Com o mico na mão
O único resultado da política de aliança com a direita tradicional supostamente em nome da democracia é a completa desmoralização da esquerda

Por: Redação do Diário Causa Operária

A política da esquerda na eleição da Presidência da Câmara dos Deputados resultou num fiasco monumental. O candidato do Bloco direitista, apoiado pela esquerda, supostamente em nome da democracia, perdeu vergonhosamente em primeiro turno, ficando somente com os votos da ala esquerda do Bloco.

Os parlamentares da direita tradicional que compunham o Bloco em nome da democracia, os novos aliados da esquerda, no entanto, migraram sem demora para o apoio ao candidato do fascismo, logo após o governo Bolsonaro abrir os bolsos e despejar dinheiro no Congresso. A esquerda que se comprometeu com esse Bloco, e foi até o fim em seu compromisso, que destacou as diferenças profundas entre a burguesia democrática e o bolsonarismo, ficou no final a ver navios.

A esquerda (PT, PCdoB e PSOL, que não fazia parte do Bloco, mas preparava-se para apoiá-lo no segundo turno) havia justificado sua política de subordinação à direita afirmando que se tratava de uma aliança estratégica na luta contra o fascismo bolsonarista. A justificativa pareceu demasiado forçada, apoiar a direita que deu o golpe de Estado no país, que provocou um verdadeiro colapso da economia nacional com a imposição sua agenda neoliberal, que foram os responsável pela eleição de Bolsonaro, pela prisão do ex-presidente Lula e por tantos outros crimes contra o povo desde sempre, não parece ser uma boa estratégia de luta, é como ter a política de escolher o carrasco que irá te supliciar, ao invés de procurar libertar-se do castigo infame. A manobra gerou um conjunto de críticas, descontentamento e desmoralização.

Argumentou-se na imprensa de esquerda, sobretudo, elementos do Partido dos Trabalhadores, que foram mais cobrados pela atitude, que os cargos na mesa da Câmara eram importantes para a luta contra Bolsonaro, que abriam grandes possibilidades. Revelou-se indiretamente a quinta essência da questão, tratava-se menos de uma estratégia hedionda, desesperada e capturadora de setores pequeno-burgueses ante o bolsonarismo e mais do desejo mesquinho dos parlamentares mais a direita dentro dos partidos de esquerda de obter cargos e mais verbas.

Essa ala direita no interior da esquerda pressionou utilizando falsamente a questão da defesa da democracia, para ver se enganava os incautos. Criou-se uma grande fantasia, em que existiriam dois blocos, um de Bolsonaro e do fascismo, outro da democracia, ainda que burguesa, quando na verdade o que se estabeleceu foi uma disputa em torno de cargos e verbas. A capitulação dos Partidos de esquerda ante os interesses dos parlamentares mais direitistas foi total, entraram e defenderam sem grande constrangimento a aliança com o PSDB, DEM, PMDB dentre outros.

O deputado Arthur Lira (PP), tido como candidato do bolsonarismo à presidência da Câmara, venceu a eleição com 302 votos, levando no primeiro turno. Baleia Rossi (MDB) candidato apoiado pela esquerda “em nome da democracia” obteve apenas 145 votos, embora o bloco formado, do qual participava a esquerda, soma-se mais de 220 votos.

É sabido que Bolsonaro poucos dias antes das eleições nas Casas liberou R$ 3 Bilhões em verbas para 250 deputados, talvez esse ato de generosidade do presidente tenha sido o suficiente para que quase metade dos deputados do bloco da “democracia” recusassem sua ideologia, que a esquerda então atestava como sendo profundamente sincera, e passassem a defender o oposto, o autoritarismo. Naturalmente, a direita tradicional não tem nenhum amor pela democracia em abstrato, menos ainda seus representantes políticos, como quis fazer crer a esquerda, mas atua de acordo com seus interesses políticos, servindo-se tanto da democracia burguesa, da ditadura e do fascismo. Servem-se de Bolsonaro, e se não conseguirem alguém que sirva melhor, seguirão com Bolsonaro até o fim.

Essa lição foi tomada na eleição em questão, o que leva um parlamentar da direita tradicional a apoiar esse ou aquele não são princípios democráticos e nem nada que tenha haver com os interesses do povo. O que leva um representante da burguesia a adotar a ideologia A ou Z é seu interesse momentâneo, assim como a classe burguesa impõe a forma política do regime de acordo com seus interesses materiais no momento.

A política da esquerda falhou em seus dois intentos, nem o “democrata” Baleia, nem os cargos na mesa da Câmara. O primeiro ato do presidente eleito Arthur Lira foi anular a decisão de Rodrigo Maia, que aceitava o registro do Bloco de apoio à Baleia Rossi (MDB-SP) e chamou novas eleições, supostamente pelo fato de o registro do Bloco de Rossi ter sido feito minutos depois do encerramento do período. O fato aparentemente exclui o PT da 1º Secretária da Mesa Diretora da casa e prepara os seis primeiros cargos para seus correligionários.

O fato mostrou porém, que a política de frente ampla, de subordinar a esquerda a direita tradicional em nome seja lá do que for, leva à derrota da esquerda, uma vez que ao atrelar-se à direita rechaça sua independência e seu programa, desmoraliza-se diante das massas. Mostrou também que somente os idiotas podem crer que a burguesia tradicional cultiva algum valor democrático, não a burguesia tradicional traiu e trairá os trabalhadores na luta por qualquer valor democrático e se bandearam para o fascismo que ela mesma alimenta, no primeiro momento em que se sinta ameaçada.

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