido, a oposição de Iago Montalvão e da UNE de saírem às ruas para defender os interesses da população em geral revela uma posição incrivelmente reacionária: enquanto o povo vai morrendo aos montes por causa da desastrosa política dos capitalistas, as direções da esquerda nacional, que vão desde a UNE até mesmo aos sindicatos, se permitem ficar em casa resguardados. Quem não poderia sair de casa são os trabalhadores, desprovidos de qualquer meio para se proteger da doença. Suas organizações, por outro lado, teriam condições de atuar sob baixo risco de contágio.

O destino dos estudantes coincide com o dos demais setores da população. Muitos deles são também trabalhadores, e estão morrendo por causa do coronavírus. Muitos também residem nas dependências das universidades, mas estão sendo expulsos delas e ficando vulneráveis à doença. Muitos estão tendo de ter os seus estudos interrompidos, enquanto um setor da pequena burguesia segue estudando por meio dos recursos que lhe são disponibilizados — computador, internet, livros etc. Muitos, por fim, estão sendo obrigados a continuar pagando mensalidade, mesmo não tendo aulas presenciais. O papel de qualquer organização do movimento estudantil deveria ser o de, efetivamente, mobilizar sua base para garantir que suas reivindicações sejam atendidas.

Quando falamos em mobilização efetiva, não estamos propondo qualquer solução que se coloque em um plano irrealizável. E é justamente nesse sentido que falamos que a tese de Iago Montalvão vai de encontro com a experiência prática dos trabalhadores. Desde que os primeiros casos de coronavírus foram registrados, inúmeros protestos aconteceram, mesmo diante das mais adversas condições. É o caso das famílias dos presidiários do Distrito Federal, dos trabalhadores de entrega por aplicativo em São Paulo, dos trabalhadores dos Correios na Bahia, dos enfermeiros em Brasília e no Norte do País, dos condutores de transporte escolar do centro paulista, dos índios em Aquidauana (MS) etc.

Todos esses setores comprovaram que é possível, sim, sair às ruas. E que, sobretudo, o papel da esquerda deveria ser o de incentivar e de participar dessas manifestações. Caso contrário, as manifestações tenderão a se dar de maneira dispersa, sem um programa político acabado e, pior ainda, sem as medidas básicas de segurança que a esquerda poderia facilmente propor. Isto é, se há uma tendência de o povo sair às ruas contra a direita, e se as manifestações comprovaram que é possível sair às ruas, a UNE não deveria se posicionar contra um direito democrático dos estudantes, mas sim intervir para que esses possam sair às ruas de maneira organizada, com máscaras, com uma infraestrutura de apoio, com divulgação etc. Do contrário, seria uma posição arrogante, seria o mesmo que torcer contra o povo: enquanto o povo sai para trabalhar, Iago Montalvão deixa claro que sairá apenas para ir ao supermercado, e não para fazer seu trabalho, que seria o de organizar o movimento.

Nenhum governo se estabelece por meio das redes sociais

Manifestantes bolsonaristas em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil

A segunda tese que chama bastante atenção na entrevista é a já conhecida superestimação das redes sociais:

[Os bolsonaristas] governam pelas redes sociais.

A ideia, embora seja ridícula em si, merece ser desmascarada porque é a base da política proposta por Iago Montalvão. Isto é, uma vez esclarecido que as redes sociais cumprem um papel extremamente secundário na luta política, restará à UNE e à esquerda nacional sair ir às ruas.

Iago Montalvão não apresenta qualquer prova para o que fala. No entanto, evidências que provam exatamente o contrário não faltam. O governo Bolsonaro foi imposto pelos capitalistas para aplicar um programa duríssimo de ataques à população, e só está tendo sucesso em aplicar esse programa justamente porque está conseguindo, até o momento, ter um relativo controle da situação nas ruas.

Por um longo período, uma das figuras mais importantes do governo era o ex-juiz Sergio Moro, que ocupava o cargo de “superministro” da Justiça e da Segurança Pública. Por que? Ora, porque garantir que a polícia tivesse condições de espancar todos os setores que viessem a se rebelar contra o regime político é uma tarefa central para a burguesia neste momento de crise.

Outro fator que derruba a tese de um governo que se apoia nas redes sociais é o clima de terror instaurado nas eleições de 2018. Bolsonaro só conseguiu chegar à Presidência da República por causa de uma fraude eleitoral que consistiu na cassação dos direitos do ex-presidente Lula. E essa fraude só teve sucesso porque não foi denunciada amplamente: a extrema-direita, incentivada pela burguesia, batia e prendia todos que vissem pela frente.

Se as ruas não tivessem sua importância, a extrema-direita não estaria saindo às ruas agora, mesmo em época de coronavírus. Na verdade, essa operação é mais importante do que qualquer atuação do presidente ilegítimo na internet: enquanto houver uma aparência de controle sobre as ruas, o seu governo estará seguro de ser derrubado pelos trabalhadores, que são uma maioria esmagadora na sociedade.

E é esse apoio mascarado, artificial, por meio das ruas, que está permitindo que o governo tome medidas cada vez mais enérgicas contra os interesses do povo. Estivessem os trabalhadores em greve, organizando manifestações, os capitalistas pensariam duas vezes antes de forçar os governantes a retomar a economia.

Um trator por cima da população

Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Foto: Lula Marques

Mais uma prova da limitação das redes sociais é a contradição que apontamos com o trecho a seguir e os últimos acontecimentos:

Querendo ou não, eles se sentem afetados pelas manifestações virtuais.

O argumento do dirigente da UNE soa como um verdadeiro escárnio para com a população. Nunca, durante o governo Bolsonaro, a direita esteve tão à vontade para atacar o povo. Nos dois meses de epidemia e de protestos virtuais, a esquerda não venceu uma única batalha contra o governo. A direita, por outro lado, cortou 70% do salário de várias categorias, já demitiu mais de um milhão de pessoas, congelou o salário dos servidores e está ameaçando por em pauta uma série de privatizações.

A experiência da pandemia de coronavírus mostra exatamente o contrário. Enquanto a orientação da esquerda nacional, em geral, tem sido a de ficar protestando por seus computadores, a direita está passando por cima dos trabalhadores como um verdadeiro trator. Essa posição precisa ser corrigida imediatamente, do contrário, a esquerda assinará embaixo a transformação do regime político em uma verdadeira ditadura em que todos os direitos serão negados.

Se a UNE não está nas ruas, não encontrará aliados no meio do povo

Presidente do STF Dias Toffoli. Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

No meio da entrevista, Iago Montalvão acaba revelando que única opção para contestar os ataques do governo Bolsonaro seria o Judiciário, inimigo do povo:

Já entramos com mandado de segurança, dessa vez na Justiça Federal do Distrito Federal. Se for o caso, vamos também recorrer no STJ. Além disso, tem uma ação da Defensoria Pública da União em São Paulo que pode ser outro caminho.

O uso do Judiciário como ferramenta já não aparece como tese, mas como consequência inevitável da política que a UNE está propondo para a atual etapa. Se a UNE não quer sair às ruas, onde estão os estudantes famintos, os jovens desempregados e os universitários falidos, sua atuação se limitará à manipulação das instituições. Se não são os estudantes que agirão para alcançarem suas reivindicações, serão o Judiciário, a Polícia, o Congresso ou qualquer outro organismo intimamente ligado ao regime político.

Todas essas instituições, conforme as experiências do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão do ex-presidente Lula mostraram, não passam de casas de conspiração contra o povo. Depositar qualquer esperança no Judiciário golpista não passa de pura demagogia dos dirigentes estudantis. Uma demagogia, no entanto, que custará muito caro para o povo. Esse caráter extremamente oportunista, eleitoreiro, deve ser removido de todas as fileiras do movimento estudantil. São um atraso para que a sincera e urgente luta dos estudantes se desenvolva.

Frente ampla: causa e consequência se fundem

João Doria (PSDB-SP) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Foto: GOVESP

No final da entrevista, Iago Montalvão põe de maneira bastante cristalina a discussão sobre a chamada frente ampla:

Precisamos criar mais desgaste e ganhar mais setores da sociedade. É fundamental acumular forças com outros movimentos, e depois, com uma ampla unidade, a gente entrar em conjunto com as entidades e partidos com um pedido de impeachment. (…) Sozinhos não vamos entrar.

Nesse momento, causa e consequência se fundem, e a discussão sobre os métodos da UNE se completa. Isto é, a as forças que agem no sentido de reivindicar a frente ampla são o motor para essa política acomodada e reacionária das organizações da esquerda pequeno-burguesa, e a recusa em sair às ruas leva, inevitavelmente, à frente com a burguesia como única política viável. Um explica o outro e, portanto, um se apoia no outro.

As forças que operam no sentido de pressionar as organizações da esquerda pequeno-burguesa para a formação da chamada frente ampla em nada correspondem às necessidades da população. A frente ampla é e sempre foi uma política da burguesia, um último recurso a ser lançado em meio à iminência de uma explosão social. Trata-se do apelo desesperado da classe dominante para que um acordo seja feito para arrefecer a polarização política — dito de outro modo, para que as ruas, que são o que há de mais democrático, cedam espaço para as mesmas instituições carcomidas e mofadas que vêm sustentando há décadas a política neoliberal.

Quando os estudantes estão no limite de dizer: “chega de dinheiro para os bancos, é preciso de uma política para que a juventude não pereça diante da pandemia”, a frente ampla propõe: “que permaneçam Fernando Henrique Cardoso, Rodrigo Maia e todos os representantes dos bancos”. Na medida em que a crise do regime político se aprofunda, a distância entre a UNE e suas bases se aprofunda. Isso se dá porque suas direções não estão verdadeiramente vinculadas aos estudantes, sobretudo aos estudantes de origem proletária, mas sim à própria burguesia, que é indiferente a todos os dramas da classe operária no momento.

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